Crônica: Onde estão as suas asas?

22:09


Eu havia desistido há muito tempo de manter o óculos no lugar certo. Além da luta contra a minha armação deslizante, tinha desistido também das pessoas. Era muito trabalho, e nunca parecia valer a pena. Ninguém mais se mostrava interessante, todos pareciam ter um dom para a previsibilidade. Todos me deixavam com preguiça, e cada vez mais eu sentia que me afastava. Não sabia se estava esperando que aparecesse alguém que me causasse indescritível curiosidade, ou se havia, de fato, desistido de achar uma pessoa assim. Lembrava muito bem da última vez que alguém assim tinha aparecido. Ela tinha luzes, cores e asas lindas...

Como o bom conformado que era, não passava meus dias a espera de que algo ou alguém aparecesse e colorisse o mundo. Apenas... passava os dias. Coletava músicas boas, livros mágicos e esperanças (quase?) tolas. Sobrevivia. Esse, então, era só mais um dia que ia começar e acabar sem que nada memorável acontecesse. Ou era isso que eu pensava, até vê-la.

Ainda soa impossível para você que um acontecimento de menos de um minuto mude tudo por um bom tempo? E eu achando que um raio nunca caía duas vezes no mesmo lugar... Mas cai, e meu coração, outra vez, bateu mais forte por alguns instantes. Rever aquela criatura inacreditável foi como levar um tapa da realidade me dizendo que era idiotice perder o interesse pelas pessoas.

A sensação, entretanto, durou apenas tempo suficiente para que eu percebesse a mudança. Ela estava diferente. Agora estava espremida em um jeans escuro que não me parecia nem minimamente confortável e deixava seus pequenos pés a mostra, comprimidos dentro de uma sapatilha colorida que não combinava muito com a menina da minha imaginação. A camiseta amarela amassada parecia ser um reflexo do cansaço que dominava seu corpo. Os ombros estavam baixos, eu não sabia dizer se a causa era o peso da mochila ou os pensamentos que ocupavam sua cabeça e faziam-na franzir a testa.

Seu cabelo não mais aparentava mil facetas, mas também não aparentava qualquer coisa, já que estava decididamente preso. Por outro lado, deixava a mostra seu rosto. Andava de cabeça baixa - talvez pelo peso das olheiras que carregava. Seu rosto, sua postura e seu andar mostravam tanto cansaço que apenas por observá-la senti-me fadigado. Parecia que a qualquer momento ela iria sentar na calçada e tirar um cochilo.

Minha vontade era de cruzar a rua e abraçá-la. Tirar a mochila de suas costas, pegá-la nos braços e descobrir o que aconteceu. Como foi, logo você, se tornar uma pessoa cinza, pequena? Queria colocá-la no colo e oferecer toda a proteção do mundo. Não que ela parecesse precisar. Na verdade, imagino que acabaria recebendo um soco se atravessasse a rua e desse um abraço nela. Não era algo normal - assim como essa sensação que ela me causada também não era.

Queria perguntar aonde foram parar os sonhos que ela emanava pelo olhar. Seu caminhar, outrora, me parecia dança, e agora me parece se arrastar pela rua. Mordia os lábios como quem carregava um grande segredo, e agora, sua boca parecia incrementar uma melancolia que lhe assombrava o coração. O que é que lhe assombra o coração afinal, menina? 

Seus olhos estavam inquietos. Percorriam as ruas, como se esperassem que algo acontecesse. Quando é que essa insegurança tomou conta do seu pequeno corpo? Até seu respirar parecia amedrontado. Parecia-me exausta, em todos os sentidos da exaustão. 

A distância entre nós aumentava e, mais uma vez, eu a perderia de vez indefinidamente. Não sei dizer quantas vezes imaginei reencontrar essa menina. Em meio a minha desistência das pessoas, sempre tive a sensação de que ela traria meus pés de volta ao chão, que faria meu coração retomar a esperança em criar interesse pelas pessoas. Agora nem tinha palavras para o que estava sentindo. Não era decepção. Não era coração partido. Era um grande ponto de interrogação que pairava em minha mente, meu coração, minhas mãos, e minhas pernas - que ainda se recuperavam da tremedeira de vê-la. 

Criava, durante aqueles poucos segundos, três trilhões de hipóteses que tentavam dar sentido àquela situação. Me perdia, e a perdia junto. E então, por coincidência ou brincadeira do destino, meus olhos captaram as cores das únicas criaturas capazes de tirar minha atenção da pequena menina-mistério: borboletas. Eram duas, dessa vez, alaranjadas, pequeninas, de asas redondas. Voavam juntas, pareciam brincar. Percorriam a quadra, e injustamente ninguém além de mim parecia notá-las. Menos, é claro...

Como eu disse, coincidência ou brincadeira do destino, o caminho das borboletas, como da primeira vez, ficava entre mim e ela. Seu olhar se desprendeu do chão pela primeira vez, e de repente ela se encheu de cores, de luzes, suas asas pareciam ter voltado. Impressionante, não é? O sorriso da pessoa certa te faz enxergar asas! Meu coração se aquietou, e o dela pareceu se alegrar. Ela não só sorria para as borboletas, parecia sorrir para si mesma. 

Deixei meu olhar seguir as pequenas asas laranjas, pela primeira vez desde que botei os olhos nela, sabia que ela ia ficar bem. As suas asas, afinal, não tinham desaparecido, sido amarradas, ou cortadas. Talvez estivessem apenas descansando. Talvez ela estivesse apenas descansando. 

As borboletas dobraram a esquina, e eu carregava em meu próprio rosto um sorriso leve. Elas seguiram seu caminho, e pela última vez direcionei meu olhar para a menina que, para minha surpresa, me olhava com semelhante interesse. Pela primeira vez, deixei de me sentir comum, e me senti com minhas próprias asas. Talvez ela tivesse percebido. Ou talvez apenas tivesse reparado no panaca que estava congelado na rua, revezando entre babar pelas borboletas ou por ela. Não importava. Ela me deu um último sorriso, assim, só com o cantinho da boca, e seguiu seu caminho também. Eu segui o meu, com a leveza no coração de quem tinha a certeza de que a menina-borboleta ainda sabia voar.

Postado por: Bárbara Andrade

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