Alô, poderia ao menos se lembrar de mim?

15:15


“Alô? Desculpa te ligar essa hora, mas é que eu preciso te dizer umas coisinhas, agradeceria se você pudesse apenas ouvir. Bom, estava vendo um filme e percebi que quando o amor foi verdadeiro, a separação de um casal não acaba com o amor, o amor simplesmente não acaba, ele fica lá, no cantinho dele. E, quando eu percebi isso, decidi que precisava te ligar, porque eu sei que você ainda está aqui em mim, no cantinho. E que, por mais que eu esteja feliz com outra pessoa, por mais que eu viva, case, tenha filhos, me mude pra Europa e gaste meus últimos anos de vida me dedicando a um marido aposentado e às rosas no jardim, ele ainda vai estar aqui. Você ainda vai ser o primeiro carinha que mexeu com a droga do meu coração. E quando eu estiver tomando chá no meu jardim de rosas europeias, vez ou outra vou me lembrar de você e imaginar como as coisas teriam acontecido se nós tivéssemos ficado juntos (mas não se sinta tão exclusivo, você poderá até ser o primeiro de quem me lembrarei, mas os outros ainda estarão na minha memória).  Depois, vou deixar tudo de canto outra vez. Agora, não há marido, jardins ou chá da tarde. Somos eu e meu copo de bebida barata, chorando em frente a tela por esse romance fictício de final trágico e lembrando do nosso final trágico. E eu tô te ligando porque, cara, foi trágico o suficiente pra me desestruturar por um longo tempo, e você não tem ideia de como eu queria que não tivesse sido assim. Ou talvez tenha. Não sei. Não sei mais de nada sobre quem você é, sobre o que você pensa, o que você gostaria ou não. Não importa mais, o meu foco é agora no que eu queria. E eu queria que tivesse sido diferente, porque eu provavelmente devia ter te ligado bem antes. Mas só liguei agora, espero que entenda que se eu ouvisse sua voz mais uma vez que fosse, provavelmente não aguentaria falar nem metade disso, e eu preciso te falar essas coisas. Eu quero que você saiba que, sendo eterno ou não, eu não vou mais deixar que esse amor me atrapalhe. Não vou mentir, eu sei que se você aparecesse e chamasse por mim, eu voltaria de braços abertos, me arriscaria outra vez. Mas, meu bem, acredite, não vou mais ficar sentada esperando o retorno do menino que me deixou pra trás, que me transformou em menos que lembranças. Quero que você saiba que eu realmente jamais esquecerei nós dois, mas que não por isso me incomodarei mais em devanear sobre a sua perspectiva de tudo isso. Vou te guardar aqui no cantinho, independente do que resolva fazer. Você me mudou muito, pra melhor e pra pior, e eu te agradeço por tê-lo feito. Bom... Era isso... Alô? Você ainda está aí?... Será que poderia ao menos dizer alguma coisa?”

Depois de alguns segundos a mais de torturante silêncio, a voz dele do outro lado da linha (um pouco embargada, provavelmente tinha bebido demais mais uma vez), a fez dar um pulo e reviver toda aquela história em segundos, enquanto ao mesmo tempo imaginava nervosa o que ele responderia. Já faz tanto tempo...

“Ahn... Olha só moça”, ele começou a falar, dando a ela certeza de que estava completamente bêbado,  “foi um discurso bem bonito esse seu e tudo mais, mas... qual é mesmo seu nome?”


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