Conto: O grande salão das ilusões

16:17


Não sei como vim parar neste lugar. É sombrio e, aparentemente, sem saída. Visto a mesma roupa que usava quando, em meu quarto, lembro de ter ouvido algum som vindo do armário. É minha última lembrança. Eu tento gritar, esforço minha garganta até senti-la ferir, mas o silêncio parece mais denso e sufocante a cada instante, como se algo pairasse sobre mim e me deixasse imóvel, impedindo-me de pedir ajuda. Não que eu acredite que, em um lugar tão bizarro, possa ter alguém seguro por perto, mas não custa nada tentar. Tento me sentar, enfraquecida, com dificuldade para respirar e a cabeça dolorida. Está muito frio. Sinto-me vazia, esgotada, como se minhas forças possam servir de alimento para essa escuridão. Meus olhos se acostumam com ela. Percebo então que a sala está repleta de espelhos. Ver meu reflexo em todas as direções, mas parece que, em cada uma delas, há alguém diferente me observando. Eu levanto a mão, e meus reflexos seguem o movimento. Mas não sou eu que está lá. 

É um pesadelo, penso, em alguns instantes, eu irei despertar. As imagens nos espelhos não refletem minha expressão de desespero, elas são todas diferentes, mas acompanham os meus gestos. Algumas parecem apenas tristes, outras, não tão inofensivas. Uma delas tem o rosto muito magro, quase doentio, emoldurado por um cabelo ralo e de aspecto descuidado. Está tentando esboçar um sorriso. Já outra parece ter sido tirada diretamente da capa de alguma revista famosa, com um vestido preto e longo, anéis caros em quase todos os dedos, mas olhos fundos, negros e sem vida. Ainda há um reflexo acima de mim, o único em que eu realmente posso ver a semelhança. Tem a aparência cansada e está com muito medo. Certamente, é um reflexo real.

Atrás de mim, a criatura que fita meus olhos tem a expressão severa, quase que carregada de rancor. É como se ela estivesse descontente com a minha presença. Suas roupas negras e compostas também refletem sua seriedade, ao contrário da figura da frente, que mais parece um personagem de circo. Com a maquiagem borrada e colorida, um vestido vibrante e um largo sorriso no rosto, pareceria ter sido tirada de uma animação infantil, exceto pelos seus olhos loucos e esbugalhados, que causam mais desconforto que qualquer outra sensação.

Enquanto isso, o reflexo debaixo está tentando me dizer algo. Você não vai conseguir, leio de seus lábios, você não é capaz de escapar. Tento lê-los novamente, em desespero, ao pensar nas consequências desse aviso. Mas a frase não é dita outra vez. A moça estica os baços em minha direção, e eu me levanto, em pânico. Seremos apenas eu e ela nessa sala, além dos olhos observadores que podem assistir a qualquer tipo de crueldade que ela possa fazer comigo. De repente, todos parecem muito interessados.

As paredes estão mais próximas que eu imaginava, meus movimentos são limitados. Penso rapidamente em alguma forma de quebrar o vidro, mas nada me ocorre. Tento tocar o espelho de cima com os dedos, procurando algum apoio, mas descubro que posso ir além. Aos poucos, levanto-me e incrivelmente saio daquela pequena caixa sombria. De repente, estou sozinha em um corredor com apenas uma porta dourada no final. Não há nenhuma passagem abaixo de mim, quer dizer que aquela criatura não pode me alcançar. Espero não encontrar outras piores. Ainda acredito estar em um sonho, e considero permanecer parada até eu acordar. Mas os ruídos nada convidativos na escuridão atrás de mim me fazem repensar sobre isso, e eu caminho em direção a porta, fazendo barulho a cada passo. Temo que a moça do espelho possa me ouvir. Parece se passar uma eternidade de agonia até que eu alcance a porta. Toco a maçaneta gelada, e penso que é como apertar a mão de alguém cujo coração não bombeia mais calor. Isso me causa calafrios. Abro. 

Todas as pessoas estranhas dos espelhos estão nesse novo recinto, mas agora têm companhia. A porta some atrás de mim, cancelando meus planos de fuga. Aparentemente, eu não posso voltar a trás com minhas escolhas nesse lugar. Portanto, prefiro andar para frente, sempre para frente. Temo o que posso encontrar se olhar para trás. Entretanto, olhar para frente já é bastante ruim, mesmo com a iluminação precária dos castiçais. Os seres ao meu redor parecem todos frutos de algum experimento mal sucedido. Há pessoas com vários olhos, criaturas sem forma definida, e, os piores, são aqueles que me encaram de forma devoradora. Não sei dizer se estão apenas me analisando, ou se querem minha alma. Deixo de lado esses pensamentos quando vejo outra saída do outro lado da sala.

Esbarro em uma senhora de pele escamosa, e, quando ela se vira, mostra apenas uma cavidade cheia de dentes no lugar de seu rosto. Apenas peço desculpas, involuntariamente, e continuo andando depressa. A janela não está tão distante. Sinto meu corpo ficar tenso com o simples toque de alguns seres em meus cabelos. Eles tentam cheirá-lo, e eu sinto vontade de avisar que está sujo demais para ter qualquer odor agradável. Mas aquelas pessoas já eram imundas, muito mais do que meu cabelo jamais poderia estar.

Enfim, penso que cheguei à janela, mas é apenas uma pintura. O terror me domina. Olho em volta. Estamos em um grande salão mal iluminado, como se estivessem dando uma festa de horrores. Há pilares revestidos de ouro e pinturas de jardins por todos os lados. É mais fácil perceber agora, sem estar rodeada pelas criaturas. Elas estão me ignorando, e tenho a sensação de que estão mais preocupadas umas com as outras, de alguma forma, tentando impressionar. Exceto por uma. O reflexo que estava bem abaixo de mim na sala de espelhos. É uma moça muito parecida comigo, mas carrega algo de terrível em seu olhar. Está vestindo um grande casaco preto e seus cabelos sem cor estão presos em um coque. Sua expressão é perversa. Viro-me de novo para a pintura, a fim de não encará-la. Descubro que, assim como os espelhos, é possível atravessar os quadros.

Porém, a travessia é muito mais lenta, e todos do salão já estão olhando para mim. As criaturas começam a se aproximar. Eu estou apenas com o braço passado e tentando colocar minha perna direita quando alguém me dá um puxão de cabelo. Minhas roupas, cinzas e desgastadas, são rasgadas e eu me sinto invadida, tocada agressivamente por aqueles seres terríveis. A moça do espelho se aproxima sorridente. Seus dentes são podres, tão sujos quanto todos nesse lugar. As lágrimas mornas molham meu rosto enquanto resisto aos puxões e me enfio dentro do quadro. Eles estão em cima de mim, sufocando-me. Espetam minhas costas com suas unhas e percorrem a pele do meu rosto com seus dedos frios. Minha visão já está turva com tantas lágrimas quando, de uma vez por todas, atravesso o portal. 

O jardim está iluminado apenas pela luz perolada da lua cheia. Há rosas mortas aos meus pés, uma floresta densa ao meu redor, e nenhum sinal das cores e da vida que se via nas pinturas. O lugar que me encontro é praticamente uma clareira sombria que um dia poderia ter sido um lugar muito bonito, mas hoje, está devastada. Dou pequenos passos, com medo do que eu posso encontrar adiante, mas aliviada por acreditar ter deixado o pior para trás. Agora posso pedir ajuda, digo a mim mesma. E estou pronta para sair e procurar um lugar seguro, quando sinto o toque frio e pesado na pele nua. Não me dou o trabalho de virar para conferir. 

Corro tanto quanto é possível em minhas condições. Tenho consciência de que está tudo errado, está tudo perdido. Penso em desistir. Penso em parar e me entregar àquela sombra que está prestes a me alcançar, me consumir. Eu tento manter o ritmo, mas às vezes se está apenas cansada demais para continuar. Posso ouvir sua risada cheia de deleite cada vez mais próxima dos meus ouvidos. Até que sua voz é tudo que posso ouvir. E eu estou perdida para sempre. Engolida pelas sombras.

Agora, não existem mais reflexos. Eles estão dentro me mim, infernizando-me e causando caos. Eu ando ao lado das outras criaturas, tão podre quanto qualquer uma delas. Sem roupas e sem vida, totalmente exposta ao mundo que me cerca. Um mundo cheio de seres desalmados empurrando uns aos outros nesse grande salão de ilusões, sonhando em, um dia, alcançar os belos jardins que enfeitam as paredes. E eu vou caminhando com a massa, porque sou um deles agora. Sendo julgada, sendo consumida. Mas ainda mantendo secretamente a fé de que tudo isso não passa de um terrível pesadelo.

Postado por: Ana Letícia

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