#Desafioimagem que não é desafio 01

21:15





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Às vezes a inspiração foge e a gente simplesmente não tem sobre o que escrever. E isso é bem ruim, especialmente quando se tem um blog pedindo por atualizações constantes. Criar um texto, buscar uma foto para ele e publicar nem sempre é algo que dá muita vontade de fazer. Então percebi que dava para fazer o caminho inverso, ao invés de escrever um texto e procurar uma imagem que combinasse, resolvi selecionar as quatro primeiras imagens legais que eu encontrei no We Heart It para tentar extrair inspiração delas. 

Portanto, com essas quatro imagens, eu poderia dizer que estou começando um novo desafio, mas prefiro não fazer promessas aqui porque quase nunca cumpro, pra ser sincera :c Indo direto ao ponto: vou tentar escrever quatro contos com essas fotos durante as próximas semanas, pensando em alguma história que elas pareçam transmitir. Não vou dizer que é algo fácil de fazer, mas é realmente um exercício legal para a criatividade =D

Masss para tornar essa parada mais legal ainda, vou convidar mais duas pessoas para produzirem textos com base na mesma imagem, para mostrar os diferentes resultados que diferentes pontos de vista podem ter. Se alguém quiser se candidatar para escrever sobre a segunda imagem, que será o tema do próximo post, manifeste-se nos comentários!


Ela o observava fazer o mesmo ritual de todas as tardes, impecavelmente às 16h: pedia um café, sentava na mesa mais afastada e brincava com o açúcar que deixava cair na mesa por acidente, ou não. Às vezes ele vinha acompanhado, seja de alguma moça sorridente ou do mesmo livro, o qual ela sempre quis perguntar sobre. Eles trocavam sempre as mesmas palavras, ela o perguntava o que gostaria de pedir e ele a respondia com um sorriso "um café, por favor". 

Ela não sabia bem porque ele frequentava aquela lanchonete pequena e sem graça no centro da cidade. Nem porque gostava tanto de vê-lo deixar o café esfriar, enquanto olhava o movimento na rua perdido em pensamentos tão indecifráveis quanto ele mesmo. A maior emoção naqueles poucos minutos que passavam juntos todos os dias era quando seus olhares se encontravam e, por alguns segundos que podiam valer por uma eternidade inteira, ela quase sentia que ele podia ver através de sua alma solitária. 

O rapaz se levantou e verificou as horas no relógio. Pegou a mochila, guardou o livro e tirou alguma coisa do bolso para pôr debaixo da xícara de café vazia. Mais um dia que ele ia embora sorrindo e tranquilo, como se tivesse todo tempo do mundo e desconhecesse a tristeza. Enquanto ela se perguntava com uma pontinha de esperança se aquela era a última vez. 

A moça se aproximou da mesa para retirar a xícara, mas algo inusitado quebrando a rotina a fez congelar no lugar. Ela desdobrou com cuidado o pedaço de papel que encontrou e tentou absorver cada detalhe daquela letra meio torta, despreocupada talvez. "Por trás das flores brancas", dizia, e ela sabia bem o que significava. Já tinha visto o rapaz roubar mais de uma vez lírios do pequeno jardim em frente a lanchonete. Ela se abaixou e espiou por trás do jarro. Era o livro. Nunca tinha ouvido falar do título ou do autor, mas abraçou aquele exemplar como se dependesse dele para manter o coração batendo. 

Uma, duas, três semanas. O rapaz nunca mais apareceu para tomar um café, para ler, parar ver os carros correrem de um lado para o outro ou simplesmente brincar com o açúcar que caia na mesa. O livro não era tão bom, afinal, e a leitura era tão cansativa quanto ver os dias se arrastarem numa rotina de esperanças bobas. Até os lírios murcharam. O que nunca mudava, entretanto, era a solidão que tinha dentro de si. E a lembrança daquele sorriso bonito que nunca a abandonava. 

Textos das migas agora:


Terça, quarta, quinta e sexta, 6:30, café, 1/3 de leite, duas colheres de açúcar, mesa 15, cadeira da janela, no bom e velho café Allons-y. Sempre levava meu livro predileto, Astronautas e a Lua, um romance, de Breno, já havia lido sete vezes, da capa até a última aba. O personagem principal, um galã, charmoso e romântico. 

Nas quartas comia pão, queijo e tomate, mas o meu dia preferido era a quinta, fim de semana? Que nada. Era cartola, com nutella, muita nutella. Ia ao hospital toda segunda, fazia companhia as crianças que não tinham com quem conversar e brincar, lia para elas, até dormirem, ou até esquecerem dos problemas. Havia outros voluntários, éramos 7 ao todo. Mas nesta segunda haviam 8, o novo estava vestido de doutor, com um nariz de palhaço, numa cadeira de rodas, as crianças riam e o giravam. 

Queria saber fazê-las rir e esquecer daquele lugar, como ele. Segundas se passaram e o oitavo integrante não apareceu mais, continuei indo, adorava a Elis, 5 anos, problema no coração, ela amava a história do pequeno Pooh. Nessa quinta em especial, dormi demais, café, 1/3 de leite, 3 colheres de açúcar e uma panqueca, entrei no Allons-y como qualquer dia, mesa 15, cadeira da janela, vazia. Mas havia uma cadeira a mais, não uma cadeira qualquer, a pessoa se virou e eu o reconheci, prazer, Breno.


Era uma cena curiosa a que se desenrolava em minha frente. Poucas são as coisas que ainda conseguem impressionar meus vividos olhos. 70 anos de histórias presenciadas, e apesar de toda a modernidade desse mundo, para mim, é tudo clichê. Os novos amores não são tão diferentes assim das paixões da minha adolescência. Entretanto, por algum motivo, aqueles dois acabaram chamando a minha atenção. 

Ela havia chegado antes do rapaz, sentou em uma mesa dos fundos e além de desejar um bom dia e fazer o pedido, não disse uma palavra sequer. Rabiscava em um caderninho, não faço ideia do que escrevia, mas a paixão que aparentava colocar naquele amontoado de papeis deixava apaixonante o conteúdo mesmo sem conhecimento do que era. 

Ele, por outro lado, chegou falando alto e cumprimentando todos pelo caminho. Sentou em uma mesa próxima a porta, virado de costas para a rua. Fez o pedido, perguntou se o dia estava produtivo e tratou as garçonetes pelo primeiro nome, e ainda assim, sem desrespeito. Era um rapaz inquieto, batucava a mesa com as pontas do dedo, olhava para todos os lados incansavelmente. 

Até aí, são obviamente apenas dois clientes. O ponto é que vai além do “até aí”. A garota que manteve a cabeça baixa desde o momento em que chegara, levantou-se abrupta e repentinamente os olhos ao ouvir a voz do rapaz cortando o ambiente. Um arco-íris passou pelo rosto da garota, ela foi de roxo a branco, e voltou a abaixar a cabeça, ficando repentinamente rosada. Não creio que ela tenha reparado, mas o rapaz que olhava inquietamente todo o lugar, travou quando a viu de longe. O batuque parou e os olhos vidraram. Claro, tudo isso aconteceu em uma fração de segundos. Mas havia uma atração ali, daquele tipo que só mesmo uma velhoca a toa poderia reparar tão claramente. 

A garota levantava os olhos um pouco, vez ou outra, e dava uma espiadinha. O garoto ficava encarando-a pelo tempo que podia antes de ficar muito “na cara”, como os jovens gostam de dizer. Eles comeram, em silêncio, à distância. Do meu lado do balcão, eu ficava torcendo para que um dos dois se levantasse e fosse até a mesa do outro. 

Ela então terminou a refeição, timidamente pagou a conta e se levantou. Meio sem jeito, andou devagar até a porta, aumentando a lentidão dos passos conforme aumentava a proximidade. O garoto percebeu também. Ficou sem saber para onde olhar, e pela primeira vez na noite, ficou completamente focado em sua comida. Eu torci para que ela parasse. Ele também. Ela continuou andando. Abobadamente, fiquei decepcionada. 

Então ela parou, poucos centímetros depois da mesa dele. Enchi-me de expectativas. Ela olhou para trás discretamente. Palavras visivelmente estavam presas em sua garganta. “Fala, garota, põe pra fora!” Ele deu um suspiro, pensando que ela havia partido. Olhou para trás. Olhos se cruzaram. Bochechas coraram. Bocas abriram-se e fecharam-se. Nada foi dito. Ela desviou o olhar e seguiu andando, desnorteada. Ele ficou sem reação por um instante, e depois abriu um sorrisinho que dizia “ela parou para olhar”. Mas também não fez nada. Eu, já desistindo, um pouco com o coração mole, voltei ao meu trabalho, pensando comigo mesma: Quando foi que começamos a ter medo de amar?


Postado por: Ana Letícia

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