"Escassez Feminina na Ciência"

16:51

2014, Sociologia.
Professor David Loiola Rêgo.

Ok, galeris, isso é sim um trabalho que eu fiz para a escola. Quem nos acompanha há tempos, ou segue nossa página no facebook, já me viu babando meu antigo professor de Sociologia. E se você já teve aula com Loiola, sabe que 99% das meninas babam o cara, afinal, ele é sim lindo, além de charmoso, cheiroso e... deixa pra lá. Mas não é por isso que puxamos o saco dele por aqui pelas internet (ao menos, não só por isso). Ele é extremamente inteligente, e escreve muito bem. Isso sempre me atraiu nele mais do que a questão estética. Confesso que ele me inspira um pouco, eu ouvia as aulas dele e pensava "se eu conseguir chegar a esse nível de saber, to o.k. com a vida". Professores de sociologia têm esse efeito comigo <3.

Enfim, ano passado ele nos passou um trabalho sobre "por que existem tão poucas mulheres no meio científico?". Era mais uma pequena pesquisa, segundo o próprio, "meia página de caderno, mais ou menos, galera." Mas, quando ele disse o tema do trabalho, uma luzinha se acendeu em mim, o sensor feminista começou a piscar, e eu decidi que não poderia fazer um trabalho de apenas meia página sobre algo tão sério, e perguntei para o professor se ele se incomodaria se eu fizesse mais. Ele disse que não e eu apareci no dia da entrega com três folhas de texto. Um dia desses eu revi esse trabalho e no mesmo dia, sem querer, entrei em uma discussão sobre o tema e decidi que devia compartilhar com vocês. O título do trabalho é o mesmo do post, e sei lá, eu tenho um orgulho danado de ter feito isso, ter ido atrás e ter pesquisado e me empenhado pra valer - mesmo sabendo que o trabalho valia 1,0 ou 2,0 pontos.

A Escassez Feminina na Ciência

 Mesmo com a progressiva diversificação da participação das mulheres na sociedade, a inserção delas no campo das ciências permanece menor do que a dos homens. Isso se deve a um conjunto de fatores histórico-culturais.

Na verdade, esse cenário de mulheres dedicadas somente ao trabalho doméstico é  recente, tem a ver com a revolução industrial e a formação da burguesia. As mulheres mais pobres, em sua maioria, nunca deixaram de trabalhar. O que elas não tinham – e continuam não tendo – é chance de estudar formalmente. 


No que diz respeito às ciências, é que elas exigem muita dedicação e tempo. E quem dispunha disso eram homens de classes mais favorecidas (primeiro nobres, depois aristocratas e em seguida, os burgueses). Quanto mais as mulheres foram relegadas ao espaço doméstico, menos elas tiveram chance de estudar ou, quando tinham, suas opções eram consideravelmente mais limitadas. 


As sociedades se expandiram nesse padrão e só quando houve demanda por mão de obra pra dar conta do crescimento industrial é que se abriu espaço para as mulheres no mercado de trabalho. Em parte, a revolução feminista resulta disso. Um fato interessante é o dia 8 de março ser a data em que 400 mulheres foram mortas lutando por melhores condições de trabalho. 


A ideia de que a sociedade deve estar organizada em torno de um patriarca, uma figura masculina a qual todos devem obediência subserviente, tem raízes na Grécia Antiga. Isso se consolidou e expandiu no Ocidente com o cristianismo, e só veio começar a ser questionada com a Revolução Francesa. 


Tal lógica gerou grandes desigualdades na organização social, as quais se fazem sentir até hoje, de diferentes formas. Uma delas é exatamente a seletividade no acesso ao conhecimento. O patriarcado reservou às mulheres funções específicas e limitadas, entre as quais não estava o fazer científico. 


Ainda que esse cenário comece a ser modificado expressivamente na segunda metade do século XX, o peso das desigualdades permanece. Graças ao avanço tecnológico, hoje podemos saber o sexo de um bebê antes mesmo de seu nascimento. É aí que tudo começa. Quarto rosa se for menina; Azul, se for menino. Antes mesmo de aprender a ler, a criança absorve todo tipo de informação, o que inclui a divisão do que “é de menino” e o que “é de menina”. Uma americana resolveu analisar e anotar as palavras usadas com frequência em propagandas direcionadas à venda de produtos para meninos e para meninas de 6 a 8 anos. Para as meninas, podemos perceber palavras mais ligadas a prendas domésticas, estética e a função decorativa feminina, como “amor; mamãe; moda; estilo;” entre outras. Já para os meninos, as palavras de maior frequência eram “batalha; poder; herói; adrenalina;” dentre outras que seguem o mesmo estilo. O Feminist Frequency² fez um vídeo em que analisa alguns comerciais, e concluiu que para os meninos, estimula-se mais a competitividade e a construção de coisas do que para as meninas. Tanto questionamos a existência de poucas mulheres engenheiras ou físicas, e mal percebemos que todo o estímulo começa desde cedo. Afinal, fogãozinho e boneca são brinquedos de menina, já os carrinhos e os Legos, são brinquedos de menino. Meninos trocam as lâmpadas, meninas trocam as fraldas.

Outro motivo bem considerável é a interrupção ou adiamento da carreira profissional para dedicação à expansão da família. Muitas mulheres sentem-se obrigadas a escolher entre a maternidade e a carreira científica - como se não fosse possível manter as duas atividades com sucesso. Muitas pesquisadoras em formação que engravidam durante o processo de pesquisa, se veem pressionadas a desistirem de suas bolsas ou cursos, em razão da queda no desempenho de sua produção e da expectativa de que elas não consigam cumprir as exigências que há para concessão das bolsas, pela divisão do tempo de trabalho com os cuidados com a criança e, mesmo com tantas mulheres mostrando que é sim possível equilibrar ambas as responsabilidades, as condições diferenciadas para que isso aconteça ainda não são comuns, o que dificulta bastante o processo. As medidas tomadas para a inserção da mulher no mercado de trabalho (incluindo as áreas cientificas) tornam as oportunidades um tanto mais iguais, porém nada mais justas, uma vez que o homem e a mulher têm igual capacidade intelectual, mas ainda são seres diferentes, com necessidades diferentes. Devem, portanto, ter as mesmas oportunidades, mas as condições devem consideradas distintas. 

Sobre a reversão dessa situação, a Doutora em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental, Soraya Souza³, que passou por um complexo processo durante sua pesquisa do doutorado em função de sua gravidez, afirma: “Maior espaço para as mulheres na ciência é uma entre as tantas pautas do feminismo. Refletindo a complexidade que envolve toda a temática da (des)igualdade de gênero, a reversão desse quadro depende de uma série de fatores. É preciso considerar as expectativas sociais em torno do papel da mulher, as condições de vida e escolarização de meninas, os incentivos dados para o prosseguimento na vida acadêmica e a garantia de direitos específicos, como a licença maternidade, por exemplo. Lugar de mulher é onde ela quiser. Para que meninas queiram estar na academia produzindo conhecimento científico, elas precisam saber que isso é possível. Precisam reconhecer esse espaço como acolhedor a elas, que traz reconhecimento profissional, garantias materiais e satisfação pessoal.”. 

O importante é que a sociedade discuta a presença da mulher no meio acadêmico, em relação ao acesso, à distribuição de vagas e às possibilidades de promoção acadêmica. Os estímulos devem começar desde cedo, independente do gênero. Já existem grupos de estudos de gênero na educação superior. É preciso crer e trabalhar na elaboração de políticas e estudos de gênero, discutindo seus avanços, e seus os limites, visando à igualdade de oportunidades e inclusão das mulheres no campo da Ciência. 


1. http://www.achilleseffect.com/2011/03/word-cloud-how-toy-ad-vocabulary-reinforces-gender-stereotypes/ 
2.  http://www.feministfrequency.com/2010/11/toy-ads-and-learning-gender/

Postado por: Bárbara Andrade

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