Crônica: Memória falha

17:26


Volta e meia eu lembro daquela tarde no parque. Parecíamos bobos brincando de decifrar as pessoas, tanto que nunca compartilhei essa lembrança com ninguém. Os outros não entenderiam. Eles não apreciam a beleza banal das coisas como você, ou como você me ensinou a enxergar. Nesses momentos em que me sinto perdido entre esses corações vazios, pergunto-me porque não pude ver além do seu adeus, e não segurei sua mão para que não fosse embora. O brilho dos seus olhos estava perdido naquela noite fria, e eu temi que nunca mais fosse vê-lo novamente. 

Dizem por aí que eu não sou muito afetuoso. Não distribuo elogios, não jogo promessas ao vento, nem dou abraços gratuitos. Quando eu digo que gosto de alguém, é um momento de pura espontaneidade. Porque eu me recuso a simplesmente dar alimento ao ego alheio ou cativar as pessoas pela minha simpatia invejável. Porque eu sou um mal ator, e porque também sou um mau mentiroso. Mas como eu me recuso a contar mentiras a todo custo, às vezes esqueço de soltar algumas verdades. Não aquelas palavras duras que a gente diz quando tem muita raiva, mas as que são cheias de encanto e poesia, e aquecem o coração da gente.

Eu sei, atitudes valem muito mais que palavras, sempre estou disposto a dar a mão a alguém quando é preciso e, às vezes, até sem querer, acabo dizendo um monte de bobagens vazias. Mas é necessário dizer "eu te amo" sorrindo para as pessoas certas de vez em quando. Porque se a gente não diz, elas acabam esquecendo.

Acho que fui esquecendo de dar aquele abraço apertado no fim do dia, procrastinando aquele "eu gosto muito de você" e substituindo palavras reconfortantes por algumas outras com muito menos beleza. Eu precisava tanto de você, que não lembrei que você também precisava de mim. Dei lugar a rotina e a monotonia, ignorando que você sempre me dizia que gostava de mim porque eu a levava para outro universo, longe desse mundo sem graça. E olha só, eu me tornei alguém sem graça. Enquanto você continuava a mesma pessoa colorida por dentro. Então não posso culpá-la por não querer mais o meu preto e branco.

Dizem que nunca é tarde para dizer que gosta de alguém enquanto se é vivo, mas será que aquela garota de quem eu tanto gostava continua viva? Porque eu certamente não sou mais aquele cara com a cabeça nas nuvens e o coração libertino. Guardo apenas na memória a sensação de liberdade e todas as palavras não ditas, que, se eu pudesse, embrulharia todas nos nossos velhos sonhos e enviaria para o seu novo endereço. Mas talvez você simplesmente ignorasse ou jogasse fora. Porque eu perdi a chance de dizê-las enquanto você estava aqui, comigo. E por isso eu digo: é tarde demais.

Postado por: Ana Letícia 

Posts relacionados

0 comentários