Era uma vez a amizade sem fim

17:49

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Por Soraya. 

A atividade era compor uma canção que falasse de amor. Não tenho lembrança de quem foi a ideia no grupo, mas lembro bem da satisfação do professor ao ver que nossa letra não tinha juras eternas ou cenas românticas, mas palavras sobre confiança, admiração, apoio, sinceridade, companheirismo. Se eu já tinha sido tocada, ainda mais criança, pelos versos de Canção da América, aquela experiência marcou forte em mim que amor e amizade são, mais do que duas faces de uma mesma moeda, componentes da liga que torna a vida algo realmente encantador.

Mesmo sentindo todo esse poder, calhou de me tornar adulta sem me sentir muito boa nisso de ter amizades. Claro que fui construindo alguns vínculos bem significativos na vida. Mas, por vários motivos, de diversas formas, inadequada era (e continua sendo) um bom adjetivo pra falar de mim, o que não é algo que seja tomado majoritariamente como um atrativo. Daí a surpresa intensa que tive quando, ao atender o bater de palmas na porta de minha casa, me deparei com uma das moças do primeiro dia de aula na faculdade. Ambas sorriram pra mim, ambas tinham firmeza no passo e leveza no jeito, mas aquela tinha uma seriedade no olhar que eu não esperava procurar por mim fora do espaço da universidade. Só que ela estava ali. Me pedindo pra entrar, com licença, pois não sabia muito bem o porquê, mas estava vivendo algo ruim e o coração lhe dissera que podia confiar em mim.

Já se passaram quinze anos desde essa que considero a nossa primeira conversa como amigas. Já abri várias vezes a porta e ela estava lá, do outro lado, depositando em mim confiança para um sem fim de coisas. Entramos numa sintonia fina de saber exatamente o pensamento uma da outra, diante das mais diversas situações. Mesmo assim, ainda guardamos com o que nos surpreender e até mesmo envergonhar diante uma da outra.

Já passamos longas temporadas sem conversar e sem nos ver. Já falamos por 12h seguidas e já sofremos muito por termos de nos separar. Já misturamos dinheiro e paixões. Já cogitei morrer e matar por sabê-la em sofrimento. Mas muito mais intenso foi pensar nela como parceira quando decidi que seguiria com a gestação que nos deu nossa cria. Já tive medo de suas escolhas e a senti distante. Já a assustei e confrontei dolorosamente, também. Já nos guardamos segredos.

Penso e escrevo com convicção as bobagens que sei que a farão rir. Boa parte delas dão munição para os tiros certeiros em forma de piadas infames sobre mim que ela dispara. E com isso meus tropeções e escorregos voam na minha cara sem compaixão, como numa esquete circense mediada por tortas cheias de chantilly e corante. Nessa, fomos aprendendo a respeitar nossos percursos de amadurecimento e, principalmente, a liberdade de ir e vir entre nós. Com uma força tal que muitas, muitas, incontáveis vezes, apenas a memória de sua existência foi o suficiente para que eu pudesse respirar fundo, lembrar quem eu sou e fazer o que precisava ser feito.

Isso tudo me leva àquela tarde de aula de artes e ao sorriso do jovem professor cacheado diante de um grupinho de crianças que deram mostras de entender amigos como amantes. Não lembro um verso sequer da canção, mas quero dedicá-la a ela, a moça cujo rosto de traços delicados minha memória resgata de imediato quando meu cérebro processa a palavra amizade, contornando com a beleza de nossa história toda a amplitude com que vivo a noção de amor.

Por Andreína.

1,60 de Sol 

Essa é uma história de amor. A minha mais longa história de amor fora da minha família de casa. E ela começa de maneira especial como é típico das histórias de amor. Pelo menos aos olhos de quem ama, ela é especial. À primeira vista, o impacto que ela me causou foi tanto que eu tive medo. Não sei se foi bem medo. Foi algo de espanto. Aquela moça com sotaque de fora da cidade e aquele olhar forte (isso foi o que mais me espantou) tinha me chamado atenção. Foi no dia da matrícula do curso de graduação. Eu muito insegura naquele ambiente que pra mim era uma mistura de selva com ilha da fantasia, pensei que aquela moça jamais seria minha amiga. 

Nos primeiros meses, só nos dávamos aquele “oi” na sala. Até que um dia, um desses trabalhos universitários nos colocaram no mesmo grupo. Acho que nos gostamos desde ali. Até que outro dia, passamos a ser confidentes das nossas dores que não falávamos para qualquer um. E vieram muitos desses momentos. Ela contando das dores dela, eu contando das minhas. As duas participando das alegrias uma da outra. Com ela sempre foi fácil conversar 12 horas seguidas. Tanto que certa vez, falamos uma com a outra depois de dormir. Sim, há testemunha ocular de tal feito. Duas maritacas (como ela diz) batendo papo depois de dormir. São 15 anos que nos conhecemos... e muito tempo de amor. Muito tempo de confiança e empatia. Andávamos tão grudadas que eu vivia mais na casa dela do que na minha e alguns maldosos disseram que terminei um namoro por conta dela. Talvez até tenha sido parte por causa dela... mas não pelo que pensam essas pessoas, mas sim por ela ter me feito enxergar em vários momentos que aquela relação não podia ter bom destino.

Foi ela quem me apresentou a possibilidade de rabiscar o corpo. Foi ela que aceitou as minhas partes feias sem me julgar. Foi dela que ouvi o choro sincero quando passei uma fase ruim da vida. Ela apoia as minhas maluquices. Fui a São Paulo, a Belém, e a Paris com ela. Nos apresentamos de música a textos acadêmicos sempre que lembramos uma da outra. Ela enche a minha vida de poesia com o seu jeito de contar histórias. Me enche de esperança na humanidade por sua capacidade de cuidar. Um metro e sessenta em que cabe isso tudo e outras coisas que a percepção não é capaz de alcançar. 

Arrisco a dizer que nos embrenhamos na família uma da outra. Ela me deu de presente a menina Rosa para madrinhar. Esse gesto me comove até hoje. O amor que eu tenho a essa menina é de uma intensidade... Há pessoas na família dela que eu amo como se conhecesse a vida toda. Ela é a irmã (mais velha) que não tive. Sei que sou a caçula dela. Já nos mudamos umas mil vezes de cidade cada uma e nunca passamos mais de uma semana sem nos dar notícias. 

Essa é uma história de amor entre duas mulheres. Entre duas irmãs. Duas mulheres que se tornaram irmãs. É história mais longa de amor da minha vida. Ela resiste, se fortalece, se alimenta todos os dias. Estamos em cidade diferentes mas escolhemos coisas pra vida que são muito próximas: a sororidade, a escolha pela fuga do lugar comum do mundo, a escolha pelo máximo de liberdade que seja possível aos humanos, a escolha pelo amor, pela luta e pela não submissão. Amar a Sol não é mais uma escolha que faço, pois hoje já não vejo como não amar. O que desejo pra nossa história é vida longa. É com essa poesia que eu quero me lembrar dela quando ficar velha. É essa uma das coisas mais importantes da vida que quero lembrar caso a memória resolva rarear. É essa história que quero contar aos que eu tiver por perto. É uma história de amor possível entre duas mulheres. Uma história de apoio, amor e confiança que muitos acreditam que não possa existir. Mas o que basta é que para nós existe. 

O projeto Era Uma Vez reúne histórias de amor, de qualquer intensidade e de qualquer formato. Conheça mais sobre o projeto neste post, e nos envie sua história de amor através do email: cacadoradegalaxias@hotmail.com não seja tímidx <3

Sem muita balela, queria agradecê-las. Pelos textos e por tudo. Me emocionei um bocado, e pensei muito na Ana enquanto lia a história de vocês, o que eu imagino que queria dizer muito. Obrigada, obrigada. Aos interessados a participar do nosso doce projeto, cliquem aqui


Postado por: Bárbara Andrade

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