O nome dela era Luana: Onde está teu short?

13:17


Depois do último susto que a Luana me deu, precisei de um tempo para me recuperar. Que tipo de criatura que tem plena ciência de que tem um vizinho apaixonado por si, chega de viagem dizendo que encontrou o amor para toda a vida? Podia só dizer que adotou um cachorrinho, mas claro, se fosse assim, não seria a Luana que eu conheço. Por causa do maldito susto, eu ajudei com as malas e não dei muita atenção para mais nada. Disse que tinha que resolver uma coisa em casa e que voltava a noite. Ela não é boba, começou a rir e perguntou se eu tinha marcado cardiologista. Engraçadinha.

Como um bom apaixonado, logo depois de me acalmar, comecei a ser tomado pela vontade de voltar a casa dela e ficar o resto da vida ali, para garantir que ela não passe mais tanto tempo longe. Com um bocado de esforço, esperei até o cair da noite. Foi difícil, confesso. Acho que ouvi todos os meus cd’s e organizei toda a bagunça acumulada de meses. 

Foram 27 dias longe. Entrei no banho e fiquei me lembrando dos dias sem ela. A cidade ficou tão sem cor, tão sem gosto, tão parada. Minha vontade era me enfiar no melhor terno que achasse, e busca-la, com um buquê de lírios brancos em mãos, para jantar no melhor restaurante da cidade. É meio que o mínimo que a Lu merecia. Mas não faz o tipo dela, então quando saí do banho, coloquei a calça jeans e vesti uma camiseta branca. Acho que nunca tive tanta camiseta branca. Ela me disse uma vez que era a roupa que ela mais gostava em mim, camiseta branca. É, ela é do tipo que faz o cara trocar o guarda-roupa. Fiz um uni-duni-tê e escolhi o perfume, e estourando de ansiedade, quase caia da escada quando notei que estava pronto e saí correndo para vê-la. Uma corrida curta, já que ela morava na casa ao lado. 

Toquei a campainha. Uns segundos de espera... Nada. Toquei outra vez. Nenhuma resposta. Ah, Luana... Peguei o celular e enviei um sms. “To na porta. Tira os fones, pelo amor”. Não demorou mais que 20 segundos para que a resposta chegasse. “Ta aberta, tapado.” 

Entrei, mas nada dela. Chamei o nome dela umas duas vezes, e pelo visto ela me ignorou dizendo para ela tirar os fones. Imaginei que estivesse na Fortaleza Rosa – como ela chamava o quarto secreto – e subi, me lembrando da primeira vez que tinha ido lá.

Para a minha surpresa, ela estava no quarto principal, o que era bem estranho, porque segundo a própria, “ficar ali era muito chato.” Ela estava sentada na cama, do lado oposto à porta, então, de costas pra mim. Desde que ela voltara, aquela era a primeira vez que eu havia parado para olha-la de verdade. O cabelo dela estava maior, e diferente. As pontas estavam mais cacheadas, e com uma tonalidade diferente, algo meio cor-de-cobre, um tanto queimado, provavelmente culpa do sol. A postura estava mais ereta que o normal. Deve ser efeito de uma temporada na casa dos pais. Percebendo que eu havia chegado, ela virou-se em direção a porta e abriu um sorriso daqueles que me levam na lua. É, pelas maçãs do roso coradas, temos a confirmação de que ela aproveitou bem o sol. Ela tava com uma blusa de alcinha amarelo claro que deixava a mostra a alça do sutiã cor-de-pele. A blusa, tenho que dizer, valorizava bem o corpo dela. Foi então que eu abaixei os olhos e, tipo, uau. Acho que fiquei vermelho, porque ela teve uma crise de riso, e para quebrar o gelo, eu disse:

- Esqueceu os shorts em SP?

- Cala a boca. Você que veio sem avisar.

- Terminou de esvaziar as malas?

- Terminei antes de você terminar de dobrar os lençóis da sua cama.

- Bem provável. 

- Não, é um fato; eu tava olhando. É um tanto quanto cômico, parece uma criancinha. 

Dei uma risada irônica. Continuava a mesma Luana. E eu continuava vermelho.

- Ahn, Lu, cê já pode vestir um short. 

- Ta incomodado?

- Não, na verdade, não. Só um pouco constrangido. 

- Ah, Paulo, já me viu com menos, então poupe-me.

Pronto, ela conseguiu. Parece que esfregaram uma beterraba na minha cara. 

- Ahn-an... Então, quando o Joff chega?

- Jeff. Já te disse isso. O que há com você?

- Nada.

Ela fez uma cara de quem não acreditou, mas deixou pra lá e tirou os fones do celular, fazendo com que Titanium ecoasse por todo o quarto.

- Então, o quanto sentiu minha falta, numa escala de 0 a 10?

- Hum... entre ½ e 2. – Eu disse, de bom humor - E você?

- 9.

Uau. Luana sendo sincera sobre os sentimentos na primeira tentativa?

- 9?

- 9.

- O que quer fazer, então?

- Não sei. Me diga você, tu que é a visita. 

- Ah, sei lá, Luana. 

- Porra, JP, cê nunca sabe. 

- Prefiro que você escolha.

- Mandado.

- Voltou chata, hein?

- Ah, JP, vou deitar. Só veio pra encher. 

Ela estava... Diferente. Deitou na cama e virou pro lado. Parecia... Quase desanimada. E a Luana que eu conheço não é nada desanimada. 

- AAAAAAH, mas não vai mesmo. Sai daí, sua gorda, eu preciso descansar, sabe, eu que fiquei carregando suas malas de um cômodo para outro. 

Com um empurrão de leve na cintura dela, e derrubei e deitei esparramado na cama, para que ocupasse o máximo de espaço possível. Quando ela levantou, estava com uma expressão completamente desacreditada. Quer dizer, eu, JP, expulsando a Luana da própria cama? Ah, não, claro que isso não podia ficar assim. De repente, a Luana que eu conhecia estava de volta. A minha Luana finalmente tinha chegado. 

- JP.

- Hm?

- Sai da minha cama.

- Hmmm...

- Sai. Da minha. Cama. 

- Ou?

Ela levantou uma das sobrancelhas e quando percebi, já tinha acontecido. Ela pulou em cima de mim como um animal, parecia um tigre atrás de uma presa. Quando vi, estávamos rolando na cama de um lado para o outro, literalmente. Tudo para tentar derrubar o outro. É, bem criancice, mas é bem Luana e JP. 

Não sei por quanto tempo ficou assim, mas em algum momento ela se cansou e travou. A música parou bem na hora. Completo silêncio no quarto. Apenas o som das respirações ofegantes e do meu coração acelerado pelo olhar cortante dela. Ela estava em cima de mim, com o quadril posicionado em um local muito bem estrategicamente escolhido. O cabelo estava todo jogado para um dos lados, as mãos seguravam meus braços e sustentavam seu corpo. A Luana me olhava como quem decidia o que fazer, e eu, apenas torcia para que ela não parasse. De repente, ela sorri. Abaixa e me dá um beijo lento e doce, diferente de qualquer um dos beijos perdidos que ela já me concedeu. Ela para e sorri mais uma vez. Morde os lábios e como uma criança que acaba de pensar em algo para aprontar, pergunta:

- Ainda quer que eu vá pegar meus shorts?


O nome dela era Luana, e ela não consegue carregar as malas, mas sabe me enlouquecer.




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