Crônica: Até a próxima parada

15:36


Dizem, nos filmes de romance e livros sobre histórias açucaradas, que o amor da sua vida pode estar em qualquer lugar, até mesmo ao seu lado, sem que se perceba. Basta que você preste atenção e entenderá que aquela pessoa é diferente de todas as outras. Essa costuma ser uma tarefa difícil, mas não no meu caso. Soube que era ele no momento em que entrou no ônibus, distraído, e se sentou ao meu lado, pedindo licença com o mais belo sorriso. 

Paixões de ônibus são, provavelmente, o tipo mais imprevisível. Pode ser aquele cara barbudo se apoiando nas barras do corredor, que te olha de relance vez ou outra para ver se você está olhando de volta. Talvez seja o garoto bonito conversando calorosamente com uma mulher na sua frente, enquanto você finge que não está ouvindo a conversa toda e desejando também fazer algum comentário, só para atrair a sua atenção. Ou até mesmo alguém desatento que esbarra em você eventualmente e mal se vira para pedir desculpas, mas que te deixa com a certeza de que o encontro de seus ombros foi obra do destino, afinal, nada é por acaso e o perfume dele era muito bom. 

Ele era apenas aquele cara que olhava pela janela em pensamentos indecifráveis enquanto eu o observava pelo canto do olho, até mesmo sem querer, desejando ser observada de volta. Em algum momento, interrompendo meus devaneios, lembro-me de ele retirando um livro da bolsa, o qual não pude ver a capa, e mergulhando numa leitura concentrada. Era a minha desculpa para não pigarrear e puxar um assunto qualquer, como alguém de mais atitude certamente faria. Às vezes eu o notava distante, com o olhar perdido no vazio. Nessas horas, perguntava-me o que se passava em sua cabeça, torcendo para que fosse o mesmo que se passava na minha. Mas era pouco provável, afinal, nessas histórias de romance nunca é tão fácil assim. O mocinho e a mocinha precisam de muitas reviravoltas até trocarem aquele olhar significativo e terem certeza de que são feitos um para o outro. Eu já estava certa, só faltava o meu par. 

Porém, todo o seu magnetismo foi como um sonho passageiro. Eu, que costumo ficar entediada no longo trajeto de ônibus até minha casa, não pude deixar de amaldiçoar a pressa do relógio, nem do motorista. Meu coração se despedaçou em mil pedaços no instante em que ele se levantou e se dirigiu para a saída. Eu quis olhar para trás, segurar seu braço, perguntar seu nome ou qualquer coisa do gênero. Quis que ele mudasse de ideia, descesse no mesmo ponto que eu e que nós seguíssemos pelo mesmo caminho, juntos, de mãos dadas, e nunca mais nos separássemos. Mas nada disso aconteceu, é claro. Ele simplesmente se foi, levando consigo todas as minhas esperanças.

Não sabia se o encontraria outra vez, mas estava certa de que guardaria aquele amor comigo, bem protegido, dentro do meu coração por toda a eternidade. Ou, pelo menos, até a próxima parada. Até que eu me perdesse em pensamentos e rosto dele escapulisse da minha memória para sempre. Até a próxima vez que eu desse um bom-dia desatento para o cobrador, passasse por aquela roleta enferrujada e me deparasse com outro sorrisinho bonito. Até o próximo amor em um ônibus qualquer. 

Postado por: Ana Letícia 

Posts relacionados

0 comentários