Era

23:36

金継ぎ

Eu guardei todas as fotos que nunca tiramos, e os postais que você me escreveu naquela tarde de sol. Coloquei-os dentro de uma caixa florida, bem ao lado dos nossos abraços, bem em cima da lembrança de quando você me disse adeus. Enrolei com fita vermelha nossas conversas bem humoradas, todos os seus olhares que dispensavam palavras e nossos silêncios que pesavam como nada mais. A fita era vermelha como os seus lábios nos melhores dias, quando formavam meu sorriso predileto e deixavam minha bochecha marcada com seu batom. 

Eu nunca pensei que sentiria falta até do seu mau-humor, de quando você me tirava do sério. As páginas do meu caderno ainda são manchadas de rímel pelas lágrimas que você derramou. E agora você deve estar desperdiçando sua maquiagem por outro alguém, que eu nem conheço, e nem vou saber a história. Porque eu não sou mais a primeira pessoa para quem você contaria. E sei que, seja lá quem esteja ocupando esse lugar agora, nunca saberá os seus motivos antes mesmo de calar os seus soluços. 

É verdade que você não está tão longe, são apenas alguns milhares de quilômetros entre nós. Mas quem eu costumava conhecer está bem mais distante agora, aprisionada no passado, dolorosamente inalcançável para mim. Não a reconheceria na rua, nem se pudesse vê-la por dentro. Todas as coisas que não te disse precisariam continuar em silêncio, porque você não seria mais a pessoa certa para ouvi-las. E nós seriamos apenas dois estranhos se cruzando na esquina, cada um seguindo seu rumo, andando para cada vez mais longe um do outro. 

Joguei fora as memórias daquela caixa florida, e a pus junto ao porta retrato azul que não contém mais a sua foto. Somos apenas um eco do que fomos, e agora quero novas risadas que preencham os meus espaços vazios. Você me disse adeus, e me deixou claro que não voltaria a usar aquele batom vermelho. Tudo bem, agora eu quero experimentar novas cores. Quem sabe um tom mais claro, ou algo mais intenso, talvez. Não guardarei saudades de alguém que não existe mais. E espero que você também não me mantenha na lembrança, porque o meu eu que há em ti, felizmente, também ficou para trás.

Postado por: Ana Letícia

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