A menina pássaro no horizonte sem fim

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Podem dizer que ela é ríspida demais, fazer piada sobre a maneira decidida com que ela defende suas ideias e reclamar do seu jeito sincero e atrevido; mas não podem negar que, ao fim do dia, ela é aquela que, sem dizer nada, nem pedir algo em troca, doou um pedaço de si ao outro só para pôr-lhe um sorriso no rosto. Por trás da densa camada de auto-defesa, há apenas alguém que acredita no amor e em gentilezas, que se revolta com carícias excessivas de ego e que detesta essa mania das pessoas de acharem sempre mais alguma razão para se afastarem umas das outras. 

No entanto, ela precisa aprender a ser mais egoísta, porque seu coração livre às vezes se deixa levar fácil demais. Sua caixinha de decepções já está abarrotada, e ela infelizmente se apega demais a elas para poder se livrar. Não é por querer, só faz parte da sua essência. Uma parte bem ruim, devo dizer. Porque manter consigo cada olhar atravessado e palavra malvada que já recebeu na vida não faz bem a ninguém. Nem mesmo a ela, que insiste em fingir não se importar com nada, mas que no fundo recebe cada frustração como uma flechada.

Por isso, quando se olha no espelho, ela vê apenas as flechas que lhe atiraram. Um rosto infantil, uma personalidade azeda e um corpo nada dentro dos padrões. Seus olhos castanhos não enxergam as curvas delicadas que formam seus cachos, ou a beleza dos seus sorrisos mais sinceros. Recusam-se a perceber que aqueles cabelos rebeldes são belos reflexos de seu espírito livre, seu olhar penetrante comunica muito mais que meras palavras e seu corpo sinuoso é a morada de uma alma doce. Não vê, portanto, que todos os seus esforços para ser alguém melhor são em vão, porque ela na verdade já é boa o suficiente. 

Apesar do coração amanteigado, ela sabe muito bem ser aquilo que as más línguas chamam de "megera", e não tem nenhum problema com isso. Ela gosta de contrariar, não está disposta a atender expectativas e toma coragem para dar pitaco em quase todo tipo de assunto. Não tem paciência para quem não está disposto a lhe ouvir, e não tem piedade de quem não tem compaixão pelos outros, dando-lhes respostas duras quando necessário. É, ela pode ser bem dura às vezes, e nem sempre é intencional. A menos que estejam questionando incompreensivelmente os valores nos quais acredita, ou tentando menosprezá-la por isso. Nessas horas, ela não se importa nem um pouco em ser agradável. E se esse é o comportamento de uma bruxa, ela realmente não faz questão de ser a princesa. 

Porém, ela não é apenas extremos o tempo inteiro. Tem o riso frouxo e se diverte com as próprias piadas sem graça. É capaz de rir até de si mesma, o que lhe confere a leveza não sentida por aqueles que prezam demasiadamente pela auto-imagem, incapazes de achar graça dos próprios infortúnios. Ela nem mesmo se importa em ser alvo da próxima piada. Podem dar gargalhadas do seu desconcerto, do seu vestido florido, das suas músicas favoritas ou até dos textos que escreve vez ou outra pra descarregar o peso de existir. Quem sabe ela até ria junto. Talvez ela até ria de você e do seu caráter fraco que se esconde atrás de um dedo apontado para as falhas do outro.

Ela ri feito criança enquanto rodopia pelo céu azul, pois desconhece o limite dos seus sonhos ou do que lhe faz feliz. Dessa forma, a melodia das suas risadas sinceras, misturada ao seu jeito espontâneo, juntos a uma bela dose de rebeldia, consistem na receita perfeita para quebrar os cadeados de qualquer gaiola na qual tentem lhe colocar. Ela é um pássaro livre, sem medo algum de cortar o céu veloz até o horizonte sem fim ou encarar as consequências da sua liberdade. Ela é um pássaro livre, belo e obstinado. Romântico, sonhador, ilimitado, mas com os pés bem firmes no chão. Um pássaro que, acima de tudo, não tem dono. Porque o único senhor a quem obedece, é ao próprio coração.

Postado por: Ana Letícia 

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