Sobre a redação do Enem, sim

18:44


Sala 12. Uma das primeiras a entrar, como sempre. Segunda cadeira da primeira fileira à esquerda. Podem abrir a prova. “Proposta de Redação”. Sinto que meus olhos brilharam um bocado e eu devo ter feito uma cara muito óbvia de “nem acredito”, porque a fiscal até riu de mim quando viu minha reação. E, é claro, não poderia de jeito nenhum deixar isso passar em branco. 

Bom, uma breve explicação para algum possível desavisado, o que é o Enem, afinal?

“O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é uma prova elaborada pelo Ministério da Educação para verificar o domínio de competências e habilidades dos estudantes que concluíram o ensino médio. O Enem é composto por quatro provas de múltipla escolha, com 45 questões cada, e uma redação.”

E o tema da redação do Enem 2015, como já diz na imagem ali de cima, foi "a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". E foi maravilhoso poder ter esse espaço.

Voltando um pouquinho no tempo, a semana que antecedeu o Enem foi cheia de alguns acontecimentos que atacaram o público feminino direta e indiretamente de diversas maneiras. Dentre os tais ocorridos, os mais destacados foram a aprovação do Projeto de Lei 5069/13 na Câmara dos Deputados e o assédio virtual sofrido pela Valentina, participante do MasterChef Júnior, de 12 anos. Eu não sei vocês, mas eu li muitos e muitos comentários e textos que me causaram certo pânico e um desejo infinito de que fosse tudo uma brincadeira de mal gosto. Por outro lado, tivemos também a campanha #PrimeiroAssédio, lançada pelo Think Olga logo após esses ocorridos citados anteriormente. Por mais chocante que os resultados da campanha tenham sido, foram de uma importância gigantesca, deixaram a clara mensagem de que A) Não é vitimismo, não; B) Você não está sozinha. 

Depois dessa semana que tocou e emocionou muitas mulheres brasileiras, chegou o Enem. Passa o sábado, cheio de comentários sobre as provas e expectativas para o dia seguinte, normalmente mais esperado por todos, justamente por causa da redação. E aí veio o domingo. Na minha sala só tinham meninas. De Bárbaras à Beatrizes. Devo dizer que não foi só o meu olho que brilhou ao se deparar com aquela primeira página da prova. Ninguém deixou a redação para o final. Todas as meninas que estavam próximas de mim usaram todas ou quase todas as linhas disponíveis. Todas pareciam ter algo a dizer. 

Não vim falar sobre feminismo. Não vim falar sobre experiências pessoais. Não vim falar sobre PL5069 ou sobre Valentina. Nem mesmo vim falar do Enem em si. Precisamos, sim, falar sobre tudo isso. Mas agora eu vim falar sobre como foi importante para mim poder escrever sobre a violência contra as mulheres depois de ter passado a semana com um peso no coração por causa dessas coisas todas. Vim falar sobre como foi importante para mulheres que conheço e já passaram por vários tipos de violência ligadas essencialmente ao fato de elas terem nascido com uma vagina. Vim falar sobre como deve ter sido importante para aquela mocinha que desabafou para a campanha Primeiro Assédio e pode escrever sobre isso no Enem. Vim falar sobre o quão importante é ter tantas pessoas pensando sobre isso durante aquelas 5 horas e meia de prova. Vocês viram quanta revolta causou? Pois é. Um escândalo ter que admitir que existe de fato violência contra as mulheres, que não é mimimi, que não é vitimismo, que não "é falta de rola". E é isso que nós precisamos. Precisamos de mais. Mais espaço, mais voz, mais empoderamento, mais força. Juntas todas vamos conseguir, ok? Seja forte aí, e espero que você tenha arrasado naquelas 30 linhas.

Que em 2016, quando eu estiver fazendo o Enem para valer, seja um tema tão importante para mim quanto esse foi, amém.





Posts relacionados

0 comentários