Éden

11:11

Paranoid

Há muito tempo nos foi dito que havia um paraíso. Disseram-nos que dele fomos expulsos e desde então pagamos nosso preço para tentar voltar. De alguma forma, passamos a vida a sua procura, buscando o perfeito para que ele possa nos devolver a paz. Cada um encontra o seu caminho, pois a verdade é que o paraíso pode assumir várias definições. Porém, não pode ser contestado que o jardim dos desejos é onde é possível desfrutar de sua decadência. A pedição faz dele sua morada tanto quanto a paz. Nenhum sonho pode durar para sempre, e é no medo de que ele acabe que está o desespero.

Por muito tempo acreditei que o paraíso era aquele pequeno lago atrás da velha casa onde eu morava. Costumava sentar às suas margens e passar a ponta dos dedos pela superfície da água, então observar a maneira como as ondas se formavam ao meu toque. As árvores ao redor silenciavam meus pensamentos agitados e eu me esquecia do que havia além dos portões do meu Éden particular. Podia passar tardes inteiras refugiada na minha solidão. Ninguém nunca me procurava.

Entretanto, eu me mudei. Não só no sentido de ir para outra casa, eu também já não era a mesma por dentro. Passei a buscar outros paraísos depois que fui expulsa do meu. Até encontrei alguns onde fui feliz por breves momentos, mas você sabe, a perfeição é algo frágil demais. E às vezes o desespero de mantê-la é maior que o prazer. Alguns paraísos são mais concretos que outros, e quanto mais intenso for, mais se tem a perder. Não é justo, eu sei.

Vaguei por aí tentando experimentar o que fazia os outros felizes. Descobri que alguns associam o paraíso à religião, enquanto outros podem senti-lo em um algum lugar físico, como eu já pensei sentir, um dia. Há quem se perca em pequenos prazeres, mas estes são mais infernos que qualquer outra coisa. Conheci alguém que deixava a mente fluir em palavras, e isso era o que lhe fazia se sentir bem. Eu mesma já tentei me sentir assim me perdendo em alguns olhares, mas nunca consegui mergulhar o suficiente. Até o dia em que enfim afundei a uma profundidade tão grande que eu sequer consigo mais enxergar a superfície. Nem quero, apesar de não estar certa sobre isso ser bom ou ruim.

Acredite. Você é o meu paraíso. É capaz de me preencher de paz tanto quanto causar destruição. Sei que posso desfrutar de todos os prazeres que é capaz de me dar. E sei também que posso fazer tudo declinar a qualquer instante, posso ser condenada a voltar a vagar por aí para pagar meus erros sem nunca mais sentir toda essa intensidade novamente. Tenho para mim às vezes que o paraíso é o próprio inferno. Que há uma linha tênue entre a harmonia e o caos. 

Mas não é você que me desespera, é justamente a ideia de não tê-lo. De não me sentir mais alheia ao mundo, como se tudo se resumisse a nós dois. De não olhar mais o mundo da mesma maneira com a qual você me ensinou a vê-lo. De não querer mais procurar por outros paraísos por achar que nada me preenche da mesma forma. Se bem que eu estaria certa, não há como mudar. Meu Éden é em você. E é nele que quero passar a eternidade. 

Postado por: Ana Letícia

Posts relacionados

0 comentários