Crônica: Aquele cara

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Minha regra número um é nunca olhá-lo nos olhos mais de uma vez, mas eu sempre falho quando meu olhar involuntariamente corre de encontro ao seu. Perdi a conta de quantas chances desperdicei de apenas conversar banalidades, só porque desvio minha rota quando te vejo no final do corredor, prendendo a respiração, tomada de medo pela simples expectativa de ter de responder a um "bom dia" seu. Apesar disso, eu sempre escolho o seu caminho, na esperança de que esse pequeno ato de coragem alavanque o resto. 

Já lhe escrevi algumas cartas, que foram todas enviadas amaçadas até a lixeira, só porque eu não saberia lidar com a resposta. Ou caso jamais fosse respondida. Ora, não se escrevem mais cartas hoje em dia, você poderia dizer, provando não ser digno do esforço. Haveria também a possibilidade, ainda que remota, de você me responder no mesmo estilo, com uma letra um pouco torta num papel manchado com alguns borrões. Talvez você nem lesse, afinal. Talvez queimasse e risse da minha atitude, perguntando-se porque essas garotas bobas, como eu, insistem em acreditar em reciprocidade. Não me arrisco, infelizmente, minha covardia é mais forte que a vontade de quebrar a barreira que há entre nós. 

Você bem que podia facilitar as coisas, e me enviar algum sinal de que seus sorrisos não são meras demonstrações de simpatia ou que eu não deveria criar tantas expectativas, mais do que já não devo. Você podia pensar em mim antes de eu pensar em você. Ou simplesmente não fazer contato algum, agir como se eu fosse invisível, então eu saberia que deveria tratá-lo da mesma forma.

Entretanto, a ideia de infiltrar a névoa atrativa que te envolve parece assustadora para mim. Não só por não saber como lidar, não só por medo de me perder no labirinto que é gostar de alguém. Veja, querido, eu reuni os seus sorrisos mais bonitos e todos os detalhes bons que consegui tirar de você, mas o resto eu inventei. Espero por alguém que provavelmente nem existe. Escrevo para o cara que eu gostaria de conhecer, o cara que inspira textos e faz meu estômago se encher de borboletas idiotas. Não quero que da mesma boca que surge meus sorrisos prediletos, saiam bobagens que me fariam pirar de raiva. Entre a realidade mundana e a ilusão reconfortante, prefiro me prender aos meus sonhos a destruir todos eles com uma decepção. Eu quero aquele cara, e ele pode não ser, de fato, você.

Postado por: Ana Letícia


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