Lolita - 1997

14:21



"Lolita", a adaptação de 1997, era um filme que sempre surgia como sugestão do Netflix para mim, mas que nunca tinha me despertado interesse suficiente para assistir. Não lembro bem o que me fez correr para vê-lo quarta-feira, mas quero compartilhar aqui minhas conclusões. O filme foi dirigido por Andrian Lyne e é baseado no romance de Vladimir Nabokov, de 1947, o qual ainda pretendo ler. A história gira em torno de um homem que, aos 14 anos, viveu uma intensa paixão juvenil, mas teve o coração partido pela morte da moça e manteve as feridas daquele trauma abertas durante praticamente toda a vida. Até conhecer Dolores. Uma menina inconsequente, filha da dona da casa onde ele se hospeda. Daí, começa um dos romances mais turbulentos, envolventes e controversos que já acompanhei. Nota: vamos tirar a parte da polêmica sobre pedofilia desse post.

É um filme muito bom, sem dúvidas. Começa com uma das últimas cenas, na qual o professor Humbert (Jeremy Irons) está claramente perturbado e ferido por todo amor que alimentou e ainda alimenta por sua Dolores, Lo ou, simplesmente, Lolita. Ele é um homem bem carente, que teve suas esperanças restauradas e o coração novamente aceso no momento em que vê Lo displicentemente deitada no jardim. Ele a ama e deseja da mesma forma displicente. E comete todos os erros que, no fim, fizeram valer e destruíram sua vida.

Já Dolores (Dominiqui Swain) é apenas uma menina. Mas não tão inocente. Ela sempre soube do poder que exercia sobre o professor, assim como sobre qualquer homem, usando todas as armas de sedução de uma mulher para conseguir o que quer, mesmo tendo apenas 14 anos. Não se espantem. Todos sabemos que, nessa idade, muitas pessoas já saíram há tempos da infância. Especialmente Lolita, que tem esse comportamento avançado muito intenso. Apesar disso, a personagem apresenta comportamento infantil o tempo inteiro, até mesmo enquanto seduz o professor, e todos os detalhes dessas cenas são cativantes.

A mãe de Dolores, por sua vez, é uma viúva desesperada que insiste que Humbert fique em sua casa desde o início, e que tem uma vida bem triste, afinal. Todo mundo sofre muito nessa história, mas fiquei com pena dessa personagem em especial, ainda mais por causa do fim que ela tem. As coisas poderiam ter sido diferentes. Porém, ela e a filha provavelmente não teriam sido mais felizes. Até porque ela não é bem um exemplo de maternidade, tanto que Lo tem sérios problemas disciplinares. 

À essa altura, para quem ainda não assistiu ao filme, a história deve estar sendo imaginada da seguinte forma: um monstro entra na vida de duas mulheres e as destrói, seduzindo uma mera garotinha para satisfazer suas frustrações. Ou que Lolita era diabólica, sempre soube o que estava fazendo e que era tão cruel com o homem que a amava, mesmo de maneira errada, que dava até repulsa. Ou ainda que a grande culpada disso tudo é a mãe, a qual ofereceu a casa ao homem e criou muito mal a sua filha. Todas essas visões são tão verdadeiras quanto incorretas ao mesmo tempo. Porém, a grande verdade é que todos são tão culpados quanto vitimas, em medidas diferentes. Na vida real não há vilões e mocinhos, há pessoas complexas com atitudes, desejos e sentimentos controversos que podem resultar numa história como a de Lolita. 

Ela não era nenhuma santa. Ela sabia manipular, sabia o resultado, só não sabia lidar nem merecia todo o amor que recebeu. Ela era uma verdadeira otária, isso sim. Entretanto, não passava de uma criança imatura que, apesar de saber muito bem fazer seu joguinho de sedução, não tinha experiencia nem cabeça para lidar com tudo que viveu. E o homem deveria saber disso. Acho que ele sabia, na verdade, apenas deixou que seu desejo fosse mais forte. Por isso, agia como pai ao mesmo tempo que fazia seu papel de amante. E, ainda que tenha sido tão mal tratado por sua garotinha, continua sendo culpado pelo que aconteceu, já que ele era um adulto, ela apenas uma adolescente irresponsável, e ele deveria ter controlado a situação. Devia ter se controlado.

Acho que passei o filme inteiro com um sentimento bem estranho de que tudo estava terrivelmente errado. Ao mesmo tempo, pegava-me torcendo para que tudo desse certo, de algum modo me afeiçoando ao professor. E com certeza senti muita raiva/pena no final, mesmo sabendo que todos receberam o que mereciam. Ah, e é no fim que aparece a única cena de nudez realmente, e não é nada demais, é só um cara nu, não esperem nada do gênero no filme. Só assistam e tirem suas próprias conclusões. Depois comentem aqui, porque eu também quero saber =D



Postado por: Ana Letícia

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8 comentários

  1. Uma coisa que vc talvez n entendeu,é que o filme se passa na visao drle,ou seja,só temos o lado dele na história,ele é um narrador n comfiacon e ele está sobe julgamento no filme e no livro,então ele está justificado seus crimes e dando indiretas de pedofilo "ela se ofereceu" "não fui o único",não temos o lado de Dolores para sabermos se ela realmente era safadenha daquele geito

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    1. eu entendi sim. por isso eu ressaltei no quinto parágrafo que quem deveria ter controlado a situação era ele. ele era o adulto, ele era o responsável por ela. porém, no filme essa questão do narrador é um pouco mais subjetiva, acredito que no livro isso fique mais claro.

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    2. ah, e eu gosto de interpretar os personagens de uma trama de uma forma em que todo mundo tem culpa na história. porém, como eu disse em outro comentário, o filme deve contribuir para a construção dessa imagem mais diabólica da menina e amenizada do professor, por isso fiz essa leitura. mas, realmente, ele é o grande responsável por todo o mal que aconteceu.

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  2. Aliais,ele pode ter passado a ama-la mas ele é o único culpado,no livro ele diz que pretendia engravidar lolita para ter relações com esta filha

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    1. bom, eu não li o livro. provavelmente o filme é muito mais romantizado, mas foi sobre ele que eu escrevi. acredito que no livro a questão da pedofilia deve ser tratada mais no seco. a romantização deve contar como um ponto negativo para esse filme.

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    2. e obrigada pela informação, eu não tinha conhecimento disso. não sinto vontade de ler o livro porque imagino que deve ser muito pesado.

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    3. Uma coisa que deve ser lembrada é que mesmo o filme sendo baseado no livro existem certas alterações que tornam esse filme uma história única e por isso ele não pode ser visto com o mesmo olho de quem leu o livro. São duas obras diferentes mesmo que muito parecidas, assim como os personagens. O Humbert do livro não é o mesmo do filme, você não pode julgá-lo no filme pelo que ele foi no livro.

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    4. sim, essa é uma colocação bem importante!

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