Crônica: Voa, pequena menina-borboleta

20:58


Quão grande é a possibilidade de um dia morto se tornar um dia memorável em questão de aproximadamente 45 segundos? Bom, parece improvável, mas foi mais ou menos o tempo que ela levou para cruzar aquela rua e marcar a minha memória para sempre.

Eu saí daquele lugar agradecendo aos céus pelo dia já ter chegado à metade. Olhava com total indiferença para tudo e todos ao redor, me aborrecendo profundamente com aqueles malditos óculos quadrados que estavam escorregando pelo meu nariz, oleoso por causa do calor incomum para a época de inverno, a cada aproximadamente 45 segundos. As crianças saíam da escola, os pais buzinavam um para os outros, e as pessoas andavam apressadas de um lugar para o outro como se não tivessem tempo nem para respirar mais profundamente. Nada de diferente dos outros dias.

E então, em uma das ajeitadas do óculos, eis que surge na minha vista uma criatura meio amarelinha, meio verdinha, com as asas redondinhas e uma alegria de criança. Aquela borboleta parecia ter alma de gente. Ou será que certas pessoas é que tem alma de borboleta?

A segui com os olhos até ela virar a esquina, onde eu não enxergava mais. Perdê-la de vista me fez voltar ao dia morto por alguns instantes, no momento em que percebi que ela já havia ido, então eu estava encarando o nada no meio da rua que nem um panaca. Baixei os olhos, desejando, quase sem perceber, que me aparecesse uma pessoa-borboleta para ser minha, para dar uma animada na minha vida. E foi então que notei a presença daquele ser.

Ela vinha do lado oposto, com a cabeça levemente levantada, e havia parado para observar cuidadosa e afetuosamente a mesma borboleta, com um traço de sorriso nos lábios e um olhar de quem estava perdida no torpor daquela observação. Então a borboleta foi embora, e como eu, ela pareceu sair de um estado de transe e, com um suspiro, voltar a uma realidade que não a agradava muito. Recolocou os fones e pareceu mudar a música, deu uma olhada indiferente para o ambiente que a rodeava, ajustou a mochila nas costas e começou a andar.

Usava uma calça justa nas coxas, mas ia alargando quanto mais próxima dos pés - quase cobertos pela sobra de pano preto da calça. Vestia um moletom com listras de cores cinza e azul-escuro, definitivamente alguns números maior que o ideal, mas de tecido leve. Não parecia ser dela, mas caía-lhe bem, se ajustava ao seu corpo. Durante o tempo que a observei, as mangas que ela puxava tão decididamente como eu colocava os óculos no lugar, caíram, cobriram as pequenas mãos e fizeram um dos ombros se expor, e quando ela caminhava, as mangas balançavam. Era engraçado, mas não tive a ousadia, e nem a vontade de rir. Era uma pessoa pequena em roupas grandes, mas não parecia errado. Talvez fosse uma maneira de se afastar das pessoas-padrão, ou talvez ela se desleixasse para não chamar atenção para si. Talvez, ainda, ela apenas se sinta melhor em roupas grandes. Fosse o que fosse, fazia sentido, parecia certo e parecia belo.

Ela se aproximava.

Estava ventando na direção oposta a que ela caminhava, e os cabelos soltos balançavam para trás como nas cenas de filme. Eram uma grande e volumosa mistura de liso, cacheado, natural e queimado (ou será que aquilo era pintado? Creio que nunca vou saber). Não parecia ter sido penteado por horas a fio, mas completava toda a cena. Era uma mistura que fazia mais sentido do que a maioria dos apenas lisos ou apenas cacheados. E, por todas as divindades existentes, quanto cabelo! Como tantos fios podem caber na cabeça de uma única pessoa? Eu hein.

Cada vez havia menos metros entre nós.

Não usava maquiagem. Não que precisasse, é claro. Seu natural já era, ao meu ver, suficientemente belo. Tinha olhos grandes, castanhos. Uma boca fina, pequena, em formato de coração. Me perguntava que tipo de música ela estava ouvindo, e no que pensava naquele instante em que mordia os lábios como se estivesse decidindo algo extremamente importante. Para onde será que estava indo? Não a ouvi dizer uma única palavra, mas sentia que ali havia tanta profundidade que qualquer um ficaria intimidado ao ouvi-la, especialmente eu. É, ela me intimidava, e bastante. Algo em mim tinha certeza de aquela criatura caminhando na direção em que eu estava era o maior mistério com o qual eu jamais iria me deparar de fato.

Quase na minha frente. Será que eu devia falar algo?

Entretanto, apesar da certeza do mistério, havia uma pureza ali que para mim parecia óbvia. Eu olhava a pequena menina e a via cantando alto enquanto esfregava o xampu na cabeça. Dançando pela casa nos dias de faxina que, de certo, eram também dias de dar um show de canto e dança na cozinha. A imaginava, com a maior facilidade, sentada perto de uma janela em um fim de tarde, com um livro na mão e fazendo expressões durante a leitura que a deixavam cada vez mais bela. Enxergava ali uma boleira maravilhosa, mas um desastre quando a coisa é fazer feijão. Não a imagino gostando de vôlei. A vejo fechando os olhos, sentada na areia, e se tornando parte da praia, um pedaço do mar e da areia, um pedaço da vida. Eu a olho ali, quase na minha frente, e realmente a vejo: uma menina-borboleta.

Ela está aqui, na minha frente. Durante segundos que pareceram uma vida, uma troca de olhares. Ela se vai. Quando passa do meu lado, sinto o perfume que aos poucos se perde no ar. Nada falei. Não a parei. Não disse o quanto torcia para que ela fosse feliz. Nem como eu sentia que feliz poderia ser ao lado dela. Não fiz nada. Ela não poderia e nem devia ser minha, nem agora, nem em momento algum. Ela não pertenceria jamais a ninguém. Do mesmo modo que eu, um sujeito comum, fui feito para observar e sorrir para borboletas que passam, alegram, e se afastam, seguindo seu caminho, ela, uma menina-borboleta, fora feita para voar.



Postado por: Bárbara Andrade


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