Crônica: Com ou sem você...

21:44


 As rosas, antes colocadas com delicadeza no copo d'água na escrivaninha, na altura de onde o sol bate, agora definham. A cena é absurdamente melodramática, assim com tudo que cerca nossa história. As pétalas aos poucos caíam, murchas, e eu cada vez mais me identificava com a cena clichê que havia se instalado na solidão do meu quarto. O chá de camomila estava esfriando, e aos poucos a fumaça parava de subir. As rosas já caídas, morriam aos poucos. Como tudo, aliás. Ao meu redor, tudo parecia ir morrendo aos poucos. O teu cheiro no casaco. Aquele perfume que você sempre gostou. O livro que você me deu, eu já estava para terminar. O vinho já está quase no fim, e a caixa de malboro está cada hora mais perto de ficar vazia. Nossa música já estava no último minuto. O teu filme preferido já não passa mais toda tarde na tv. Nossa história vem morrendo aos poucos. E eu também.Vivendo apenas em minhas lembranças - que aos poucos definham, como as rosas ao lado da nossa foto. Apenas minhas lágrimas e a dor da saudade pareciam estar longe do fim. É como se o sol nunca mais fosse nascer, simplesmente por você não estar aqui comigo.

 O mundo gira, a vida passa, as horas se esvaem, e você aos poucos vai deixando minhas lembranças. As rosas, como por um milagre, ainda estão vivas. Assim como eu. O chá agora é de hortelã, e está longe de esfriar. Lavei aquele casaco que já estava ficando sujo, e o único cheiro lá existente é o do amaciante de lavanda. Comprei um livro novo. Troquei de perfume, comprei um com cheiro de rosas. Parei de beber, e extingui os cigarros da minha vida. Fiz uma nova playlist, com músicas de todos os estilos. A emissora começou a priorizar as comédias durante a programação vespertina. Novo corte de cabelo. Nova companhia. Vestido novo. Vida nova. Renasci. Comprei outras rosas depois que as nossas morreram de vez. Se eu esqueci de você? Ah, não, definitivamente não. Só deixei pra lá. Parei de chorar. Você não merecia minhas lágrimas, afinal. Você foi embora, e me deixou aqui, para definhar junto as flores. Mas tudo bem, o dia nasce de novo. E de novo, e de novo. E se hoje eu me lembrar de você e quiser morrer mais uma vez, tudo bem também. Porque amanhã o dia vai nascer de novo. E o sol vai brilhar, e os pássaros vão cantar, e eu vou sem feliz. Com ou sem você.



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