Crônica: Gaveta

15:30

Ela era ingênua. Acreditava em tudo e em todos e engolia cada mentira. Um boba, que se deixava ser usada pelos outros a troco de nada, só angustias, talvez. Ela costumava a criar expectativas de mais, sonhar de mais, imaginar de mais, voar alto… Mas sempre se decepcionava. Guardava as decepções numa gaveta, para fingir que elas não existiam, e escondia as mágoas só para si, se angustiando ainda mais quando decidia compartilha-las com alguém que perguntava por educação ou curiosidade, não porque estava preocupado […] Até que ela foi se engasgando com as mentiras e deixou de engoli-las. A gaveta das decepções foi ficando muito cheia até o ponto de não caber mais nenhuma mágoa, inclusive as que criava tentando compartilha-las, então ela trancou a gaveta, para esquecer seu conteúdo, e para não compartilha-lo com mais ninguém que pudesse feri-la ainda mais. Parou de criar expectativas, porque sabia que sempre iria quebrar a cara, e porque seu coração já não aguentava mais aquela situação… Ah, seu pobre coração. Sempre remendado e costurado depois das inúmeras decepções e angustias que ela ia acumulando… Era hora de parar de ser idiota, de ser ingênua, de ser boba, era hora de mudar… E assim ela foi ficando vazia. Vazia de sorrisos, vazia de alegrias, vazia de esperança… E foi ficando cheia de sorrisos forçados, de feridas inflamadas, de mágoas guardadas […]  Mas não era para enganar, não era tristeza, não era frieza… Era só a vontade de seguir em frente, levar a vida, sem ter que se machucar mais.

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