Crônica: Positivismo

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Chovia muito naquela noite. Sentada no chão frio observava as sombras pela casa adquirirem um formato fantasmagórico. O vento balançava as cortinas com força e a chuva molhava o chão próximo a janela que eu havia deixado de fechar. Era uma tempestade, o céu estava fechado e lá fora só via-se escuridão. Incrível como algumas coisas que acontecem na vida tem a ver como você esta se sentindo. 

"Se o tempo fechar para você, brinque na chuva." E poderá ser atingido por um raio. "Se a vida te der limões, faça uma limonada." Os limões certamente estariam estragados. Positivismo só serve para iludir e te fazer fugir da realidade. E se no fundo do poço tiver cobras? E se a luz no fim do túnel for uma queimada? Não da mesmo para acreditar nessas frases populares.

Me levanto e fecho a janela, observando mais formas estranhas que a noite fazia no jardim. Sorri me lembrando que a coisa que mais me preocupava anos atrás era se um monstro iria aparecer ali, no meio da chuva, da escuridão, que nem nos filmes de terror que costumava assistir com meus amigos de madrugada. Amigos esses que hoje em dia poderiam representar muito bem aqueles monstros que sempre nos apavoravam. Porque quando você cresce sua maior assombração mesmo são os seres humanos.

Subo para o quarto e ouço o eco da madeira velha da escadaria ranger quebrando o silêncio quase insuportável que se instalara ali. Em frente ao espelho me pergunto se conheço aquela pessoa parada a minha frente. Cabelos sem vida e rosto pálido marcado por olheiras profundas. Passo a mão por minha pele e noto que estou um pouco febril. Os quilos a menos são perceptíveis e em outras épocas eu até comemoraria o fato. Os olhos escuros deixavam transparecer a dor que estava sentindo. Como tudo pode mudar em tão pouco tempo? O ano mal tinha começado e eu já queria pular para o próximo. A lista de decepções eram imensas e eu ainda estava no começo de março. Em frente ao espelho eu observava alguém sem esperança.

No banheiro, lavo meu rosto que ainda estava molhado pelas lágrimas e encaro minha imagem no pequeno espelho. Sorrio para mim mesma tentando parecer amigável já que não tinha mais ninguém que pudesse fazer isso por mim. E sussurro para o meu reflexo "Vai ficar tudo bem, um dia a tempestade vai embora.". Ironicamente a chuva começou a cair com mais força sobre aquela casa velha. E lá estava eu novamente me enchendo de esperanças e expectativas. Já era de se esperar, eu sempre fui tão positiva...

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