Crônica: Desconhecer

10:19


Ei, te vi na rua outro dia. Você parecia ter pressa, estava na outra calçada, então decidi não interromper. Íamos em direções opostas. Você aparentava ser a mesma pessoa, ainda tinha o cabelo rebelde e a cara fechada na tentativa de afastar gente desinteressante, e eu ainda sentia que te conhecia muito bem. Ou não, eu não tenho talento para interpretar as pessoas, nunca tive. Eu, por outro lado, ando meio diferente, mas nem tanto. Tomei um pouco de coragem, saí dos meus limites de sempre e tentei fazer meio diferente dessa vez, mas continuo cometendo os mesmo erros. 

A gente devia sair qualquer dia, sabe, ir a um café e jogar conversa fora como se não houvesse tantas muralhas entre nós. Se não tiver assunto, a gente inventa. O tempo, a distância, a rotina, as responsabilidades, nossas diferenças. Dá pra pular tudo isso? Vamos continuar de onde paramos, é muito ruim te ver cada dia mais com uma pessoa estranha. Sinto-me desconhecendo você. E é uma sensação terrível, se quer saber. Eu queria falar tanta coisa, mas tanta, que tenho medo, porque talvez seja tudo um monte de besteira, drama e isso te chateie. Então vamos falar sobre algo que não nos leve a um ponto que nos separe ainda mais. Diga-me: Por onde você tem andando? Para quem você tem sorrido? O que tem te feito mal? Parecem perguntas banais demais? Não há mais o que dizer. 

Eu continuo lembrando-me de você, querendo falar contigo na rua quando te vejo passar e vendo aqueles nossos vídeos do ano retrasado. Posso admitir que eles me arrancaram não apenas risadas da nossa idiotice, mas também sorrisos sinceros enquanto eu descobria guardadas algumas boas lembranças de uma das melhores partes do meu passado. Queria muito saber se no futuro vou poder fazer o mesmo. Ou se você poderá fazer isso. Seja como for, sinto que daqui para frente vamos ter muitas boas histórias para contar, porém provavelmente sem poder contar a mesma. 

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