O manual de instruções da vida

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Dizem por aí que a vida não vem com manual de instruções e que a gente, eventualmente, tem que aprender a se virar sozinho. De fato, ninguém vai te ensinar como lidar com suas decepções, ou como sobreviver com sucesso ao primeiro dia num colégio ou emprego novo, por exemplo. Mas, de certa forma, essa frase tem um fundo de mentira. Isso porque as pessoas, provavelmente cansadas de todas as possibilidades que a nossa simples existência nos oferece, insistem em criar regras e roteiros para as mais diversas situações cotidianas. E no final, mesmo sem perceber, estamos todos fazendo as escolhas que são condicionadas para nós. 

Há uma maneira "certa" de se divertir, um tipo "certo" de cultura para usufruir, até um jeito "certo" de conquistar alguém que você gosta. Inúmeras revistas, dessas com moças sorridentes e rapazes bonitos na capa, já lucraram ensinando tutoriais de comportamento. E eu me pergunto por que isso parece tão mais atraente que a liberdade. É pela facilidade que essas regras trazem? Tem certeza que elas facilitam? 

Esses dias, eu estava refletindo sobre uma tendência muito forte agora das pessoas fazerem de tudo para não serem trouxas. É preciso ser inatingível, não demonstrar sentimentos e tomar cuidado para não se deixar envolver por ninguém, pois assim se evita decepções. Ao mesmo tempo, agindo assim, você pode ainda sair por cima da situação. Ego intacto e coração inabalável. Que maravilha, não é mesmo? Negativo. Parece que é muito mais importante proteger a própria imagem perante os outros do que se permitir mergulhar de cabeça na imensidão de alguém. Você pode se afogar lá, mas isso faz parte da vida. O medo de sofrer é provavelmente o pior tipo de medo. E logo atrás, está o medo de abrir as portas do coração para alguém. 

Tem gente que associa sentimento à fraqueza. Amar é para os fracos emotivos que não conseguem manter o foco. Quem demonstra esse amor só pode ser louco. Chorar? Só se for escondido entre quatro paredes, no escuro, debaixo dos lençóis. O mundo lá fora nos exige o tempo inteiro que estejamos felizes e sorridentes, porque somos fortes e bem sucedidos, nesse mundo de luzes e solidão. E se alguém te vir chorar, especialmente se forem lágrimas de angústia, você saberá que sua imagem está destruída. Porque você ama a sua imagem. Porque você prefere engolir seus "eu te amo" e suas dores, do que transbordar e se sentir mais leve por dentro. Porque você é covarde. É isso aí. E terrivelmente narcisista. 

Não dá para negar que todas essas regras nascem de um certo narcisismo, porque a gente faz de tudo para sair bem na fita. Não chora, para não parecer fraco. Não ama, para não ser trouxa. Não sai de casa com aquela blusa que foi comprada anos atrás e nunca foi usada, só para não parecer ridículo. Rejeitamos determinadas coisas porque tememos o que os outros pensarão de nós. Sendo que, no fundo, estamos tão imersos em nossas próprias bolhas de preocupação, que nem ligamos verdadeiramente uns para os outros. No bom e no mal sentido. 

Um belo exemplo disso é o Facebook. Aquele exemplo que todo mundo usa, eu sei, mas definitivamente é o melhor. Afinal, é por lá que circulam as fotos e notícias de todos os nossos conhecidos, que evidenciam propositalmente partes boas de suas vidas para nos fazer pensar que eles estão levando a melhor. Todas as postagens são felizes, porque estar feliz é praticamente uma obrigação constante. E você acaba se comparando com aquelas pessoas, perguntando-se o que está faltando na sua vida e pensando em novas formas de se exibir por lá também.

Certo, ninguém age desse jeito pretensioso o tempo todo. Ninguém vai ficar compartilhando os problemas abertamente numa rede social e, às vezes, a gente só quer postar aquela foto da qual gostamos muito ou um pensamento legal que veio a mente. Porém, dá para perceber como a maioria se importa com a atenção que está recebendo. Conta likes, comentários, e ainda vai reclamar com os amigos que não reagiram a sua publicação. Como se servissem de medidor para definir o quão bem você está para, é claro, mostrar isso aos outros.

Nem vou entrar nas questões de padrões de beleza, esteriótipos e outras regras de comportamento. Dá para escrever um livro inteiro sobre esse assunto (talvez já tenham até escrito, sem que eu tenha notícia). É impressionante ver a quantidade de regras que regem a nossa vida, ou o quanto as pessoas propagam isso, principalmente na internet. Até quando querem desconstruir um padrão, exageram e acabam definindo outro, dando continuidade ao ciclo.

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Devo admitir que, de algum modo, nós precisamos disso. Para viver em sociedade, precisamos definir e obedecer algumas regras. No entanto, eu acredito que nós exageramos muito nas cobranças que fazemos uns aos outros. Exigimos certos padrões que, se formos analisar bem, não servem para nada além de limitar a existência humana. Limitar nosso sentimentos. Sabe qual o resultado disso tudo? Frustrações. Aquelas mesma que tentamos evitar com tanto afinco.

Precisamos aprender a questionar as regras as quais estamos submetidos. Não digo que devemos sair por aí fazendo exatamente tudo que quisermos, apenas estou sugerindo que a gente procure entender por que age de tal maneira. Ou por que certas pessoas dizem que determinadas escolhas são boas ou ruins. Entender se elas são de fato boas ou ruins para nós, individualmente. E abrir mão do nosso ego, para perder o medo e a vergonha de ser feliz. 

Eu não tenho vergonha de ser trouxa. É claro que não me sujeito a qualquer tipo de situação, porque amor próprio é sim importante, a certos níveis, pois precisamos de um pouquinho de auto-defesa para sobreviver. Mas é só uma dose. Não tenho medo de correr atrás, de demonstrar que gosto, de parecer uma boba. Não sinto orgulho nem vontade alguma de fazer alguém sofrer, isso jamais faria me sentir melhor. Não preciso que os outros se frustrem para que eu sorria. Eu quero mesmo que nós possamos sorrir juntos, mesmo que nem tudo acabe bem. 

Eu não me sinto culpada em dizer que choro. De rir, de tristeza, de ódio, do que for. Eu choro porque eu tenho sentimentos, e eles são tão maiores que eu, que eu preciso transbordá-los. Às vezes, é uma decepção, outras, só me sinto emocionada com a cena tocante do filme que estou assistindo. E depois que as lágrimas secam, eu me sinto bem melhor. Como diz aquele clichê, eu me sinto de alma lavada. 

Também não tenho receio de parecer ridícula ou de ver o ridículo em mim. Se alguém se dá o trabalho de fazer piadas e apontar os meus erros, pode ter certeza que eu já dei muito mais gargalhadas deles. Sem receio algum de rir da minha própria desgraça. Porque minha vida não é uma constante de perfeição e atos precisos, faz parte tropeçar ou simplesmente fugir do normal de vez em quando. 

Por isso, finalmente, eu não vivo de acordo com tutoriais. Se eu quiser responder alguém assim que essa pessoa envia a mensagem, eu respondo. Se eu quiser sair na rua de short e chinela porque não estou afim de me arrumar, eu saio. Se eu quiser abraçar quem eu gosto e dizer o quanto essa pessoa é importante para mim, eu faço. Porque eu estou cansada de inventar desculpas para me afastar dos outros. Nem abrirei mão da minha liberdade para satisfazer a ninguém, jamais. Pois assim eu faço minhas escolhas, e eu, com certeza, escolho ser feliz.

Postado por: Ana Letícia 

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