Crônica: A saudade bateu em minha porta e eu abri

21:54


 A saudade bateu com força na porta, e para amenizar a dor de cabeça que as batidas me causavam, deixe-a entrar. Ah, minha velha companheira. Ofereci um café, mas ela recusou de maneira educada. "Você sabe que ele não gostava de bebidas quentes". Ofereci o último redbull da geladeira, o que restou dos que eu sempre comprava para o caso de você aparecer de surpresa, e ela aceitou. 

 - E então, como andas? - ela perguntou casualmente, como se eu não soubesse que rumo essa conversa tomaria. 

 - Inundada pela sua presença dentro de mim, mas estou sobrevivendo. 

 - Imagino a falta que ele faz. 

 - Imagina? Ora, não se faça de boba, sabe que a culpa é sua. 

 - Minha, realmente. E sua. Posso ser a culpada da sua dor, mas não fui eu que fiz ele ir embora. 

 - Ah, cale-se e beba. - disse irritada, admitindo pra mim mesma que o fim da nossa eternidade foi culpa minha.  

 - Lembra de quando...

 - Sim, eu me lembro de tudo, não preciso que você venha aqui me lembrar? Já terminou a bebida? Ótimo, suma. - disse batendo a porta na cara da saudade. 

 A dor das lembranças que me vieram com aquele simples "lembra de quando" é indescritível. Porque eu lembrei de tudo. De quando nós passamos horas na porta de casa, conversando. Nem entramos, nem saímos. Lembrei de como você passou meses e meses implicando comigo por causa daquela festa, em que eu fiquei com aquele carinha. Lembra que você brincava comigo, fazia imitações da cena e tudo mais? Lembra das nossas brigas? Lembra de dizer que arrumava desculpas pra vir aqui pelas redondezas, mas que era sempre por causa da pequena chance de se encontrar comigo, mesmo que fosse só um pouquinho? E quando você brincava comigo, falando que devia ser minha obrigação estar com você para que você pudesse deitar na minha perna e dormir. Ah, eu sinto sua falta sim. Às vezes ainda sinto a dor de quando você disse que precisava se distanciar. Foi como se um  pedaço de mim estivesse sendo arrancado devagar e dolorosamente. Antes que eu pudesse perceber, estava ouvindo as suas eletrônicas favoritas, e vestindo aquela sua camisa que ficou aqui em casa. Me fantasiando de você para afastar a saudade. Vagando pela casa, um fantasma cheio de melancolia e saudade. Ah, como te quero, como te preciso. Lembra que você me pediu pra não beber? "Promete pra mim que não vai mais beber. Eu paro também." Eu topei. Nada de beber. Mas você prometeu não me deixar sozinha nunca, então acho que eu tenho direto a alguns goles da vodca barata que ainda está em algum lugar da casa. É, talvez a minha dor e mágoa mereçam um tempero alcóolico. Talvez eu deva devolver essa blusa; assim mesmo, do jeito que tá. Com meu cheiro e tudo. Vai ver você também acabe se agarrando a ela pra lembrar de mim. Isso se ainda lembra de mim. Talvez lembre. Talvez não. Talvez. Tudo é um grande talvez. Talvez eu deva esvaziar a garrafa ao invés de me contentar com poucos goles. Talvez deva parar suas músicas eletrônicas e me jogar de cabeça na minha melancolia, em todos os aspectos. Talvez deva apagar você da memória e me concentrar em manter minha felicidade com um novo alguém. Talvez, na verdade o que eu realmente precise é parar de abrir a porta pra saudade e ignorar as batidas com um fone de ouvido ou um remédio pra dor de cabeça. Talvez, tudo que eu deva fazer seja parar de sentir sua falta, e finalmente esquecer daquele que um dia amei.






Posts relacionados

0 comentários