Crônica: Helena

12:30


Lembro-me bem da biblioteca onde eu costumava gastar as minhas tardes. O lugar, sempre tão cheio de vida, pertencia ao pai de Helena, um garota alegre cuja risada despreocupada ainda ecoa em minha mente quando eu menos espero. Éramos vizinhos, melhores amigos. Gostávamos de nos enfiar juntos na grande poltrona marrom que havia na biblioteca e ler um para o outro, brincando de representar as reações dos personagens e dando boas gargalhadas com isso. Às vezes, inventávamos nossas próprias histórias, transformando aquele simples cômodo num universo só nosso. Éramos apenas eu e Helena, os donos do nosso próprio mundo. E como eu gostava dele. Como eu gostava dela. 

Devíamos ter uns onze anos quando algo terrível aconteceu. Disseram-me que Helena se jogou pela janela, a mesma em que nós nos debruçávamos no peitoril para contar os telhados das casas do bairro. Não havia vestígios de crime, nem razões aparentes para suicídio. Mas, nunca se sabe ao certo dessas coisas, dizia minha mãe. Então, aproveitei todas as oportunidades que me restaram para voltar àquela biblioteca enquanto pude, porque o lugar tinha Helena em todos os detalhes e, assim, eu tentavam compensar o vazio que a ausência dela me deixou.

Mas, não muito tempo depois, seu pai acabou se mudando. Meus pais me levaram para outra cidade. Eu nunca mais voltei a entrar naquela casa. Nem eu, nem mais ninguém. Talvez pelos boatos de fantasmas que começaram a circular, ou porque o lugar realmente caiu no esquecimento do mundo. E eu tinha todos esses pensamentos em mente quando arrombei a porta dos fundos numa tarde solitária de julho, depois de tantos anos tão distante. 

Os cômodos não estavam bagunçados nem nada, só empoeirados, naturalmente. Alguns degraus rangiam quando eu pisava. E as fotografias continuavam penduradas nas paredes, com todos aqueles rostos me encarando de forma inquietante. Forcei a porta da biblioteca para entrar, pois estava emperrada, e encontrei uma verdadeira bagunça. Livros jogados, a poltrona marrom rasgada, teias de aranha nos cantos e um odor desagradável preenchendo o ambiente. Todas as minhas lembranças de lá não passavam de simples eco do passado. Nada mais era como antes. Eu não era mais como antes. Tudo isso desde a maldita noite em que Helena se foi.

Ocorreu-me o pensamento de que algum vândalo tinha entrado na casa, como eu, mas pareceu ilógico que tivessem se dado o trabalho de só bagunçar um cômodo e deixar o resto intacto. Sentei-me no chão para analisar uma pilha de livros jogados e, de repente, um livro de capa esverdeada chamou-me a atenção entre os outros. Tinha o nome de Helena na contracapa, e isso não era nada comum. Folheei-o sem grandes esperanças, mas fiz duas estranhas descobertas. A primeira seria uma frase escrita na última folha: "não diga o nome dela". A segunda seria a própria história. O livro falava sobre um menino que gostava de provocar as sombras até que, um dia, foi engolido por elas. Não parecia o tipo de literatura com a qual nós estávamos acostumados.

Abri as janelas para circular o ar, e senti fracos pingos de chuva tocarem meus braços. O céu escuro anunciava a tempestade que chegaria. Os vidros estavam embaçados, então desenhei um sol modesto com a ponta dos dedos, desejando que ele voltasse logo. Estava terminando o desenho do último raio, quando ouvi a porta atrás de mim se fechar de repente. Virei assustado, procurando alguma explicação. Conclui que fosse o vento, como sempre.

- Quem está aí? 

Houve silêncio como resposta. Voltei a analisar os livros, tentando não ficar impressionado com o que tinha acabado de acontecer. No mesmo livro verde, encontrei outro nome escrito. Dessa vez, era "Luna". Sussurrei a palavra, lembrando de que esse era o nome da menina sobre quem Helena costumava escrever. Ela dizia que era como se fosse sua irmã, sempre com o olhar distante, e me emprestava seu diário para que eu lesse as aventuras que escrevia sobre ela. Era sempre sobre as duas brincando pela casa ou se aventurando pelo bosque que ficava atrás. No dia em que me mostrou uma história na qual Luna a levava para a floresta e a fazia jurar que elas morreriam juntas, eu pedi a Helena que não escrevesse mais sobre aquilo. Ela não gostou. Disse-me que não poderia ser exclusiva de ninguém. Nada disso me fez muito sentido na época. 

Porém, em seus últimos dias, Helena confessou-me ter queimado o caderno com todas as histórias sobre Luna, sem me dizer o porquê. Ela não queria mais ir a biblioteca, justificando que não sentia mais tanto interesse naquele lugar. Achei estranho, mas concordei. Jamais poderia lhe dizer um não. O ápice de sua mudança se deu numa manhã de sábado, quando ela abriu a porta de casa somente pela metade e disse que não sairia para passear comigo. Não comigo. "Acho que não mais tenho espaço para você", foram suas últimas palavras.

Larguei o livro verde no chão e fui até o quarto de Helena. Parei na entrada, sentindo meu corpo inteiro gelar. Eu estava louco, ou o cômodo guardava mesmo o cheiro dela? Impossível. Sentei em sua cama, ainda com o velho edredom florido, olhando em volta e procurando vestígios do passado. Encontrei vários diários muito bem organizados na última gaveta do criado-mudo. Mas não pertenciam a Helena, eram de sua mãe. O mais recente, escrito nos últimos dois meses antes de sua morte durante o parto, tinha algumas páginas arrancadas, rasgadas e outras com rabiscos nos cantos. Senti-me mal por invadir a privacidade de alguém daquela maneira, porém, isso não me impediu de continuar a ler os relatos de uma jovem otimista que daria a luz a meninas gêmeas no outono, Luna e Helena. Além da anotação de um outro alguém, no final da última página, sobre um dos bebês não ter sequer chegado a ver a luz.

Larguei o diário no chão, sem poder digerir a história. Luna. Quase pude sentir sua presença. Quase pude sentir toda a sua ânsia por uma vida também. De repente, fui invadido pela sensação de terror e tristeza que me persegue até hoje. Sai andando pela casa, desnorteado. Podia vê-la em todos os espelhos, a garota de olhar penetrante cujos pensamentos nunca fui capaz de desvendar. Em especial, seus pensamentos naquela maldita noite, em frente à janela. Não sabia se tinha em mente todas as promessas feitas à sua Luna particular ou se só queria que eu fosse embora. Não pude. Ela não queria me deixar entrar, mas acabou cedendo e me levando novamente à biblioteca. Mais uma vez, éramos só nós dois, dominando nosso próprio mundo. Nossos próprios destinos. Apenas Helena não me pertencia mais. Apenas Helena não pertenceu a mais ninguém.

Postado por: Ana Letícia

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