Aquele batom vermelho...

22:05


Ela levantou a cabeça e olhou para o próprio reflexo no espelho. Parecia tão frágil. Tão destrutível - na verdade, parecia já estar destruída. Olhando daqui, eu me perguntava o que teria derrubado assim aquela que eu sempre achei que era inquebrável. Meu coração apertava pela insaciável vontade de ir consola-la. Ela encarava o espelho, com um olhar penetrante que deixaria qualquer um enfeitiçado. Eu gostaria de saber o que havia acontecido. Eu nunca havia a visto desse jeito. O rímel e o delineador manchavam seu rosto, deixando claro que ela havia chorado. Provavelmente teria sido aquele cara. O último idiota que ela trouxe pra casa. Eu sei que é estranho que eu saiba tanto ou que a observe da janela do meu quarto. Mas ela tem alguma coisa que me fascina. Vê-la assim me machucava, mas o que eu poderia fazer? Me levantar, bater a porta dela e dizer "hey, eu moro aqui na casa ao lado, tava te espionando pela janela, queria saber se posso fazer algo pra te animar". Não soa muito promissor. Eu estava devaneando demais, então voltei minha atenção para ela mais uma vez. Ela ainda olhava para si quando levantou lentamente uma das mãos e passou a mão embaixo dos olhos para limpar a maquiagem borrada - sem sucesso, então pegou um pedaço de algodão banhado em um desses produtos que tiram maquiagem e começou o processo, como eu a via fazer todas as noites, há quase dois anos. Alguns minutos depois, o rosto dela estava impecavelmente limpo, e ela, estava ainda mais bonita, mesmo que ainda estivesse triste. De repente, ela encarou o espelho com uma das sobrancelhas levantadas, como se desafiasse a si mesma, e sorriu para ninguém além dela. Então piscou como se tivesse acabado de tomar uma decisão. Olhou para o espelho mais uma vez, e começou a se maquiar. Passou um pouco daquele pó (que era totalmente desnescessário, já que ela tinha uma pele perfeita), e lápis preto nos olhos. Colocou sobre os olhos umas cores escuras, a um pouco de corretor embaixo, para esconder que havia chorado. Aplicou aquele rímel que deixa os cílios dela perfeitamente moldados. Passou aquele batom vermelho que consegue deixar ela mais irresistível - eu sei, difícil de acreditar - olhou-se no espelho e dirigiu-se ao guarda roupa. Eu sempre me diverti observando o dilema dela para escolher uma roupa na hora de sair, mas dessa vez ela já tinha um figurino em mente. Ela pegou aquele vestidinho preto, na altura do joelho, com um decote V e rendado nas costas, calçou aquele saltinho, também preto, que a deixava mais ou menos com 1,65m. Eu sei que parece inocente da minha parte mas desde sempre,eu virava de costas quando ela estava trocando de roupa. Uma questão de respeito, digamos assim. Alguns minutos depois eu dei uma olhada de canto de olho e ela já estava vestida, arrumada, mais uma vez sentada em frente ao espelho, encarando-se. Deus do céu, ela estava maravilhosa! Eu me estava me perguntando aonde ela iria dessa vez, e como seria o cara que ela levaria para casa essa noite, quando ela debruçou-se e escreveu algo no espelho com o batom. Ela estava na frente, então eu não consegui ler. Mas, mesmo com aquelas letras rabiscadas no espelho, eu via parte de seu reflexo, e por um momento, ela parecia estar me encarando. Mas logo ela estava encarando a  si mesma, então acho que foi impressão minha. Então ela se levantou, como se nada pudesse abala-la, ajeitou o vestido, e virou-se em direção a mim. Eu congelei, da cabeça aos pés. Ela piscou pra mim e, eu juro por Deus que minha boca estava escancarada. Ela riu da minha reação, e saiu do quarto. O que havia sido aquilo? Eu ainda estava sentado no mesmo lugar, tentando processar o que havia acontecido, quando ouvi a campainha tocar, anunciando aquilo que mudaria o resto da minha vida. 
 - E o nome dela era Luana.
Por Bárbara Andrade.

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