Crônica: Tempo, tempo

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Nós levamos a vida como se tivéssemos todo tempo do mundo. O tempo levou nossas lembranças de quando estávamos no topo, ou pensávamos que estávamos. Fizemos bobagens e vivemos intensamente porque nos foi dito que era assim que deveria ser. Talvez quem eu era de verdade tenha sido deixado de lado para dar lugar a alguém que nem mesmo eu conhecia. Alguém moldado pela ambição de se encaixar nesse mundo e recheado dessas regras que ditam até a liberdade.

Eu esqueci seu rosto e não sei se você se lembra do meu. Nem lembro se fiz a escolha certa, nem sei se estou tomando o melhor caminho agora. O tempo passado não se apaga, não se repara, só vira lembranças para serem perdidas depois que viramos cinzas. O que fica e o tempo não destrói são os nossos feitos, e se você não fez nada de bom, prepare-se para deixar sua lembrança ser levada junto com todas as outras guardadas no seu coração.

Nós tínhamos todo o tempo, todo o tempo. Não tínhamos nada, não temos nada, agora nem mesmo um ao outro. Construímos um mundo próprio, mas a realidade quebra qualquer barreira de sonhos estúpidos e desenhos egoístas. Agora, foi-se o tempo, perdemos a chance. Acabamos perdendo o futuro pensando demais no agora.

Meu passado está morrendo, as lembranças são só borrões e os erros gritam na minha mente. O amanhã talvez seja melhor, ninguém sabe, mas não fizemos, não há nada para esperar, talvez não exista futuro para nós. Talvez a gente volte a se encontrar e se lembre do rosto um do outro. Faça o presente fazer sentido. Descubra o amanhã. Não há nada no futuro para nós e nossas lembranças irão conosco para o túmulo, morrendo primeiro. Ainda é cedo, mas talvez seja o ponto final.

O tempo não para, ele passa e passa. A vida vai fugindo de mim a cada suspiro. Gostaria de lembrar o seu rosto, gostaria ter sido quem eu queria ser, gostaria de ser lembrada por algo além da vida vazia que levei. O relógio continua correndo. Desperdiçamos o tempo sendo quem deveríamos ser, não quem gostaríamos. Ficamos com quem nos disseram para ficar, não com quem amávamos. Valorizamos as coisas erradas, seguimos caminhos diferentes. Não fizemos nada, nem faremos, está chegando ao fim. Não há nada de bom para ser lembrado. É melhor que o vento a nós e estas palavras. Enfim, liberdade. Que o vento leve. Que o tempo leve. Ele não volta.


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