Crônica: Os teus olhos de baunilha

12:52


Haviam, no máximo, meio metro entre nós dois. Isso, claro, física e literalmente, porque a sensação que eu tinha é que milhas e milhas nos separavam. É curioso como você pode estar tão próximo de uma pessoa e se sentir tão distante dela.

Eu sempre fora um observador discreto, então ela não me notou enquanto eu tentava decifra-la. Ao primeiro olhar, ela parecia normal. Talvez por isso ninguém nunca intervenha. Mas eu a conhecia melhor que qualquer outro sujeito. Ela ama batata frita, vestidos rodados e livros novos; odeia pulseiras, tomates e falsos politizados. E ali encontra-se a minha menina. Pulsos tão finos que mal acredito, A porção de batatas intocada em sua frente, e no seu prato, havia salada. Ela detesta salada. Tanto quanto detesta sapatilhas e cabelo preso. E ali está ela, calça jeans, rabo de cavalo e sapatilhas azuis, combinando com as pulseiras (pulseiras!!!). Ah, minha menina, por que é que foi pendurar teus vestidos de dias felizes?

Queria poder atravessar de uma só vez essa nossa pequena distância física e te sacudir segurando pelos braços, dizendo "por favor, pare de rir dessas piadas idiotas sobre política!". Porque, de verdade, não sabia como você estava aguentando aquilo. Eu, que sempre fui mais... Ou melhor, menos antipático com situações assim, estava de saco cheio. Mas você estava ali, atenciosa com todos, dando risadas altas, distribuindo atenção e... fazendo de absolutamente tudo para não cruzar seu olhar com o meu? Será? Ou talvez seja apenas impressão. Estou começando a achar que comecei a te encarar de um jeito meio panacão, porque você está finalmente parecendo incomodada. E você fica tão bonita quando tá incomodada, você fica com os olhos constrangidos e as bochechas rosadas. Menos hoje, hoje seus olhos não mudaram vez alguma, apesar de suas bochechas terem ficado coradas como de costume. Seus olhos... Já te falei como são doces? Eles tem essa cor de caramelo que me lembra sorvete de baunilha (vai entender), mas hoje estão tão tristes, tão tristes...

Começo a me sentir meio impotente daqui de onde estou. O que há com você? Por que está fingindo tanto? Pior que isso, o que é que posso fazer para te fazer parar? Ah, moreninha, se eu soubesse como acabar com essa sua dor. Iria descalço daqui ao Afeganistão, procurar uma flor especial, se você me dissesse que isso é o que mudaria tudo. Queria poder te gritar que me importo e estou aqui, mas acho que seria meio bizarro. Será que resolveria? Será que se resolve tristeza alheia com bizarrice própria? Ok, acho que estou começando a delirar um pouco.

Não sei nem mais no que estava pensando quando você realmente me olhou. Também não sei como aquilo saiu de mim, porque não foi calculado. Só sei que saiu. De repente o resto tinha sumido e os olhares tinham se encontrado. Realmente se encontrado. Um "eu me importo.", do nada, foi formulado em silêncio pelos meus lábios. E você entendeu. Abriu e fechou a boca, como se as palavras tivessem fugido. Seus olhos estavam um pouco arregalados, mas de repente pareceram lacrimejar. "Para onde olhar?" parecia ser a nova questão a ser respondida pelos dois. Você abaixou o olhar e eu entendi. Mensagem passada com sucesso. Espero que seja o suficiente, ao menos por agora. A menos até eu poder cuidar de verdade de você. A menos até você ser minha.


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