O nome dela era Luana: Mas é assim que ela funciona

16:29


   Luana, 
quanto tempo se passou desde que você entrou naquele avião? Eu sabia que iria sentir sua falta, mas não imaginei que ficaria nesse estado por causa da tua ausência. Fui tomado por um vazio tão grande nesses últimos dias, como se não ver a luz do teu quarto acesa durante a noite, apagasse a luz que carrego no peito. 
   Ontem mesmo me sentei aqui na cama, para ver um filme. Involuntária e automaticamente, meus olhos se desviaram para janela, procurando por você. Quantas vezes não fiquei daquele mesmo jeito, te espiando sem ser notado (ou achando que não era notado), até o dia em que você tocou a maldita campainha e deu uma chacoalhada na minha vida? Por quantos meses não te vi debruçada na escrivaninha, engolindo livros, fazendo resumos pro vestibular? Quantas vezes não te vi largar um livro de química para agarrar aquele caderninho rosa (aquele que fui proibido de tocar) para anotar uma frase, ou fazer um daqueles seus misteriosos textos gigantescos? Me lembro de um dia que fiquei curioso com o quanto você estava empenhada no que estava fazendo. Riscava, apagava, coloria... Ficou naquilo por cerca de quarenta minutos, uma hora, sei lá. Você toda concentrada no que fazia, eu todo concentrado em você. Você fazia cara séria, parava pra avaliar se estava ficando bom, então recomeçava o trabalho. E aí acabou. Por alguns segundos, fiquei um tanto decepcionado porque percebi que de nada adiantava minha ansiosidade, jamais saberia no que estava trabalhando com tanta vontade. Mas, para minha sorte, gostou tanto do próprio trabalho que resolveu expor: prendeu no espelho, que eu conseguia ver perfeitamente da minha janela. Um desenho, com traços e ideias infantis. Então, exatamente como uma criança faria, olhou-o com orgulho, esbanjando um sensação de dever cumprido e saiu. Foi quando eu vi, Lu, que você não era realmente ruim. 
   Você bem que poderia voltar antes, não é?  Tô sentindo um aperto no peito, e algo me diz que só vai passar quando você estiver de volta a casa ao lado. Quando me acordar no meio da noite, com aquele jeito de criança manhosa, pedindo um filme emprestado porque não consegue dormir. 
   Ah! Não se preocupe com a "Fortaleza cor-de-rosa", eu ando fazendo minha parte do combinado e mantendo as coisas limpas por lá. Você bem que podia estar fazendo a sua, e me dar notícias mais vezes. 
   Sei lá, criancinha, sinto sua falta. 
   De verdade. Volta logo pra mim.


              JP.


   Obviamente, eu jamais mandaria essa carta para a Luana, então guardei na gaveta, junto com tudo que ela jamais receberia de mim. Não porque eu sinta necessidade de esconder dela o que eu sinto, até porque não é algo possível de se esconder, está estampado na minha cara (segundo meus amigos, minha mãe e a própria Luana). E eu não me importo, de verdade, não é nada de que eu me envergonhe. Mas, não faz o nosso estilo, sabe? Ou pelo menos, não faz o estilo dela. Então a carta vai pra gaveta mesmo. Ainda assim, pego o celular e mando uma mensagem. "Ei, pestinha, to precisando de alguém pra me arrastar pra uma festa. Que dia você volta mesmo?". Porque é assim que a gente funciona.

 O nome dela era Luana, 
               e ele estava morrendo de saudade.



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