Você mudou bastante, né?

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Mas já que você mencionou, eu mudei bastante, sim. Não cresci muitos centímetros, mas larguei minha preguiça e comecei a me exercitar. Criei uma rotina e parei de querer planejar os próximos 40 anos da minha vida. Finalmente conheci um pouquinho mais da astronomia que tanto sonhei estudar, e entendi que a minha inconstância será sempre tão imprevisível quanto os mistérios do Universo. Mudei a cor da parede, mudei a cor das canetas, mudei o toque do telefone, mudei o plano de fundo do computador. Parei de jogar os cabelos para o lado e puxei a franja para trás. Agora eu consigo me ver melhor, e não tenho nem como te explicar como isso me fez e me faz bem.

As olheiras aumentaram um pouco, confesso, mas eu parei de me desesperar e tentar amenizar com maquiagem. Parei de maquiar as olheiras, parei de maquiar os dias ruins, parei de maquiar meus medos.  Aquela covinha do lado direito do meu rosto aumentou, e tem uma querendo aparecer do lado esquerdo. É, eu continuo meio devagar, até as chamadas “falhas genéticas” demoraram a aparecer.  

Cortei as unhas, deixei o cabelo crescer. Vendi aquelas dezenas de livros parados, abri as janelas e comecei a arrumar a cama (não de manhã, claro, não queira exigir demais). As listas de músicas não mudaram tanto, mas aumentaram tanto quanto a minha autoestima e o volume do som.

Estou dormindo mais tarde, é verdade. Talvez você espere que eu diga que, como antes, é insônia. Mas meu bem, o dia é curto demais para eu jogar a noite fora. Tantos livros, tantos filmes, tantos textos a serem escritos. Eu parei de me negar o direito de aproveitar. Pego chuva, me queimo de sol, sujo as roupas até não ter mais e como os doces da padaria da esquina sempre que consigo.

Parei de sempre esperar. Esperar o ônibus, esperar o último dia do prazo de entrega, esperar a semana avaliativa para revisar. Esperar que faça sol, esperar que o brigadeiro esfrie, que me digam sim, esperar a hora de ir, esperar que você venha.

Aprendi com isso que tem horas que não tem o que fazer: você tem que esperar e fim. Seja paciente. Respira, relaxa. Olha em volta de você. Quantas pessoas não estão esperando também? A senhora de vestido verde, o menino de tênis laranja e a mocinha de fone que está segurando aqueles livros como se eles fossem o bem mais precioso que ela tem na vida. Já parou pra pensar nessas pessoas? Caramba, nem te conto o tanto que penso nelas. Cada uma tem sua vidinha, suas verdades, seu mundinho secreto de medos, aflições, alegrias e memórias.

Memórias... Eu não joguei minhas memórias pela janela, mas parei de me nutrir tanto delas. Desapego é a palavra da vez. Mas não confunda desapego com desamor, não, não. Aprendi a mudar o significado desses conceitos para mim. Agora eu sei como é desapegar (e desamar um pouquinho também), e sei que não é esse bicho de sete cabeças. Você abre um espaço em você, mas não necessariamente um vazio.

Admiti que não gosto de estar errada. Admiti que falo baixo e embolado. Admiti que tenho medo de ficar só. E finalmente aceitei que mudar é ok. Mudar de roupa, mudar de música, mudar de amigos, de casa, de Estado, de país. Mudar de quarto, mudar de sapato, mudar de amigo, mudar de namorado. Mudar da escola, mudar de perfume, mudar de cabelo, mudar de livro. Mudar de bar, mudar de bebida, mudar de apelido, mudar de companhia. Mudar de personalidade, mudar de ídolo, mudar de música favorita, mudar de restaurante da vez. Mudar de emprego, mudar de mania, mudar data e mudar de vida. Quase um poema.

Muda, mundo, muda. E me deixa mudar junto. Você pode mudar comigo, se você quiser. Pode mudar sozinho também. Pode até... Não mudar. Mas, como você disse, eu mudei. Não por você, nem por ninguém. Por causa de muitos, sim, também. Talvez pra melhor, talvez pra pior. Sinceramente, não me importo.  Talvez você não devesse se importar também. Ou se importe. No fim das contas, bem, eu não mudei para agradar ninguém além de mim. 

Postado por: Bárbara Andrade

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