Precisa desabafar? Ah, é sobre o Enem também?

19:44


Essa semana mesmo, quando eu voltava do cursinho de redação, tive a infelicidade de pegar um ônibus super lotado. No entanto, isso me deu a oportunidade de ouvir o relato dolorido de uma estudante (que eu nem conhecia) a respeito do Enem. Ela me viu com a camiseta do curso, começou a fazer perguntas e, quando vi, já estava me contando sobre o drama que estava sendo sua vida. Sei que não é certo fazer julgamentos, mas era uma moça bonita, com condições de pagar o curso preparatório para medicina de uma das melhores instituições da cidade, e certamente contava com todo o apoio familiar e financeiro possível para poder estudar tranquila. Mesmo assim, ouvi-a confessar que ainda é março, mas a rotina intensa de estudos já é exaustiva. Não houve muita margem para que eu desse minha opinião, nem qualquer palavra amiga. Apenas pude observá-la colocar todas as suas frustrações para fora, com o olhar perdido e um ar de quem gostaria de poder ter dito aquilo há muito tempo. 

Foi uma experiência interessante, até porque, como é meu penúltimo ano de ensino médio, tenho ouvido bastante falar sobre o tal Enem. Inclusive, escuto muitos outros desabafos de estudantes que pretendem cursar medicina. São pessoas nervosas e cheias de esperança, tentando não colocar tantas expectativas na possibilidade de aprovação, mas já devaneando sobre o futuro na faculdade. Eu fico realmente impressionada com tanta dedicação, porque apoio que todos devem se esforçar para alcançar suas conquistas - claro que de maneiras diferentes, pois cada um tem suas limitações. Mas me pergunto até que ponto essa competição de conhecimento é algo saudável e produtivo. E como será o futuro dos alunos que se preparam para o Enem daqui a alguns anos.

Vários amigos meus do Facebook já compartilharam aquela famosa notícia da moça que passava 14 horas por dia estudando para tentar uma vaga na faculdade. Ela passou em primeiro lugar em medicina. É muito bonito ver alguém tão jovem tão empenhado em seus objetivos, mas é frustrante também. Não digo que estudar não é importante, mas imagine quantos momentos ela pode ter perdido por estar trancada dentro de um quarto decorando teorias e fórmulas, as quais muitas delas nunca terão real significado em sua vida. Nós perdemos tempo tentando absorver uma quantidade absurda de informações para reproduzi-las em uma prova que, além de testar nossa memória, testa nossa resistência emocional e a habilidade de lidar com o tempo. Entretanto, por mais que estejamos acostumados a sermos guiados para o pensamento contrário, sabemos que a vida é muito mais do que isso.

A cada ano, o nível dos estudantes sobe mais. As escolas cobram resultados melhores dos alunos. Os pais cobram aprovações e notas mais altas para as escolas. E a sociedade acredita que tudo isso é completamente normal. Então é isso, estamos caminhando para tornar nossos jovens em máquinas de fazer provas? Todas as outras habilidades que um ser humano pode desenvolver são irrelevantes se não estão dentro do conteúdo determinado pelo MEC? Vamos forçar todos os adolescentes a seguirem esse modelo engessado ao invés de incentivá-los a investir em seus próprios potenciais? Impedi-los de aproveitar a juventude porque precisam "passar na faculdade e ser alguém na vida", nada além disso, porque todo o resto é "besteira passageira"?

Meu objetivo aqui não é exatamente questionar a existência do Enem. Eu quero apenas que as pessoas reflitam por que precisamos estar sempre nos superando, cobrando mais e mais dos estudantes. Antigamente, bastava ter o ensino médio completo para se empregar. Hoje, até com ensino superior existe muita gente desempregada. Chegará um dia em que precisaremos ser altamente qualificados para exercer qualquer função, e a cobrança exacerbada por resultados cada vez melhores existirá para pessoas cada vez mais jovens.

O ano de pré-vestibular/Enem já é um inferno na vida de qualquer estudante, e sabemos que as escolas vêm os preparando cada vez mais cedo. Será que esse sistema doentio vai chegar a atingir as crianças também? Será que já não atinge? Aos cinco anos, uma pessoa precisa aprender três línguas para ter sucesso no futuro ou brincar a fim de aprender a interagir com o mundo ao seu redor e expressar seus sentimentos? Bom, vai depender do que você define como prioridade.

Citei bastante o curso de medicina, porque vejo uma preferência muito grande por ele no Brasil, tanto que existem cursos preparatórios exclusivamente para quem vai tentar essa vaga, até mesmo nas faculdades particulares. É um favoritismo ambicioso e idiota até, devo dizer. Mas esse drama pode ser levado para outros cursos, é claro. Caramba, nós somos pessoas. Antes de profissionais de sucesso, estudantes dedicados, pais preocupados e filhos obedientes, somos só seres humanos. Nós temos necessidades, inclusive de coisas banais que não podem ser saciadas numa vida robótica de estudar-dormir-ir à escola-comer-enlouquecer. Não é por acaso que conheço tantos casos de pessoas que ficaram depressivas ou sofreram de ansiedade por causa da pressão colocada pelos pais e a escola. Não é por acaso que estamos cada vez mais frustrados, estressados e doentes, mesmo quando atingimos nosso objetivos. Acontece pela seguinte razão: estamos tentando ser como as máquinas. Mas se até elas têm um limite, o que dizer de nós, que somos apenas humanos?

OBS: Queria dedicar esse textinho a Babi, que tentará medicina esse ano também, mas que não deixa de ouvir meus dramas e me ajudar a treinar meu inglês por isso <3

Postado por: Ana Letícia

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