#Desafioimagem 02

19:04


Como expliquei neste post, comecei um desafio onde há uma imagem e eu juntamente com duas amigas devemos escrever uma pequena história sobre o que se passa nela. Essa semana desafiei Tuane e Letícia 

Obs: Eu e Letícia temos personagens com o mesmo nome por pura coincidência =D

Ana Letícia

Ele se apoiou contra a parede, ofegante. Era um bom esconderijo, aquele beco, mas não queria dizer que estivesse tão protegido quanto gostaria. Não muitos meses antes, Lisa o tinha olhado nos olhos, como se pudesse adivinhar "o que faria se estivesse cara a cara com a morte?". No momento, não soube responder porque achava que era algo distante demais. Nunca pensou que naquela época o fim já estava o encarando. Agora, tinha a resposta. Ele, assim como todo mundo, estava cara a cara com a morte e só tinha uma coisa a fazer: correr. O mais rápido possível. O máximo que puder. E tentar escapar de suas garras. 

Lisa. Precisava encontrá-la. Ela provavelmente estava com a irmã mais velha, e ele esperava que elas estivessem bem protegidas. Sua última mensagem foi um bilhete com um endereço, o qual ele estava tentando encontrar. Não podiam mais ficar em casa, fazia parte da área de risco. Nem era possível usar meios de transporte público, porque ninguém ia trabalhar e as ruas estavam um caos. Então ele se esgueirava pelas ruas sombria e passava correndo pelas multidões desesperadas. Qualquer um podia ser um deles

Chegou ao prédio que pretendia encontrar. Era uma construção antiga, com trepadeiras subindo as paredes. Deu a volta na construção, a fim de encontrar outra entrada, e acabou arrombando uma porta na lateral. O interior tinha o aspecto de abandonado. Ouviu alguém chamar seu nome baixinho. Rafael conhecia aquela voz. Ele não conteve a ansiedade de abraçar Lisa e não se importou em ser cuidadoso, recebendo um olhar de reprovação de Sofia. 

Os três decidiram procurar um lugar mais seguro, com outras pessoas que pudessem ajudá-los. Rafael segurava a mão da namorada com força, como se quisesse se certificar que, não importava o que acontecesse, eles continuariam juntos. Ela sorriu para ele e disse "vai ficar tudo bem". Mas não ia. Naquela noite, eles estavam destinados morrer. Ele podia sentir essa certeza como nunca, mais do que em qualquer outro momento da vida, mesmo que sempre soubesse que esse dia chegaria. Nós sempre sabemos, pensou, mas nunca achamos que vá acontecer realmente. 

Caminhando por aquela avenida destruída, Lisa lembrou de como nunca foi corajosa, e que seu maior ato de coragem talvez jamais pudesse ser lembrado. Sofia olhou para a irmã, a quem nunca soube demonstrar muito carinho, e sentiu os olhos arderem com as lágrimas de arrependimento por todas as coisas que deixou de dizer. E Rafael já não tinha mais nada em mente, só queria sentir aquele momento.

Ouviram alguma explosão atrás deles e, quando se deram conta, já estavam correndo. Cada um por si, tentando chegar a algum lugar melhor juntos. Era o fim, é claro, a certeza inevitável. Mas, de alguma forma, o fogo que incendiava a cidade acendeu algo dentro deles. Esperança. Ao ver todas aquelas pessoas correndo, protegendo umas as outras, resistindo ao mal que as assolava, viram que não era possível desistir. Nada seria como antes, afinal, e o futuro poderia ter alguma luz. Bom, caso houvesse futuro. 


Sempre me disseram que existe um momento na vida em que tudo parece... certo. Tenho sorte por poder dizer que vivi este momento. Ou morri nele.

Era uma noite cálida, o vento estava pesado como em dias de chuva – apesar do céu estar limpo - e a fachada do estádio em que íamos ver o show estava, no mínimo, lotada. Meus amigos insistiram que seria uma oportunidade única. Rafael disse que “um show desse porte por um preço tão baixo é como conseguir uma Ferrari pelo preço de um fusca”. Pensei sobre esta afirmação e me dei conta de que não tinha nada a perder. Fui mais pela consideração e jurava que seria somente mais uma noite maçante.

Eu não podia estar mais errado.

Quando enfim conseguimos entrar no estádio e o show começou, eu já estava sem um pingo de paciência, o som no ambiente era horrível – no fim das contas, teria sido melhor comprar o fusca - e tudo que eu queria era ir embora. E, infelizmente para mim, isto era impossível. Contentei-me a ir sozinho até um carrinho de hot dog para espantar a fome. Logo percebi que tinha feito a escolha certa. 
A garota mais linda que eu já vira na vida estava diante mim, com os cabelos loiros mais lindos que já vi. Estava admirando-a quando a banda parou de tocar, sirene de ambulância começou a tocar e gritos de pavor me tiraram de meus devaneios.

- Sangue! – berrou uma garota não muito mais velha que eu, olhando com horror para algum lugar perto de mim.

Não demorou mais que um segundo para eu me dar conta do que estava acontecendo.

Alguém havia se ferido gravemente em uma briga por ali. Ou pelo menos eu achei isto. Novamente, eu não poderia estar mais errado.

Depois de dez segundos procurando o problema, meu corpo começou a dormir, minha cabeça começou a girar e então eu entendi. A garota estava olhando para mim, a ambulância era para mim, o sangue era meu. E então eu desmaiei.

Acordei na cama do hospital, com dois policiais me mostrando uma foto sem foco, nem nitidez, mas poderia jurar que eram meus amigos com armas de fogo correndo no estádio em que ocorrera o show. E então o terror tomou conta de mim e apaguei de novo.

Desta vez, porém, acordei no paraíso, literalmente nas nuvens. Era a morte. Nunca soube realmente o que acontecera comigo naquela noite – embora suspeitasse – e não tenho interesse em saber. Mas sei que o momento mais certo da minha vida foi exatamente quando cheguei neste lugar.


Tarde da noite, Antônio, Marisa e eu não contemos as gargalhadas enquanto corremos. É inevitável. Corremos mais rápido, cada vez mais.  As risadas ficam cada vez mais altas. “Três jovens bêbados” é isso que devem pensar todos os adultos, eles não nos compreendem. Três pessoas felizes é o que somos. Três pessoas que estão correndo e rindo por nada, mas é assim que tudo deveria ser. Todos deveriam correr e rir por nada, é como todos fariam se as coisas fossem mais simples.

Tarde da noite, três jovens fazendo besteira e rindo por nada, três jovens bêbados rindo por besteira, três imbecis fazendo barulho e correndo. Dane-se como vão nos chamar, somos três pessoas felizes fazendo o que sabemos fazer melhor: ser feliz. Corremos ainda mais rápido, ouço os gritos da Marisa, ela não está nos acompanhando, ficou pra trás. Estamos todos sem ar. Lembrete mental: não correr tanto e rir ao mesmo tempo nunca mais. Uma gota de chuva cai sobre a minha cabeça. Ótimo, grande hora pra chover. Meus pais ficarão furiosos comigo, mas quem liga? Temos que ligar apenas pro agora. Vamos Laura, corra mais rápido. Vamos Laura, descarregue tudo que você tem guardado. Desconte nos seus pés o que você não deve falar pra ninguém. Vamos Laura! Minha mente não para de me estimular. 

Sentir o vento bater no meu rosto, a sensação do meu coração batendo tão forte que poderia até estar na minha boca, como isso é bom, a água da chuva batendo no meu rosto, é como se alguém aprovasse tudo isso e quisesse que nós continuássemos. Outro lembrete mental: fazer mais isso. A sensação é a melhor possível. Que horas são? Quem se importa, me importa o agora, eu e meus dois melhores amigos. Apenas sendo felizes. Quando irei pra casa? Não sei, deixo o futuro pra depois, me importa o agora, o agora é tudo. 

Nunca fomos de seguir uma linha reta, nunca foi nosso estilo. Parece que as outras pessoas seguem uma ordem rígida, como se seus corações batessem no mesmo ritmo, não é assim conosco. Nossos corações batem em ritmos diferentes, uma batida continua boa, sem precisão. Somos ditos "rebeldes", por quê? Por que somos felizes? Nós não ligamos para o nosso título, ligamos para o que pensamos um do outro, é o suficiente. 

O apito do relógio nos avisa, hora de ir pra casa. Mais um dia acabando, mais uma bronca que eu vou levar. Mas valeu a pena tudo, valeu a pena cada minuto, valeu só por estar com eles. Os melhores amigos, são os únicos, mas quem liga? Eu só preciso deles, de mais ninguém, eles já dão conta de me apoiar e me fazer rir. Vamos Laura, hora de correr pra casa.


Postado por: Ana Letícia

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