O que uma estudante tem a dizer sobre a educação

13:30


Certa vez, assisti a uma palestra que falava sobre como nossa educação hoje em dia se preocupa pouco com a formação de humanos. A/o palestrante (não recordo se era um homem ou uma mulher) nos dava o exemplo da educação espartana, há centenas de anos, na qual a principal preocupação ensinada às crianças era proteger o seu povo, e como isso moldava aquela sociedade. De fato, a sociedade é moldada pelos valores passados pela educação e vice-versa. E eu concordo com a afirmação de que não estamos formando humanos. Estamos formando máquinas. Simples decoradores de informação e realizadores de provas. Esse modelo funcionava há muitos anos, quando nosso foco era ter trabalhadores para as fábricas. Porém, não mais. 

O que é mais importante: absorver o conteúdo ou aprender? A primeira opção parece ser mais valorizada, porque o aluno retém mais informação, pena que por pouco tempo. Enquanto no segundo caso, é possível lembrar do conteúdo aprendido por anos e anos, o que deveria ser muito mais importante. Mas ninguém está interessado nisso. Nós, estudantes, precisamos fazer provas quase todo mês para testar nossos conhecimentos. Eu posso muito bem ler o material uma semana antes, fazer a prova e dois dias depois já ter esquecido de tudo. Sei disso porque fiz algo parecido com alguns assuntos ano passado, e me arrependi. Não lembro de quase nada e agora preciso deles para continuar os conteúdos. Eu não me preocupei em aprender, só precisava de um dez estúpido que sequer reflete o quanto eu realmente sei. Por outro lado, semana passada fiz outra prova. Dessa vez, tirei nota baixa, por motivos diversos, mas avalio sinceramente que aprendi o conteúdo. Pena que isso não é o suficiente. 

O Enem tá aí. Qualquer pessoa que esteja no ensino médio tem essa maldita prova como preocupação. Ela aparentemente testa a quantidade de informações que nosso cérebro consegue reter e a capacidade dele de responder em um curto período de tempo. Tenho estudado um monte de coisas que caem no Enem, para entrar numa faculdade que eu sequer escolhi ainda. Sei que não vou levar metade disso para a vida. Além de que, como um professor meu diz, a grade curricular do ensino médio hoje em dia é praticamente toda voltada para o Enem. O que não cai na prova, não entra, mesmo que seja algum assunto fundamental para aprender outras coisas em alguns cursos superiores.

Sei que não vou levar metade disso para a minha vida. Há muito conteúdo desnecessário, ao passo que coisas importantes, como aprender o básico de leis, são deixadas de lado. E o pior disso é que eu poderia me aprofundar muito mais em algumas matérias que tenho afinidade, mas não posso, porque preciso estudar outras coisas que não me interessam nem um pouco. Imagine como seria se os alunos pudessem escolher as matérias que querem cursar no ensino médio, depois de ter adquirido toda a base que já conhecemos e é importante no ensino fundamental. Um adolescente com aptidão em filosofia, por exemplo, poderia desenvolver essa habilidade e realmente trazer retorno para a sociedade. As ciências humanas são desvalorizadas, mas, na realidade, são as ideias que elas colocam que têm o poder de transformar a sociedade. Por sua vez, alguém com muita habilidade em matemática poderia ter esse potencial valorizado, contribuindo para a ciência, desenvolvendo alguma tecnologia, por exemplo.  Contando, é claro, com uma estrutura adequada para isso. 

Mas não é assim. O modelo que nós temos serve só para aquele aluno mediano, que é capaz de tirar 10 e só. Aquele que tem potencial não pode se desenvolver, ou o que tem défice, não é ajudado. É só passar no Enem. A formação como humano e cidadão não parece ser importante. A formação de um senso crítico perante o mundo é apenas um boato. Questionar o que? Deve-se somente seguir as regras, sem conhecer bem quais são os seus direitos. São horas de estudo e muita capacidade desperdiçadas. Nós não podemos continuar assim. 

Imagine uma escola onde os alunos vão por prazer, não por obrigação. Onde eles se sintam atraídos pela aula. Ela é algo dinâmico, acolhedor, que explora as habilidades de cada um. Onde ninguém está preocupado em ser o melhor, tirar as notas mais altas, e sim em ser sincero consigo mesmo e dizer "eu aprendi" ou "eu preciso estudar mais". O ensino fundamental seria completo, mostrando ao aluno toda a base de conteúdos, dando-o certo conhecimento de mundo, não só com as matérias habituais, como português e matemática, mas também incluindo uma formação humana e cidadã, com oportunidade para que as pessoas se interessem por outras atividades também, como música, teatro e esportes, que são tão importantes para nós. 

Então, no ensino médio, cada um escolheria suas disciplinas. Desenvolveria suas habilidades. Estudaria assuntos e os aplicaria de verdade. Não digo que as pessoas deveriam saber fazer só sobre uma área, é muito bom se interessar em saber de coisas variadas, mas com certeza deveriam aplicar seu potencial no lugar certo. E haveria preocupação quanto a essa escolha. Os alunos sairiam ganhando, mais satisfeitos, e a sociedade também. Não é algo tão impossível, o que acontece nos Institutos Federais é parecido. Nós temos toda a matéria do ensino médio, porém, ao mesmo tempo, aprendemos um trabalho escolhido por nós. Aliás, formação de técnicos é bem importante, se querem saber.

Tudo isso, é claro, com uma boa estrutura. Coisa que nós não temos. É difícil para um aluno aprender até as quatro operações básicas sem uma boa alimentação, sem um núcleo familiar apoiando, sem professores interessados e sem um ambiente decente para estudar. É a realidade de muitas escolas púbicas pelo Brasil. Professor, espaço, família e necessidades básicas (alimentação e sono) são pilares para se poder aprender direitinho. A satisfação de apenas alguns deles não basta, é necessário o conjunto todo. E não é como se não tivéssemos condições de proporcionar isso. O problema é que nossos governantes se recusam a colaborar. Aí é que está. Eles sabem que, se o povo tiver o poder da educação, nunca vão permitir que eles façam o que querem do jeito que fazem.

É óbvio que são ideias soltas, o melhor que uma simples garota de dezesseis anos pode imaginar, por enquanto. Elas precisariam ser avaliadas, criticadas, mudadas e melhoradas, pois, para algo dar certo mesmo, ainda mais algo nessa proporção, precisa ser muito bem estudado, especialmente por quem entende do assunto. Porém, acho importante dar ideias, dizer o que pensa. É conversando sobre um assunto que se chega a uma solução. 

Por fim, queria acrescentar que nada disso é desculpa para ser relaxado. Há uma diferença absurda entre ir mal numa matéria porque não tem habilidade para aquilo, mesmo tendo estudado, e ir mal porque tem preguiça de pegar um livro e tentar aprender. Não existe ninguém burro, só há pessoas com algum problema de aprendizado (essas devem ser acompanhadas corretamente), pessoas interessadas (que às vezes acabam sendo prejudicadas pelo sistema) e pessoas que não sabem valorizar as oportunidades. A educação é uma dádiva. Há muita gente que ainda luta para ter direito à ela pelo mundo. Então, saiba dar valor ao que você tem, porque, mesmo com as falhas, é precioso. 


Depois desse textão, ainda preciso comentar o vídeo feito por um antigo professor de sociologia meu e da Bárbara (mais dela do que meu, porque só estudei com ele por uns dois meses), o qual foi uma das minhas inspirações para o que escrevi. No vídeo, o professor David critica os livros didáticos. E eu dou razão a ele. Especialmente porque já conheci o material oferecido na rede pública e privada, então sei bem do que estou falando. 

Sabe, no começo do ano passado eu me matriculei numa escola particular, a mesma onde estudei durante sete anos, porque não tinha passado no IF ainda. Entrei na suplência, passei meses me achando incompetente por não ter ido bem no exame de seleção depois de um ano de muito estudo, sobretudo na redação, em que tirei a nota que me fez cair cinco posições, o que eu precisava para passar, olha só como são as coisas. Mas isso não vem ao caso. O ponto é que comprei o material exigido pela escola, muito mais caro do que o que ela costumava cobrar. Custou muito mais de mil reais, muito mais do que minha mãe podia pagar. Pelo menos o livro era bom, todo voltado para o Enem, era isso que importava. 

Porém, eu vendi os livros quando migrei para o ensino público. E aí eu tive contato com os livros oferecidos pelo governo. Vou ser bem sincera, quando eu preciso estudar, pesquiso na internet, Na minha mochila, só levo caderno e uma pasta. Meus professores passam muito Slide, eu anoto tudo o que eles falam em sala de aula, e assim tenho meu material base para aprofundar em vídeos do YouTube e ir bem nas provas. Os livros que nós recebemos não se comparam aos que eu tinha acesso quando estudava em escola particular. Um dos meus professores inclusive afirma que o nosso livro de matemática é igual ao que a editora produz para as lojas, mas claramente é feito com material inferior e tem menos exercícios. E olha que o governo compra em enorme quantidades. Se os livros didáticos que ainda são usados já são um atraso, imagine um material que mal nos serve.

Acho que a ideia dos tablets, apresentada no vídeo, é muito boa. Se nós temos toda essa tenologia, isso deve ser usada paro melhor a educação, sim. Mas é uma ideia que precisa ser muito bem desenvolvida. É que a internet não é um ferramenta apenas para pesquisa, mas uma forma de acesso à redes sociais também. Muitos alunos não teriam a consciência de separar o tempo de estudar e o de entrar no Facebook, do mesmo jeito que acontece atualmente. Se o uso de celulares em sala de aula durante a explicação dos professores já é um problema agora, seria muito pior com a adesão de tablets. Não que a falha seja da ferramenta, que é muito boa. A falha está na educação das pessoas mesmo. 

Foi um post enorme, eu sei, e ainda sinto que nem falei tudo que gostaria, nem do jeito que eu queria. Mas obrigada se você chegou ate aqui. Acho importante discutir essas coisa, compartilhar essas ideias. Eu sou estudante, e eu devo questionar o que me é oferecido. É no mínimo minha obrigação querer o melhor para mim, assim como para as gerações que virão em seguida. Bom, não vou ficar enrolando. Essa foi a minha opinião. Qual é a sua? =D


Postado por: Ana Letícia

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