O nome dela era Luana: O quarto que guardava os sonhos dela

12:35


Eu me lembro da primeira vez que entrei no quarto da Luana. Não foi por nenhum impulso sexual ou coisa do tipo. Eu, técnico em informática para internet, fui ajudar a Lu com uns problemas que ela estava tendo com o Excel. Eu não andei muito pelo resto da casa, entramos e fomos logo resolver o que tinha pra resolver. Mas, quando passei por aquela porta, fiquei meio embasbacado. A casa, pelo pouco que vi, era muito bem organizada. Os móveis eram absolutamente nada empoeirados, distribuídos de um jeito que deixava o ambiente mais espaçoso. A sala era simples, uma mesa para 4 pessoas, um sofá pequeno, mas com cara de aconchegante, um hack lotado de DVD’s e CD’s em todas as prateleiras, com uma televisão nem grande, nem pequena, um aparelho reprodutor de DVD logo acima dela,  e um som pequeno, colocado meio de escanteio no ambiente. Quando vi, ela já estava indo para outro cômodo. Mesmo tendo observado a Luana por anos (estranho dizer isso, parece algo meio psicopata ou algo que um tarado diria com familiaridade) eu nunca soube como era todo o quarto dela. Só via o que a janelinha me permitia ver. Agora eu estava prestes a entrar lá, o lugar onde ela passava a maior parte do tempo, quando estava em casa. Ela abriu a porta e me deparei com um lugar trilhões de vezes mais simples do que eu havia criado e recriado mentalmente tantas vezes, apesar de ser bem grande. As paredes eram azul claro, bem claro mesmo, daquele quase branco. Uma cama de casal simples, de madeira marrom escura, e extremamente arrumada (que nem aquelas de hotel, que a gente não acha nenhum amassadinho no lençol) encostada na parede oposta à porta, perto da janela.  Ao lado da cama, um criado-mudo simples, branco, com uma rosa multicolorida, amarela com as pontas rosadas, colocada delicadamente em um vaso rosa claro, quase branco. Logo ao lado, uma estante marrom escuro, como a cama, repleta de livros de todos os tipos – poesias, biografias, analises musicais, ficção, livros de histórias, clássicos da literatura nacional e internacional. Do outro lado (o lado da porta), a penteadeira onde a observei se arrumar tantas vezes. No canto do quarto, entre a penteadeira e a cama, um armário, da mesma cor da estante e da cama. Eu ainda estava meio bobo com a simplicidade de tudo quando a Lu parou do nada, no meio do quarto, cruzou os braços e pela primeira vez, olhou pra mim com uma cara séria – o que era uma cena meio cômica, porque ela estava com um rabo de cavalo lateral, o óculos de leitura, camisa e uma calça de pijama.

- Olha só JP, eu quero te dizer uma coisa antes. – eu meio que gelei quando ela disse isso, mas fiz o possível para escutar o que ela dizia, e não ficar imaginando o que de bom ou ruim ela poderia dizer - Eu te trouxe aqui hoje por dois motivos. Primeiro, porque preciso de ajuda e sei que você é bom nisso. Segundo, porque estou disposta a confiar em você.  O lugar que você vai ver agora é o meu segredo. É o lugar nessa cidade em que me sinto confortável. Segura. É um lado meu que ninguém aqui conhece, e pretendo que permaneça assim. Mas com você as coisas são diferentes. Você me conhece, ao menos em parte, mas conhece mais que qualquer um por aqui. O que você vir nesse lugar, deverá ficar guardado com você. Se você conseguir isso, conseguir guardar apenas para você a Luana que você vai conhecer agora, não comentando nada fora daqui nem comigo, poderá ter acesso livre a esse cantinho do meu mundo.  Caso contrário, pode esquecer que conhece qualquer lado meu e simplesmente fingir que não existo. Entendeu?

Meio que eu disse um “uhum” e fiquei imaginando o que poderia ter naquele quarto que valesse uma Luana séria e uma ameaça. Mas nada do que pensei chegava perto daquilo.

Assim que entrei no quarto, me deparei com tantos detalhes que demorei para ver tudo. Cada parede era de uma cor, e por incrível que pareça, isso não deixou o quarto ‘emacacado’, mas colorido de um jeito sutil. A parede da esquerda era azul, tipo a cor do céu, e tinha algumas nuvens desenhadas no topo.  A do meio era verde bem claro, como quando a gente pega um pote de tinta branca e joga no pote verde. A parede da porta era rosa, como aqueles tons de rosa das roupinhas de bebê. A parede da direita era branca. Mas nem tão branca assim. A parede era repleta de papeis, fotos e pequenos escritos coloridos. Quando digo repleta, quer dizer que, se não fosse o espaço deixado para a escrivaninha, dificilmente eu conseguiria descobrir a cor da parede. Ah, sim, tinha a escrivaninha. Se é que se pode chamar algo daquele tamanho de escrivaninha. Parecia mais uma bancada, ia de um lado a outro da parede, pintado de branco, com alguns detalhes em rosa. Em cima dela, um notebook ligado com o Excel aberto, um jornal aberto na parte de entretenimento, várias fotos da Lu em idades diferentes - na cidade onde ela nasceu, com amigas de infância, com pessoas que suponho serem seus pais e umas fotos meio “hã?”, mas que devem ter algum sentido para ela –  uma aparente coleção de miniaturas de elefantes que eu decidi que tentaria furtar mais tarde e o que parecia ser o resto do café-da-manhã dela (uma estranha mistura de sorvete com sucrilhos, uma garrafa de cerveja vazia e um copo cheio com o que parecia ser conhaque... Resolvi não perguntar). Na parede do meio, uma estante lá no alto, absolutamente lotada de bichinhos de pelúcia, de todos os tipos (elefantes, dinossauros, crocodilos), organizadoa de um jeito que eu não fazia ideia de como ela conseguiu colocar todos lá em cima. Mais pra baixo, dois pufes azuis e enormes, pareciam mais camas que pufes. Na parede azul, um sofá, absurdamente convidativo, branco, mas totalmente limpo e bem cuidado – não como se tivesse alguém limpando e monitorando cada molécula de sujeira, era mais como se ele simplesmente fosse mágico e não sujasse. Na parede rosa, mais fotos. Dessa vez, de lugares – supus que fossem os lugares que ela desejaria visitar – como Londres, NY, Rio de Janeiro...

Depois de finalmente captar os detalhes do que, agora eu sabia, era o verdadeiro quarto da Luana, olhei para ela. Me deparei com uma menina me olhando cheia de expectativa, esperando que eu dissesse alguma coisa. Pensei um pouco no que deveria dizer. Sabe, eu sempre fui apaixonado pela Luana, e agora ela me deu a oportunidade de conhecer com exclusividade um lado secreto dela, ela derrubou a grade que havia entre nós e me permitiu conhece-la. A última coisa que eu queria era decepcionar a garota que eu amava. E, com toda sinceridade, algo naquela versão garota de 15 anos da Luana me encantou ainda mais por ela. É como se, naquele quarto, a Lu guardasse todos os sonhos dela – dos quais eu subitamente senti uma vontade e necessidade de presenciar e fazer parte.

- Pô, Luana! – falei meio alto, num tom mais sério, e notei que ela se assustou e logo depois fez uma carinha meio triste. Foi quando abri um sorriso pra ela e completei a frase – Precisava daquela ameaça toda pra me pedir pra guardar segredo do endereço de um refúgio como esse? É lindo, Lu. Na real, tô me sentindo meio que honrado em ter sua permissão e confiança para estar aqui.  Obrigada. Agora, vamos começar aquela aulinha de Excel?

Ah, ela abriu um sorriso tão grande e verdadeiro, me deu um abraço tão apertado e agradecido que eu notei o quanto aquilo realmente era importante pra Luana. Sabe, ser adulta é algo que ela sempre fez muito bem. Ela é madura quando tem que ser, e sabe aproveitar e se divertir nas horas certas. Saber que ela tinha esse lado infantil e inseguro me pegou desprevenido, e me deixou mais apaixonado. E a reação dela depois da minha resposta... Eu soube naquele dia que o que eu queria fazer para o resto da vida era apelas aquilo: fazer a Luana feliz.

O nome dela era Luana, e ela me surpreendia cada vez mais.

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