O nome dela era Luana: Jeff, the dog

14:13


A Luana não consegue não me surpreender. No dia em que ela voltou de viagem, minha cabeça ficou a mil. Não sabia se queria beija-la, abraça-la ou apenas dar uma bela bronca por não ter dado notícia uma única vez depois que mandou a mensagem avisando que havia chegado. Então, apenas fiquei ali mesmo, na soleira da porta da casa dela, parado, vendo as malas sendo retiradas do táxi enquanto ela se embananava toda para tirar o dinheiro da carteira e pagar a viagem ao motorista. Ela olhou pra mim e sorriu. Foi o suficiente.

Você não tem ideia de como é o sorriso dessa garota. A Lua percebe quando alguém merece ganhar um sorriso dela, então vem toda-toda, abaixa o olhar, depois olha pra você outra vez, mexendo no cabelo e, gradativamente, começa a abrir a boca e a mostrar aqueles dentes desalinhadamente alinhados, irradiando do sorriso toda a luz que uma pessoa normal tem – e mais um pouco.

De repente eu percebi que já estava começando a ficar com cara de tapado, porque ela balançou a mão na minha frente e disse “Terra chamando”. Voltei pra minha careta de quem está se esforçando para parecer bravo e perguntei por que ela não tinha dado notícias. Então ela começou a explicar – e eu comecei com um princípio de infarto.

“Ah, é... Bom, é uma história bem louca, sabe? Vai ficar aí parado ou vai me ajudar com essas malas? Muda nada, né. Enfim, sabe, eu tava dando uma volta pela Paulista, fiquei meio sem ter o que fazer por algumas horas, resolvi pegar a câmera e sair pela cidade fotografando algumas coisas.” Ela começou a ofegar por causa do peso e eu disse para ela deixar que eu carregava as coisas pro quarto, enquanto ela continuava a tese dela para responder minha simples pergunta. “Aquilo tava lotado, no fim, eu nem consegui muitas fotos, sabe? Você quer um copo d’agua? Morrendo de calor, vou abrir essas janelas. Ah, é, sim, então. Foi no meio da muvuca mesmo, no meio daquele mar de gente, que eu o encontrei.”

Foi aí que eu gelei. A Lu falava cada vez mais rapida e agitadamente. Ela o encontrou e parou de dar notícias. Minhas chances já não eram muito grandes, agora então...

“Ah, você não conseguiria visualizar nem que eu descrevesse cada detalhe. Ele é maravilhoso, carinhoso, atencioso, parece que lê minhas emoções e sabe sempre quando eu preciso de carinho. Também sabe quando se afastar, o que é ótimo. Ele é lindo! Quem diria que naquela avenida eu encontraria o amor da minha vida, não é mesmo?”

Quando ela falou isso eu já sentia meu coração sangrando dentro de mim, como se alguém o tivesse apertado até espocar. Como eu não disse nada além de “é, quem diria”, ela continuou falando.

"Vou precisar da sua ajuda para me organizar e organizar a casa para recebe-lo bem e deixar ele bem confortável quando chegar."

"Quando... quando ele chegar?"

“É, garoto, ta ficando moco? Eu hein, agora deu pra ficar repetindo tudo. Dei a ele o nome de Jeff, não sei porque, mas ele tem cara de Jeff. É um beagle realmente preguiçoso,  principalmente considerando quão filhotinho ainda é, mas ainda assim é completamente encantador. Ele não pode vir comigo justamente por ser ainda muito filhote, mas ele chegará aqui em cerca de duas ou três semanas. Eu fiquei tão apaixonada por ele que não dei atenção a mais nada, por isso esqueci de dar notícias. Desculpe por isso. Vou te mostrar uma foto dele, aí você entenderá, e quando ele chegar, tenho certeza de que vai ama-lo também. “

Eu estava estaticamente pasmo.

“Lu?”

“O que?”

“Você disse que encontrou o amor da sua vida na Paulista?”

“Sim, acho que disse.”

“E que ele é um beagle?”

“Sim, sim. O nome é Jeff, já disse.”

Não aguentei e comecei a rir. O alívio no meu peito foi literalmente indescritível.

“Ah, Luana, você não existe. Vem aqui e me dá um abraço, tava com saudade e você me deve 3 pizzas por ficar cuidando de tudo por aqui.”

O nome dela era Luana, e ela ainda me mata do coração.



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