Crônica: Meu amor, hoje fui de ônibus

14:38


O dia foi maravilhoso, de verdade. Sabe quando o dia é daqueles que nada estraga? Era um desses. E sendo tão bom, não seria aquele ônibus lotado ou a falta de um fone de ouvido que colocaria tudo a perder. Mas, deixo um conselho, se você está tendo um dia desses, não fique pensando "nada pode estragar o dia de hoje!"(#FicaAdicaMiga). É claro que eu não contava que aquelas duas criaturas infinitamente diferentes me levariam a pensar em você.

Ela era encantadora. Uma senhora que devia ter os seus 75 anos, mas visivelmente vaidosa. Tinha cabelos bem clarinhos, combinando com a pele quase transparente e os pequenos olhos verde-mar. Ah, os olhos dela! Eram lindos, apesar de serem fundos de um jeito quase inacreditável, deixando um "quê'' de que tinham uma história interessante a contar. As unhas estavam, humilhantemente, mais bem feitas e cuidadas que as minhas. acompanhando os dedos enfeitados por anéis que combinavam com os brincos e os colares. Foi inevitável especular sobre a vida que ela tivera. Talvez seja coisa de gente que escreve, ou talvez seja maluquice minha mesmo, mas eu sempre acabo fazendo isso. Será que ela teve um amor épico? Terá ela escrito cartas para um soldado enviado à guerra? Terá ela costurado remendos nos joelhos dos shorts dos filhos? Será que ela tem filhos? O que será que ela pensa quando vê tudo que ta rolando no mundo? O que passa pela cabeça dela quando escuta um funk ostentação na rua? Caramba, quanta coisa ela deve ter pra contar!

No assento ao lado dela, uma mini-pessoa. Não tinha muito mais que um metro, e como não tinha cara de anão, presumo que não passa dos 6 anos. Ele havia cedido para a senhora o lugar em que ela se sentava agora, mas rapidinho conseguiu um canto pra se encostar e ficar balançando as mini-perninhas no ar. Estava na companhia de um senhor que presumi ser o avô, e não sossegou até conseguir ganhar o pacote de doritos. Era um contraste interessante à senhora serena que estava na minha frente. Ele também tinha cabelos claros, mas os olhos eram grandes e azuis, vasculhavam curiosamente tudo que conseguiam enxergar.Era uma porcariazinha inquieta, mas mesmo com tão pouco tamanho já tinha educação suficiente para ceder o lugar a uma idosa, então não era tão porcariazinha assim. Me perguntei que tipo de pessoa ele seria no futuro. Exatas ou humanas? Meninos ou meninas? Será que esse cuidado com os mais velhos vai continuar existindo? Esse avó vai ser sempre querido assim ou será deixado de lado com o avançar da idade de ambos? Politizado ou "política e religião não se discutem"? Quantas vezes essa miniatura de pessoa ainda vai ter o coração partido? Quantos corações ele vai partir?

As possibilidades naquelas duas pessoas eram infinitas, e para a minha sorte a minha parada estava perto, então eu não teria tempo de analisar cada alma naquele ônibus lotado. Olhando para aqueles dois durante os quilômetros que me separavam de casa, me lembrei vagamente daquele programa que eu assistia a noite com minha mãe, e de uma das apresentadoras debatendo o seguinte: por que é que todo mundo precisa desse amor afetivo? Por que é que é tão superestimado, afinal? No mesmo pique que fez a pergunta, ela veio com a resposta. Qual é o sentido de tudo se não tiver aquela pessoa que ame você? Se não tiver ninguém que repare nas suas manias, nos seus sinais, na cor que seu olho fica a luz do sol? Imagina uma vida inteira em que não tenha ninguém que se importe em descobrir qual é a sua comida favorita ou te diga que você é diferente. Uma vida em que não apareça ninguém que se interesse em por que você não gosta daquele desenho bobo, ou por que o seu filme favorito merece o título de filme favorito. Ok, falando assim nem parece tão absurdo, da pra viver né? Agora, imagina o contrário. Imagina uma vida em que exista alguém do seu lado que se importe com tudo isso e um pouco mais, que se esforce para ser o seu melhor, por você e somente por você. Soa bom, eu sei. Sei muito bem.

Opa, minha parada. Saí do cantinho em que estava espremida e fui cumprir a minha missão particular de chegar até a porta, enquanto meus pensamentos vagavam entre você e os dois seres que haviam passado pela análise do escritor a toa. Passei pela senhora e não pude segurar o sorriso quando vi a presilha brilhosa nos cabelos bem penteados. Ela sorriu de volta e senti seu olhar me seguindo enquanto eu ia embora. Empaquei bem aonde estava sentado o garotinho, tinha um cara de uns 2 metros que impedia minha passagem. Olhei pra mini-pessoa, que me encarou de volta com os olhões e deu aquela gargalhada gostosa que só criança tem, fez uma careta e voltou pro doritos. Sorri outra vez. Consegui passar pelo muro humano que estava me impedindo de chegar na porta e olhei para trás mais uma vez. Dois pares de olhos curiosos me acompanhavam, um acompanhado de um tímido tchauzinho, outro, apenas de uma aura sábia e experiente. Quando finalmente desci, foi desejando mentalmente que aqueles dois tivessem uma vida repleta de amor, de todo tipo de amor.

Cheguei naquele momento do dia em que você conseguia ocupar totalmente os meus pensamentos. Liguei uma coisa a outra, e fiquei imaginando que rumo teria a nossa história. Seríamos felizes para sempre? Escreveria para você cartas intermináveis em tempos de medo e saudade? Te veria ir embora? Iria eu embora? Seríamos desses que se sentariam todo dia no mesmo banco do parque só pra ver o tempo passar? Ou seríamos desses que discutiriam porque você fechou a garrafa de água com força demais? Seríamos algo? Eu cheguei naquele momento do dia em que nos transformava em personagens de histórias. Cheguei naquele momento em que você era tudo que me importava. Cheguei naquele momento do dia em que só você existia no mundo, e me vi perguntando-me em silêncio, o que teria imaginado aqueles dois quando me olharam?

Postado por: Bárbara Andrade

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