Crônica: Ônibus

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Caminhei um pouco à procura de um lugar vago entre aqueles rostos cansados. Achei um ao lado da janela, de onde se via o céu colorido de fim de tarde. Parece que a janela do ônibus é como a da alma e que se você não sentar lá sua felicidade não será completa. Mas a viagem ia ser longa até a minha parada e a paisagem repetitiva da cidade estava começando a me cansar. Resolvi então parar para observar as pessoas daquele veículo grande e velho.

Cometi o pecado de rotular as pessoas. Olhava para aquelas com aparência cansada e logo via que eram trabalhadores, loucos para chegar em casa, ver a família, assistir a sua novela predileta e ir dormir. Essa mesma rotina, todos os dias, sem tempo nem pra se perguntar se é feliz. Eu me pergunto se essas pessoas são felizes. Alguns dirão que sim, porque gostam do trabalho. Outros dirão que detestam. Mas muitos responderão que sim só porque já estão acomodados e acostumados com o emprego ou dizer “Trabalho não é pra gostar, é pra sobreviver e ter comida na mesa todos os dias.”.

A vida não sorri pra todo mundo. E o pior: alguns tem as oportunidades e não sabem aproveitá-las. Tem gente que se acomoda e acha que tem tudo. Outros se acomodam por preguiça de correr atrás. Ninguém deveria ter preguiça de correr atrás da felicidade, porque ela corre rápido, mas quando você alcançá-la todo esforço vai valer a pena. Ela é boa em se soltar também, então fique de olho. Você pode alcançá-la e de uma hora para outra se ver tendo que correr atrás da danada novamente.

No ônibus, que chacoalhava bastante, eu precisava aturar as típicas pessoas que ficam lá atrás ouvindo música no volume máximo e sem fones. Classifico essas como mal-educadas. Todos têm o direito de ouvir o que quiserem, mas você não pode obrigar todo mundo a ouvir o que você quer. Todo mundo já está cansado, atura o ônibus cheio, com gente suada, e ainda ter que aguentar sem noção é dose.

Muitos ali tinham cara de estudante. Alguns deviam ser realmente esforçados aproveitando a grande oportunidade que a vida dá para não muitos e que a maioria não sabe aproveitar: estudo. Quem sabe daqui a alguns anos eles nunca mais tenham que pisar em um veículo como esse novamente. Alguns só deviam pensar em festejar a vida, esperando chegar em casa para esquecer-se de vez da escola e pensar que a vida vai se fazer sozinha. Futuramente talvez não passem de desiludidos.

Existiam muitos tipos de pessoas naquele ônibus e eu já estava achando até ridículo classificá-las. Eram tantas histórias diferentes reunidas, imaginei quantas deveriam ter passado pela cadeira onde eu estava. Desejava que aquelas pessoas fossem felizes. Todos eram tão diferentes, juntos naquele ônibus pareciam seguir a mesma direção, mas na verdade estava cada um indo por um caminho diferente.

Então vi pela janela aquela parada conhecida e me condenei mentalmente por ter me distraído tão facilmente. Pedi licença, usei o meu conhecimento sobre educação que você só aprende andando em um transporte público, empurrei alguns e finalmente desci na parada mais distante e aparentemente até um pouco desconhecida. E esperando não ser assaltada, fiz o que todos os que eu observei estavam fazendo: segui meu caminho.

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