Resenha: Matrix

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Ok, é um filme relativamente antigo, mas apenas recentemente eu achei na Netflix. Todo mundo falava sobre Matrix, e tudo que eu sabia até então era o resumo: Neo (Keanu Reeves) leva uma vida dupla, uma na qual ele é um pacato programador com um emprego formal numa empresa, e outra na clandestinidade, atuando como um hacker. Ele vivia em busca de um conhecido "terrorista" chamado Morpheus, e essa busca é chamada por esse homem, mais tarde, quando eles se encontram, de uma busca essencial para a pergunta que estava no íntimo de Neo desde sempre: O que é a Matrix? 

A Matrix é uma máquina a qual todos os humanos estão conectados para gerar bioenergia, enquanto, em sua mente, vivem uma realidade ilusória. Tudo que Neo conhecia, todos os cheiros, todos os gostos, todas as sensações, não passavam de códigos enviados ao seu cérebro para que ele sentisse aquilo. Na verdade, nada era mais que um sonho programado. Mas Neo só é capaz de descobrir tudo isso depois de fazer a escolha: tomar a pílula vermelha, e conhecer a dolorosa realidade, ou a pílula azul, esquecendo-se de tudo e voltando a mergulhar no seu confortável mundo de ilusões. 

Isso acontece porque, em um futuro apocalíptico, teríamos criado máquinas tão fortes e tão inteligentes que elas se voltariam contra nós e deixariam de querer ser escravas, passando a nos dominar. Haveria guerra, e toda a humanidade seria fadada a servir as máquinas para sempre, enquanto a Terra seria um lugar destruído. Mas ainda haveria uma cidade humana, perto do centro do planeta, resistindo ao poder da tecnologia que se voltou contra nós. 

O primeiro filme é, sem dúvidas, o que mais desperta reflexão, apesar dos outros serem fundamentais para entender algumas lacunas da história. Os outros dois filmes têm extensas cenas de ação, o que pode ser muito positivo para uma produção como essa, mas, para mim, que não sou fã desse tipo de cena, torna o filme cansativo de alguma forma. Mesmo assim, os combates são interessantes de assistir (por um tempo) porque utilizam alguns recursos diferentes dos outros filmes. Mas, é claro, essa é uma opinião extremamente pessoal. 


Há muitas referências religiosas, filosóficas e mitológicas na história. O próprio Morpheus tem o nome do deus dos sonhos, na mitologia grega, assim como o nome das naves também estão ligados a ela, e existe até um Oráculo. Platão se faz presente de certa forma através do mito da caverna. Há referências sobre o cristianismo, quando Neo é associado diversas vezes a um messias, como Jesus Cristo, Trinity significa trindade em inglês e Morpheus exerce uma figura paternal para muitas pessoas. Também observa-se valores budistas e gnosticistas, de formas menos explícitas. 

Mas o que me chamou atenção mesmo em toda a discussão acerca do filme, foi o questionamento sobre se a vida tem realmente um sentido. Na Matrix, as pessoas acreditavam em suas crenças e seus ideais, sem saber que viviam apenas uma ilusão. O pessoal que estava fora da máquina resgatava quem estava dentro, mas eles assumem em algum momento da história que nem todo mundo estava preparado para saber a verdade. Apesar disso, Neo tem um propósito, e aparentemente Trinity também. Ele era O Escolhido, afinal. Mesmo que muitas situações tenham surgido devido a suas escolhas, o seu poder era inegável. 

O que leva a outro questionamento, sobre o destino. O Oráculo aparece como uma figura conhecedora de tudo no início, mas, com o passar do tempo, ela insiste que suas previsões estão muito mais relacionadas a escolhas já feitas e a acreditar num ideal. É um pouco contraditório, para mim, porque suas profecias sempre se realizam. Neo era de fato O Escolhido. Mas, ainda sim, eu preciso concordar: o destino não se baseia em decisões e caminhos que serão tomados no futuro, mas em escolhas já feitas e um caminho que já está sendo trilhado devido a elas. E Neo fez todas as escolhas que o levaram ao seu destino. 

Porém, voltando a pergunta: e nós, temos um propósito? É uma pergunta cheia de respostas, mas sem verdades absolutas, o que, para mim, é algo muito positivo. Pode-se dizer que o sentido na vida não está nessa vida, mas na próxima, em algo maior, ligado à religião. Sinceramente, eu acho esse posicionamento muito limitador. Nós limitamos nossos atos e nossa reflexão sobre certos assuntos porque acreditamos que a felicidade plena se encontra após a morte, deixando de atingi-la aqui mesmo, no agora, que é o único momento certo que nós temos. Mesmo assim, eu entendo que muita gente acredite e defenda essa ideia, porque, afinal, ela as conforta do maior medo da humanidade: a morte.

Outros dizem que a vida tão tem um sentido predeterminado para todas as pessoas, nós precisamos encontrá-lo sozinho. Cada um tem um dever especial na Terra, e isso será o que lhe trará felicidade. E ainda tem a ideia mais pessimista de todas: a de  que não há propósito nenhum em estarmos aqui, a não ser para continuar a nossa espécie; os mais novos nascendo, procriando e os mais velhos sendo deixados para trás, enquanto a Natureza se alimenta de nós para poder continuar viva. Nós nascemos e vamos morrer, assim como todos os outros animais. Não há nada de especial em nós, além de acidentalmente sermos seres racionais, como afirma o texto (está linkado, leiam, é muito bom).

O que eu acho? Que cada um encontra sua paz aonde quer. Alguns preferem o conforto da religião para responder a grande questão da morte, e talvez estejam certos. Outros correm em busca de seus próprios propósitos e o que lhes farão engrandecer. Enquanto certas pessoas apenas tentam vencer o próprio ego, aceitar a sua insignificância na grandiosidade no universo, e serem felizes enquanto podem viver essa ilusão. O que importa, no fundo, é simplesmente viver, seja qual for o significado. Porque o passado é imutável e sobre o nosso destino não sabemos nada, mas o presente é cheio de possibilidades, basta saber aproveitá-las. 

Postado por: Ana Letícia 

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