Crônica: Algumas loucuras

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O sol vindo da janela já incomodava meus olhos, mas eu me recusava a acordar. Até que senti um movimento na minha cama e depois alguém começou a pular nela. Sem nem abrir os olhos, resmunguei peguei o travesseiro e joguei no infeliz que tentava me acordar. Ele parou de pular, mas de tentar não. 

- Acorda pra vida, raio-de-sol!

- Sai daqui seu gay - Me agarrei as cobertas e virei pro lado cobrindo meu rosto.

- Vamos, não acordei cedo pra nada!

Fingi que estava dormindo e por alguns instantes até achei que ele tinha desistido quando senti ele sair de cima de cima de mim e o quarto voltou a silencio. Doce ilusão. 

Dan voltou com John e a ambos pularam na minha cama dando gargalhadas. Dei um grito e mandei eles irem pra fora, e a outros lugares também. Bufei novamente e me levante. Que preguiça! Fiz minha higiene matinal e sai pra sala, encontrando os dois marmanjos esparramados no sofá.

- Quem deixou vocês entrarem? - Perguntei me jogando no meio dos dois.

- Sua mãe, ué - Respondeu Dan passando o braço pelo meu ombro.

- Ela devia ser mais seletiva quando se trata do tipo de gente que ela permite entrar nessa casa.

- Ah, vamos docinho - Dei um tapa em John enquanto ele me puxava pra cozinha a fim de que eu comesse algo antes de sairmos  - é cedo, vamos andar pela cidade hoje, dar uma volta de skate, que tal?

- Bacana, vocês vem aqui, me acordam cedo, me chamam pra sair, mas nem ao menos sabem pra onde vão.

- A gente sabe sim, andar pela cidade!

Reverei os olhos e fui comer. Os meninos pegaram seus skates e eu meus inseparáveis patins e fomos dar uma volta pelo bairro. Depois de alguns quarteirões, aquilo já estava ficando chato. Então chamei os dois pra andar pela orla da praia, aproveitando pra ir no pequeno parque que tinha por lá.

- Vamos no minhocão!

- Que isso Dan, parece uma criança. Evita isso cara, as pessoas sabem que andamos juntos.

- Sabem mesmo... - Dan passou a mão no braço de John com uma cara safada e eu não pude conter o riso. Como eles eram idiotas, meu Deus!

- Sai pra lá, coisa horrorosa!

- Não sou você.

- Ei parem com isso - interrompi - Vocês dois tem cara de quem grita em minhocão, eu hem. Daqui a pouco quem vai ter vergonha de andar com vocês sou eu.

- Mas você nos ama, né docinho?
  - Me chama de docinho de novo e se arrependa.

John deu um gritinho e me abraçou. Com muito esforço me soltei e entramos na "montanha-russa" com aqueles perdidos fazendo comentários como "Adoro sentar no minhocão". Na primeira decida eles começaram a gritar feito garotinhas e eu só conseguia me matar de rir. Depois fomos na roda-gigante e mais uma onda de gritos agudos e ataques de risos. As pessoas nos olhavam esquisito, como se estivéssemos drogados. Estávamos apenas sendo felizes. 

- Hora de comer?

- E você só pensa em comer né, Danilo? 

- Preciso repor as energias, neném. 

- Mudou meu apelido foi?

- É que você disse que não gostava de docinho. - Revirei os olhos.

No shopping comi um sanduíche normal com um refrigerante enquanto os outros dois comeram batatinhas, um bigmac e um copão de coca-cola, cada. Depois de algumas voltas e lamentações pro sermos pobres e não podermos comprar as coisas que queríamos, fomos pro ultimo andar do prédio do estacionamento, de onde dava pra ver toda aquela parte da cidade. Era lindo. Me apoiei na barreira pra admirar a paisagem enquanto os meninos tiravam latinhas de spray das mochilas.

- Vocês estão doidos? Vão pichar aqui? E se um segurança pegar vocês?

- Relaxa menina, a gente já fez isso um bilhão de vezes, os seguranças nunca sobem aqui em cima.

E começaram a desenhar na parede mais próxima. Dividia minha atenção entre o desenho, a paisagem e em olhar se vinha alguém, mas como sempre, aquele andar estava vazio. Vasculhei a mochila deles e encontrei garrafas de bebidas. Entreguei uma pra cada e comecei a beber a minha. Estávamos distraídos conversando quando ouvimos vozes. Eram os seguranças. 

Numa rapidez assustadora, Dan e John jogaram tudo dentro das bolsas e gritaram pra eu correr, enquanto corriam na frente. Descemos as escadas o mais rápido o possível e num instante já estávamos correndo fora do prédio e rindo. Levemente alcoolizados. 
Fomos a praia novamente, observar o pôr-do-sol. Me joguei na areia ao lado de Dan enquanto John foi atrás de mais bebida. 

- Ta afim de diversão noturna, gatinha?

- Depende de que tipo de diversão você esteja se referindo - Ri lembrando de outras ocasiões em que ele me fez a mesma pergunta.

- Vai rolar uma festa não muito longe daqui, você devia ir com a gente.

- Talvez...

Ficamos alguns minutos em silêncio observando o sol sumir no horizonte. Não fazíamos ideia onde John tinha se metido, nem tínhamos mais esperanças de encontra-lo ou de ter nossas bebidas. 

- Lindão esse mar e esse sol né?

- Você é mais linda - Ele sorriu. Acho que era pra ser mais pra sedutor, mas com aquela cara nada podia não ficar extremamente safado.

- Falo sério. Sempre quis viajar de barco por esse mundão vivendo nesse mar e assistindo o pôr-do-sol assim todo dia. 

- Então vamos fazer isso. Nas primeiras horas de viagem a gente afunda, mas pelo menos você realiza seu sonho. - Joguei-lhe areia - Mas você não teria coragem.

- Como assim? - Questionei indignada.

- Ah, enxergue os fatos, você não gosta de aproveitar a vida. Na verdade, tem medo. Assim fica difícil te levar pro mal caminho! Já foi luta pra te fazer beber, imagina fazer você fazer loucuras!

- Eu não tenho medo de viver coisíssima nenhuma!

- Então porque ta sempre dando pra trás em tudo? - Encarei ele alguns segundos sem resposta - Você precisa aproveitar a vida, não fique se preocupando com as consequências, deixa o amanhã pra amanhã, o hoje é hoje!

Olhei pro mar pensativa por mais alguns segundos. Aquelas palavras estavam me incomodando. Mas só incomodavam porque eu sabia que eram verdade. 

- Vamos a essa festa. - Falei decidida.

Nos levantamos e fomos pra festa, assim do jeito desarrumado que estávamos. Todo mundo lá devia esta bêbado, nem iam reparar. Encontramos John agarrado com alguma vadia qualquer, e logo perdi Dan de vista. Teria que me divertir sozinha pelo visto, porque provavelmente eu não encontraria mais nenhum dos dois naquela noite, a não ser que procurasse em algum dos quartos, o que eu não iria fazer. Não mesmo. 

Peguei uma garrafa de bebida e me sentei em um canto qualquer da casa, observando as pessoas dançarem loucamente e fazerem coisas obscenas. Não conhecia ninguém ali, pelo menos ninguém que estive sóbrio ou que não estivesse ocupado... Mas eu estava curtindo minha solidão. O celular vibrava no bolso, devia ser mamãe me procurando. Ignorei. Ah, ela que se exploda. O mundo que se exploda também. Queria curtir minha noite, pela primeira vez na vida, sem me importar com nada. Olhei em volta e vi que alguém me encarava. Um par de olhos verdes muito bonitos, devo dizer. Sorri em resposta. Eu iria seguir o conselho de Dan, eu ia curtir a vida sem me importar com o amanhã.

Afinal, a vida é só uma, certo? 

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