Conto: Fidelidade

16:32


Era uma tarde ensolarada de quarta-feira. Eu, que aproveitava as férias há quase duas semanas, estava jogada no banco do jardim esperando uma brisa chegar e incrivelmente entediada. A cidade parecia estar ardendo no fogo do próprio inferno e não se via o vento balançar as folhas das árvores nem um pouquinho. Para mim, aquele dia estava sendo o auge do calor e da falta do que fazer. 

Desisti de tentar me refrescar e me arrastei para dentro da casa. Eu morava num belo, enorme e antigo casarão, do tipo que ninguém mais se dá o trabalho de construir. Se não vivesse naquele lugar desde que nasci, com certeza já teria me perdido uma vez ou outra naquele labirinto de quartos e salas. Minha mãe sempre quis se mudar. Ela sonhava com um apartamento bem menor e mais elegante no centro da cidade, com a melhor vista para os prédios sem graça que tivesse direito. Já meu pai fazia questão de permanecer ali, apesar de quase nunca estar presente. Ele viajava muito, de modo que na maior parte do tempo éramos apenas eu, minha mãe e os empregados naquela imensa casa. 

Não sabia muito sobre os antigos moradores. Tudo o que restava deles continuava guardado no porão, e os meus pais deixavam bem claro que não me queriam andando por lá. Apesar disso, eu desejava explorar aquele cômodo desde pequena, quando fui pega pela primeira vez tentando entrar. Não era algo que eu pudesse explicar, alguma coisa simplesmente me atraia para o outro lado da porta sempre trancada. Recebi presentes caros na tentativa de me distrair, mas nada era capaz de suprir minha frustração por tem um desejo negado. 

Subitamente senti minha curiosidade crescer enquanto eu vagava pela casa procurando alguma distração. Só havia uma empregada naquele dia e minha mãe tinha saído. Era a minha chance. Entrei na cozinha e abri discretamente a segunda gaveta do armário ao lado da geladeira, onde eu tinha descoberto que ficava guardada a chave para o porão. Quando cheguei à porta, hesitei por alguns instantes. Se eu era proibida de entrar ali devia haver alguma razão, não? Eu não tinha ideia do que estava sendo protegida. Mas em toda a minha vida, aquele foi o único "não" significativo que recebi. Por fim girei a maçaneta sorrindo, afinal, eu conseguia mesmo tudo que queria. 

Procurei o interruptor. Uma escadaria empoeirada surgiu à minha frente, mas comparada ao resto do ambiente, ela estava brilhando de limpa. Desci desviando das teias de aranha e sentindo nojo daquelas paredes imundas. A iluminação precária deixava o lugar ainda mais fantasmagórico. Era engraçado como lá embaixo não fazia tanto calor como no resto da casa – e da cidade. Caminhei entre aquele monte de móveis velhos e objetos abandonados, sempre espiando por atrás se a porta continuava aberta. 

Um porta-retrato quebrado foi a primeira coisa que me chamou a atenção. Supus que era a imagem dos antigos moradores, um casal jovem e bonito se abraçando e exibindo sorrisos. A moça era muito branca, tinha longos cabelos avermelhados e era mais bela que qualquer atriz de novela. Já o rapaz era moreno e tinha os olhos da cor de tempestade. Mas era o seu sorriso que se destacava. Não entendi por que eles tinha deixado aquela fotografia tão bonita ali. 

Continuei vasculhando os objetos abandonados que eu sabia que deviam estar impregnados de memórias. Nem reparei quando a porta se fechou. Encontrei roupas antigas, utensílios de cozinha, itens de decoração. Achei até brinquedos e depois um berço, então deduzi que eles planejavam ter uma criança. Só não fazia sentido para mim que todas aquelas coisas tivessem ficado para trás. 

Abri uma caixinha de madeira que descobri debaixo das roupas da moça. Uma bailarina surgiu e começou a girar assim que a música delicada invadiu o ambiente. Não sei dizer ao certo quanto tempo permaneci parada vendo a dançarina dar voltas e voltas, porque a melodia era interminável. Mas uma sensação estranha me fez decidir que já era hora de terminar a exploração. Então decidi também que não havia nada de ruim em ficar com aquela pequena recordação. 

Subi as escadas devagar e a princípio não me preocupei ao ver a porta fechada. "O vento deve ter batido e eu não ouvi", pensei. Porém, quando tentei girar a maçaneta, a porta não saiu do lugar. Continuei tentando e colocando toda a força que eu tinha, sem sucesso. O desespero então começou a tomar conta de mim, que só conseguia pensar que ficaria presa sozinha no porão até a vida me abandonar por completo. Foi quando a luz piscou que percebi que na verdade eu não estava sozinha. 

Ao pé da escada estava a moça da fotografia. Sua expressão era séria e o olhar vazio. O vestido florido estava rasgado e manchado de sangue. Ela estava pálida e seu cabelo ainda era ruivo, mas não lembrava nada a perfeição que era na foto. Ela me encarava quando começou a subir os degraus lentamente, e eu permaneci imóvel até a luz apagar, momento em que comecei a gritar e esmurrar a porta com força. Meu desespero aumentava a medida que eu sentia a presença daquela criatura terrível cada vez mais próxima. 

Encolhi-me no chão esperando pela morte pelo que me pareceu uma eternidade antes de Sônia, a empregada, abri a porta apreensiva e me encontrar ali, naquele estado. Eu soluçava e rezava baixinho, preparando-me para perder definitivamente a consciência. O simples toque da empregada em meu ombro me fez estremecer. 

– Sua mãe vai ficar uma fera. 

Permaneci calada. Ela me levantou pelo braço e eu ousei olhar para trás, mas para minha surpresa não havia ninguém. Fui levada até a cozinha, onde bebi uns dois copos d'água e descansei por alguns minutos, tentando me recuperar. Fiz Sônia prometer que não comentaria com meus pais nada sobre o que tinha acontecido, e depois de muita insistência ela concordou. 

– Pegou essa caixinha lá embaixo? – ela apontou para o objeto o qual eu tinha deixado em cima da mesa. 

– Como conseguiu abrir a porta? 

– Estava apenas encostada – ela respondeu confusa. 

Subi para o meu quarto e deixei a caixinha no criado-mudo, junto ao abajur. Pela janela vi que o sol já estava se despedindo. Minha mãe chegou em casa pouco tempo depois. Naquela noite seríamos eu, ela e Sônia sozinhas, tendo apenas o segurança na entrada para nos proteger. Mas estranhamente eu não me sentia protegida. E nem o conforto do meu quarto grande e cheio de coisas caras que eu amava era capaz de fazer passar a inquietude que eu tinha por dentro. 

Algum tempo depois, tudo lá fora já estava um breu. Eu continuava sozinha no meu quarto, longe de qualquer pessoa naquela casa. Abri novamente a caixinha, prestando atenção à música e ao formato daquela pequena bailarina girando. Então percebi um bilhete com algo escrito lá dentro.

Para a única e eterna luz da minha vida,
capaz de me guiar até nos dias mais sombrios, Laura.

Era um presente do rapaz para aquela mulher. Imaginei os dois apaixonados, ela abrindo a caixinha e sorrindo enquanto a melodia envolvia os dois. Esse pensamento me fez lembrar do que ocorreu no porão, fato que eu me convenci de que foi fruto da minha imaginação. Ela podia ser bem fértil às vezes. Eu não acreditava em fantasmas ou em criaturas do gênero, não tinha nada a temer. Mas não conseguia parar de pensar na visão daquela mulher. Levei um susto quando Sônia abriu a porta de repente. 

– Precisa de alguma coisa? 

– De respostas, talvez. – comecei, tentando ao máximo persuadi-la com a voz.

Sônia, curiosa, entrou no quarto e se sentou na beira da cama para saber o que eu estava tramando.

– O que aconteceu com os antigos moradores daqui? 

– Querida, sabe que não posso te responder. 

– E você sabe que seria despedida se meu pai soubesse que me deixou entrar no porão – ela assumiu uma expressão preocupada e eu sorri cheia de maldade. 

– Ah... Se quer mesmo saber, eles foram notícia em alguns jornais há muitos anos. 

– E aí?

– Parece que os dois foram encontrados mortos. Dizem que a esposa matou o marido numa crise de ciúmes, mas enlouqueceu de dor, ou já estava doida mesmo. Passou o resto dos dias trancada nesta casa abraçando o corpo do marido naquele porão fedorento. E foi assim que a polícia encontrou o casal. 

– E é por isso que meus pais não me deixavam ir lá? Os corpos continuam nesta casa?

– Claro que não, a polícia recolheu. Eles não te deixam ir lá porque é um lugar horrível. 

– Pois eu achei bem interessante. 

Quando Sônia saiu, tratei de esquecer a história para não me abalar com isso. Liguei o som e comecei a pintar as unhas de amarelo, minha cor favorita. Cantava alto enquanto pulava pelo quarto esperando o esmalte secar. Meu maior medo até aquele momento era que minhas unhas perfeitas quebrassem. Eu não sabia que haviam terrores muito piores por aí.

Fiquei feliz quando uma chuva pesada começou a cair lá fora, anunciando que a tempestade duraria a noite inteira. Isso significava que o calor passaria. Mas logo começou a ficar frio demais. A energia caiu e eu peguei a lanterna que deixava guardada perto da cama para poder procurar minha mãe. "Droga de chuva", murmurei. O quarto estava assustador, assim como o corredor e todos os cômodos da casa por onde passei. Estava estranhamente silencioso também, eu só podia ouvir meus passos e o barulho da chuva forte. Devia estar ouvindo no mínimo o barulho da televisão. 

Cheguei à sala, mas ainda não havia nenhum sinal de Sônia ou minha mãe. Porém, quando iluminei a parede atrás de mim, notei que havia algo escrito em vermelho. Era sangue. 

Ladra 

Abafei o grito, apavorada com as possibilidades de quem seria aquele sangue. Pensei em me esconder no escritório, temendo que algum criminoso sem escrúpulos tivesse invadido a casa, então corri para a sala que sempre me transmitiu conforto por ser o lugar onde costumava encontrar meu pai, quando ele não estava viajando. Porém logo percebi que todas as paredes estavam sujas, os livros caídos no chão e "ladra" estava escrito por toda parte. Senti o terror me preenchendo. Não devia ser um bandido, só alguém que tinha invadido a propriedade e pretendia pregar alguma peça de mal gosto, quis me convencer. Tudo o que eu queria era encontrar o engraçadinho e dá-lo a lição que merecia. Não se brinca com essas coisas. Corri para a cozinha afim de encontrar Sônia, mas a maneira como eu a encontrei me fez me arrepender amargamente daquela decisão.

O cômodo estava tomado pelo perfume barato da senhora pequena e solitária que eu conhecia desde que tinha começado a dar os primeiros passos, mas havia outro odor no ar. O de flores. Uma rosa branca enfeitava a porta da geladeira entreaberta e a luz fraca que vinha de dentro dela iluminava um pouco a parede manchada. Quando eu abri, fiquei horrorizada. Sônia estava lá dentro, entre uma caixa de leite e um pudim. Mas só a cabeça. 

Não pude conter as lágrimas. Saí correndo, tentando fugir daquela situação. Gritei o nome da minha mãe, sem resposta. Meu desespero crescia a cada possibilidade que eu imaginava do que podia ter acontecido com ela. Precisava encontrá-la urgentemente. Entrava e saia de salas aleatórias, subia e descia as escadas e corria pelos corredores. Sem sucesso. Mas o mesmo cheiro de rosas que senti na cozinha quando encontrei Sônia parecia sair de um quarto no segundo andar. 

Sabia que era uma péssima ideia conferir o que havia lá dentro, mas abri a porta. Procurei por sinais de que alguém estava lá, mas o quarto parecia vazio. Também não havia sangue em lugar algum. Porém uma rosa branca tinha sido deixada na janela emoldurada por belas cortinas azuis. Aproximei-me devagar e vi, estirada no quintal, minha mãe caída em uma posição esquisita em que eu estava certa de que era impossível estar confortável. Fiquei imóvel, horrorizada. Queria me jogar também. Até ouvir aquela música, a da caixinha. 

A melodia vinha do quarto ao lado, o meu quarto, e parecia mais forte do que nunca no silêncio daquela casa maldita. Eu respirava ofegante e suava muito quando me aproximei da porta. Havia um homem deitado em minha cama, desacordado e segurando um buquê de rosas brancas manchadas de sangue próximo ao peito, enquanto a bailarina girava sem parar na caixinha em cima do criado-mudo. A janela estava aberta, então o vento forte sacudia as cortinas violentamente. Minhas coisas estavam jogadas no chão e eu continuava a ler "ladra" nas paredes. A ruiva estava se vingando por eu ter pego o presente dela. Senti ódio da moça, mas odiei mais a mim mesma.

Peguei a caixinha para devolvê-la, porque acreditava que a mulher poderia devolver minha mãe e Sônia se conseguisse aquilo de volta. Dei uma longa olhada no rapaz deitado na cama, o marido dela. Estava muito bem arrumado, se não fosse a camisa manchada e a faca que ainda estava em seu pescoço. Imaginei que um dia devia ter sido alegre e cheio de vida, do tipo de pessoa que eu mesma me apaixonaria. Mas acabou ali, morto pela insanidade da própria esposa. Notei-a perto da janela quando desviei o olhar do cadáver, com repulsa.

Os olhos da moça ardiam em ódio. Como ela não se mexia, resolvi me aproximar e deixar a caixinha em cima da cama, mais próximo dela possível, para que ela a pegasse e fizesse aquele horror terminar. Mas a criatura, que parecia ainda mais horripilante naquele momento, continuou imóvel. Comecei a andar devagar em direção a saída, queria ir até a portaria e pedir ajuda, mas de repente a mulher se moveu para bloquear a porta.

– Ladrazinha – sua voz falha era desesperada.

– Já devolvi seu presente – respondi, apreensiva.

– Ele é todo meu. E só tem olhos para mim, ouviu? Para mim. 

Então compreendi que na verdade a mulher acreditava que eu estava tentando roubar o seu marido. Matou-o por ciúmes e sua alma foi amaldiçoada por isso, mas continuava enlouquecida e decidida a proteger um amor doentio que já não existia mais. E eu estava sofrendo as consequências por aquele terrível mal-entendido, que custava não só a minha vida, mas a das pessoas que eu amava também. 

Ela se aproximou de mim. Seus olhos agora eram negros e não restava nenhum pouco da vida que os preenchia na fotografia. Eu estava em pânico e não conseguia mover um músculo. Ela segurou meu pescoço com força e, a medida que os segundos passavam, eu sentia a vida se esvaindo. Minha visão ficou turva e meus pulmões doíam. Eu ia morrer. Em meio aquele momento de desespero, ele a chamou.

– Laura – o homem disse com dificuldade, fazendo a mulher me soltar no mesmo instante.

– Meu amor...

– Você vê coisas além do que devia, querida.

Caí no chão fraca e desorientada, tentando controlar a respiração. Vi Laura se aproximar do marido e deitar-se em minha cama ao seu lado, sussurrando juras de amor. Aproveitei para reunir forças para sair daquela cena terrível. Corri o mais rápido que pude para fora da casa, com meus pulmões ardendo e sem conseguir raciocinar direito. Não sei como consegui achar a saída. O jardim foi a última imagem que tive antes de apagar.  

~*~

Meu rosto ardia sob o sol quente quando fui acordada pelo meu pai. Minha cabeça doía muito, assim como todo o meu corpo. Sentei com dificuldade e comecei a chorar nervosa ao ver que eu estava suja de sangue, porque significava que eu não havia sonhado. Meu pai ainda me olhava com um misto de preocupação e desespero.

– O que aconteceu? Cheguei em casa e não encontrei ninguém na portaria, então descubro você dormindo no jardim toda suja. Por amor de Deus, me dê uma explicação.

Eu não tinha o que dizer.


Postado por: Ana Letícia

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