Crônica: Observando as estrelas

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Era um dia chuvoso. Caminhava pela calçada ouvindo o barulho da chuva e rodando o cabo do guarda-chuva entre os dedos. Passei pelo porteiro, dei bom dia e me dirigi ao elevador. Segurei-me a tentação de apertar todos os botões. Da última vez que fiz isso quase quebrei o elevador, fiquei presa lá, teria sido horrível se não estivesse acompanhada, e muito bem acompanhada... Aproveitei o espelho pra dar uma última checada nos meus fios rebeldes, um retocada no batom vermelho. Nem sei porque ajeitava, no final, ia ficar tudo borrado mesmo. Chegando a porta do apartamento, mal podia conter o sorriso. A ansiedade em matar logo essa saudade que corroía meu peito era grande. Faziam semanas que não nos víamos. 

Um tipo alto e bonito abriu a porta e logo também abriu um sorriso. Abraçou-me carinhosamente. Pena que foi só isso. Mas o que mais eu poderia esperar? Éramos apenas bons amigos.

- Então, o que vamos fazer essa tarde?

- O que você quiser. - Respondi sorrindo. Era sábado. Os pais dele tinham viajado para uma quinquagésima lua de mel e a irmã iria passar o fim de semana na casa de uma amiga, ou pelo menos dissera que ia. Estávamos sozinhos.

- Bom, esta chovendo, não podemos sair, é melhor nos divertirmos por aqui mesmo. - Disse me arrastando pra cozinha. - Já almoçou? Que tal cozinharmos alguma coisa?

- E com cozinhar você quer dizer fazer miojo e brigadeiro? Porque até onde sei é só isso que sabemos fazer!

Rimos juntos. Ele pegou um livro de receitas no armário e começou a tagarelar sobre que era perfeitamente capaz de ler e fazer a receita direitinho, que ia fazer o melhor almoço do mundo e que eu iria me surpreender com seus dotes culinários. 

- Vai cozinhar pra mim? Uma vez me disseram que era bem sexy um cara cozinhar pra uma garota.

- Na verdade, sexy é ele cozinhar com uma garota. Você vai me ajudar.
 Joguei um pano de prato nele. Ainda ríamos como dois idiotas que éramos. 

- Sou pior de cozinha do que você!

- Relaxa, vai da tudo certo.

- Você sempre diz isso quando quer me convencer a fazer merda.

- E eu sempre te convenço! É apenas culinária, nada pode dar errado, no máximo queimar a comida. - Parece que a sorte encarou essa frase como um desafio. 

"Vai dar tudo certo" Murmurei virando os olhos. Era quase como amaldiçoar a vida, só porque ela quer contrariar isso.

Folheamos as páginas do caderninho até achar a receita que aos nossos olhos era a mais fácil. Poucos minutos depois já havíamos transformado a cozinha em uma bagunça, se a mãe dele nos pegasse ali, naquele momento, com certeza teria um ataque.

- Então, já to fritando as coisas aqui, leia o próximo passo da receita. - Ele dizia enquanto mexia a melecada que havíamos feito na frigideira.

- Ah não! Você fez uma coisa errada, tinha outro passo antes desse!

- A culpa não é minha, eu só faço o que você diz - Disse num tom levemente irritado - Agora vamos fazer do meu jeito.

Ele jogou mais alguns ingredientes dentro e aumentou o fogo. Péssima ideia. Já estava irritado e jogava as coisas com uma certa violência, deve ter sido por isso que o pano de prato que segurava caiu em cima da frigideira e começou a pegar fogo. Gritei assustada enquanto ele, também preocupado, fez o inteligente ato que desligar o gás e o fogão. Estávamos incendiando a casa! Liguei a torneira e comecei a jogar água, mas ele me empurrou pra trás e fechou a frigideira com uma tampa qualquer. Sem ar, sem fogo. As chamas apagaram aos poucos, depois de alguns esforços, e só o que restava era o cheiro de fumaça.

Algumas lágrimas de nervosismo rolavam pelo meu rosto. Ainda estávamos parados tentando controlar a respiração e nos entreolhamos. Ele veio e me abraçou sussurrando "Calma, já passou. Foi só um susto." e ainda soltou uma brincadeira que redeu-lhe um tapa "Sua fraca, chora por tudo."

- É melhor você ir limpando isso, vou pedir uma pizza pra gente, depois venho te ajudar.

Acabamos por perder a tarde entre limpar todo o estrago e comer pizza assistindo a um filme que eu já tinha  visto no mínimo um milhão de vezes. Nenhum dos dois estava dando muita atenção a história, estávamos conversando e só notamos quando o filme acabou porque apareceram os créditos.

- Então, sua irmã foi mesmo pra casa da tal amiga? - Perguntei me ajeitando no seu braço.

- Ah, sei lá. Aposto que foi pra casa do namorado. Antigamente mau saia de casa, agora sai cedo e só volta de 3h da manhã. Eu acho é bom, ela que vá lá se divertir e vê se me deixa em paz. - Ri lembrando da irmã dele. Era uns dois anos mais velha, bem parecida com ele e um pouco... Intensa.

Olhei pela janela, o céu já começava a mudar de cor, sinal que era final de tarde. A chuva já havia passado e eu nem tinha percebido. Levantei-me pra olhar a paisagem mais de perto. O ritmo acelerado da cidade lá em baixo, tudo úmido por causa da chuva recente. A calma da rua mais cedo tinha sido substituída pelo barulho dos carros. Minha cabeça estava longe quando senti alguém chegando por trás. E me levantando. Protestei.

- Me põe no chão, agora! - Eu tentava impurralo e me mexia muita para que ele me colocasse no chão, mas só fazia me puxar com mais força pra perto de si. E meu rosto já começava a ruborizar de raiva e de vergonha.

- Calma, só estou te dando uma carona. - Disse aparentemente divertindo com a situação. Entrou no elevador e apertou no último botão.

- E se alguém entrar aqui? O que vão pensar?

- Tirarão muitas conclusões precipitadas, com certeza.

Ele me pôs no chão e quando comecei a distribuir uma série de tapas e socos de fúria, o elevador parou e ele me empurrou para fora. Estávamos no telhado no prédio, uma enorme área de concreto de onde podia-se ver o céu colorido e a cidade quase toda lá em baixo. Era lindo. Até esqueci porque estava com raiva e deixe que meu amigo me puxasse pela mão para andarmos um pouco, e ficamos caminhando e admirando a paisagem em silêncio por alguns minutos. Ainda segurava sua mão quando o sol estava prestes a se pôr. Soltei-a e corri até a beirada, sentei-me olhei para baixo. Era muito alto. Meu estômago revirou e prometi a mim mesma não olhar para lá novamente. Ele chegou por trás tentando me puxar e alegando que era muito perigoso sentar-se ali, mas eu apenas sorri e o puxei para perto de mim, e ele se sentou me abraçando e assim, calados, assistimos ao espetáculo da natureza que era o fim de mais um dia. As luzes dos prédios já começavam a acender e as estrelas a aparecer, e aos poucos fomos saindo daquela espécie de transe em que nos encontrávamos. Virando o rosto aos poucos, percebi que os nossos estavam muito próximos.

- Foi a coisa mais linda que já vi. - Talvez eu estivesse exagerando, mas só por ele esta ali, comigo, já tornava qualquer momento inesquecível.

- Pra mim foi a segunda. - Disse se aproximando ainda mais.

- E qual foi a primeira? - Ele respondeu juntando seus lábios aos meus e começando o beijo leve e carinhoso. Quando percebemos o perigo em que nos encontrávamos, saímos da beirada da morte e nos deitamos mais pro meio do espaço para começar a observar as estrelas.

- Consegue achar alguma forma no meio delas? - Perguntei quebrando o silêncio.

- Não se fazem isso com nuvens?

- Com estrelas também.

- Mas daqui não se pode ver as estrelas direito, a luz da cidade ofusca o brilho.

- Então vamos fugir para um lugar onde possamos observar as estrelas. - Nos encaramos por alguns minutos, sem dizer nada. Aqueles momentos de silêncio chegavam a ser desconfortáveis ás vezes. Desse vez ele foi interrompido por um beijo mais intenso, e depois que acabou, olhei nos seus olhos que estavam com um brilho diferente esta noite, e perguntei:

- Porque tudo isso agora?

- Você sabe não é algo de agora. Nos dois sabemos que existe algo a mais a muito tempo. - ele fez uma pausa pensativo - Só não tinha chegado a hora certa ainda.

- Sempre soube que eu dava bandeira de mais - Ri fraco. - Sempre tive receio de contar o que eu sentia. Acho que era medo de não ser correspondida.

- Mas agora você não precisa ter medo de mais nada. - Disse afagando meus cabelos. - Eu estou com você. Sempre estive.

- Para sempre?

- Para sempre.

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