Hoje você vai dançar

17:52



Aquela noite é agora só um borrão. Ou isso, ou realmente acontecera tudo rápido demais. Acho que nunca vamos saber. Minha lembrança da coisa toda parece um vídeo acelerado, começou com o momento em que parei o carro e a Luana pensativa e estranha que eu trouxe de casa automatica
mente se transformou na Luana que o mundo conhecia. Nunca deixaria de me impressionar com a capacidade dela de pôr aquela máscara de feliz e sociável. Desceu do carro e me apresentou para todos. Ao contrário da Carol, que ignorou todo mundo e foi direto buscar um copo. A Lu foi pra pista de dança. No meio do caminho olhou pra mim e por um instante percebi um vislumbre do que vi nela antes de entrarmos no carro. Foi bem passageiro, logo ela abriu um sorriso e voltou para me buscar.

- Hoje você não escapa, vai dançar.

Nem tive tempo de protestar, quando dei por mim já estava lá no meio de toda confusão. Ela começou a dançar e eu fiquei estático. Alguém tem noção do que ela faz comigo? Não pude conter um sorriso vendo aquela cena: era ali a minha menina, feliz, dançando e sorrindo, tão linda, tão linda.

- Tá brincando de estátua? - ela falou e eu percebi que estava com a minha típica cara de panaca, babando por ela. Disse que não sabia dançar e virei para ir ao bar. Então senti a mão dela no meu braço, me puxando de volta e protestando como uma criança. Como resistir? Cedi, como sempre, e no momento em que me virei de volta para ela, a música mudou.

Parecia coisa de filme, sabe? O casal se aproxima e começa a música lenta. A Luana travou. Eu travei. Mas ela sempre fora mais rápida do que eu, logo se desestatizou e me puxou pra dança.

Não existe palavra dentro da Língua Portuguesa que descreva o que eu senti naqueles instantes. Ali acontecera algo surreal. Eu senti a Luana com toda sua delicadeza e toda a sua brutalidade. Conversamos sem dizer uma palavra sequer durante aquela música. E então acabou. E a gente se afastou. E no curto espaço de tempo em que nossos olhares se cruzaram verdadeiramente, eu senti algo faiscar ali no meio. Pela primeira vez, eu senti a Luana me olhar do jeito que eu sempre olhei para ela e aquilo fez com que nós nos afastássemos como se para recuperar o fôlego.

- Lu, eu...

- Vou pegar alguma coisa para beber - ela disse, me cortando, e se afastando bruscamente.

Fiquei ali, sozinho no meio de muitos, estático. Xinguei alguma coisa qualquer e varri o espaço com os olhos. Coloquei as mãos na cabeça e amaldiçoei o universo por tanta complicação. E foi então que tudo aconteceu, de modo atemporal e confuso.

Luana no bar. Beijou um estranho qualquer. Xinguei. Xinguei. Xinguei. Garganta fechada. Uma ruiva. Dois copos. Luana no bar com um estranho qualquer. Carol vomitando em um canto afastado. Mulher de Fases soava ao fundo. Luana no bar com um estranho qualquer. Xinguei outra vez. Uma estranha qualquer vindo na minha direção. Dois copos. Luana no bar com um estranho. Sardas. Cabelo de fogo. Pouca maquiagem. Linda. Luana no bar com um estranho. Um copo para mim, outro para ela. "Ouvi dizer que você não sabe dançar. Vira de uma vez que você aprende." Virei. Dancei. Esqueci do bar. "Obrigado. João Paulo, aliás". Dancei mais. Conversamos. Ri. Mais alguns copos. "Disponha. Prazer, Olívia."

Olívia.

O nome dela era Luana, e naquela noite eu não mais fui ao bar. 



Postado por: Bárbara Andrade





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