Crônica: Era a metade da minha laranja, mas estava podre

18:25


A vida segue, o tempo passa, o pó se acumula. Em cima das lembranças, dos sentimentos, dos sofrimentos. Mas eles ficam lá, guardados em algum gaveta, perdido entre folhas usadas. Você também ficou perdido em algum lugar do meu passado, mas não sinto vontade de vasculhar as memórias para te encontrar. Por mim, a poeira todinha podia se acumular em cima do seu nome, cobrindo também os meus ouvidos, para não ter nunca mais que escutar a sua voz.

Eu devia ter vomitado as palavras, deixado escapar aquelas borboletas no estomago ou aberto os olhos quando você quis me mostrar a verdade. Mas os fechei. Deixei-me levar por sentimentos e momentos. Eu me permitir desfrutar a sensação de estar sempre amarrada à uma balão que me leva cada vez mais alto, além das nuvens, mas você o furou. Deve ter sido com a mesma faca que cortou meus sonhos e minhas vontades. E depois me aprisionou numa gaiola imaginária, que sempre cercava nossa vida, cheia de cobranças e promessas falsas, me fazendo sempre sentir como se estivesse afogando e caindo cada vez mais em um poço sem fundo de planos que nunca se realizariam. Não conseguia respirar. E não era aquela sensação se falta de ar que eu sentia bem no começo quando estava perto de ti, aquilo era apenas ansiedade, efeito colateral de amar. O que veio depois foi algo pior, a mesma coisa que não permitia que eu não olhasse para os lados ou desfrutasse um pouco da luz lá fora, longe da minha vida, longe dos meus problemas.

Agora me pergunto como me você me vendou tão facilmente. Devia ser a sua maneira boba de encarar a vida. O brilho nos seus olhos que surgia sempre que você se empolgava falando daqueles seus assuntos chatos que, me desculpe, nunca prestei muita atenção. Aquele seu sorriso meio torto de quando estava genuinamente feliz, se é que algo em você era verdadeiro. Uma junção de detalhes que me induziram a construir castelos enormes com pilares de areia e sonhos impossíveis feitos de plástico. E eu era tão apaixonada pelas suas ideias e ideais. Como adivinharia que eram todos instantâneos, vindos prontos, arranjados em algum lugar qualquer? Como me deixei levar pelas suas palavras tão belas, mas ao mesmo tempo tão vazias? Foi o seu rostinho bonito e sorridente. Bom, agora nem tanto, depois que coloquei um ponto final nas suas frases bem elaboradas para penetrar na gente tanto quanto o seu olhar. Fico contente por ter aberto a gaiola e voado para longe. Sentir o ar puro entrando novamente nos pulmões com força doeu até, mas a sensação de ver as estrelas novamente valeu a pena. E, apesar dos bons momentos, não quero olhar para trás, pois por mais que eu sinta falta de me embriagar com o seu cheiro, não quero ficar cega novamente apenas pelo seu sorriso. Afinal, como diz o ditado, quem vê cara, não vê coração. 


Posts relacionados

0 comentários