Momentos

20:43


Costumava colecionar momentos em palavras, filmagens, textos, lembranças. Mas, acima de tudo, costumava colecionar fotos. Cada foto era uma risada, uma lágrima, uma situação, um sentimento, uma sensação. Todas as amizades desperdiçadas, todos os amores perdidos, todos os momentos despedaçados e corações partidos. A distância das pessoas amadas já não a interessava mais. Cada registro era um tempo passado, uma idade, uma maturidade. Colecionava amores, cores e sabores. Chorava, ria e se emocionava. Acima de tudo: Sentia saudades.

A maioria das fotos ninguém nunca tinha visto, as tirava só pra ela mesma. Recusava-se a mostrar pra qualquer outra pessoa, era sagrado, um momento só dela. As espalhava pelo chão, fazia mosaicos, brincava de contar histórias. Lembrava de momentos que nunca vão voltar. O sabor salgado das lágrimas num aeroporto qualquer, a dor da despedida e o alívio do reencontro. Tirava fotos surpresa dos amigos, sem eles perceberem e ria das caras e bocas que arranjava com isso. Olhava as fotos com certo grupo de colegas e via como despreocupados eram. Como o tempo a tinha feito bem de certa maneira.

Havia certa serenidade em seu olhar que há muito tempo tinha desaparecido, deixando seriedade no lugar. Um olhar que brilhava acima das luzes artificiais de qualquer lugar. Lembrava até mesmo de momentos tristes com certo carinho, os tratava como aprendizado. Ela tinha amadurecido algumas idéias e muitas amizades. Tinha esquecido certas dores, deixado elas para trás. Sorria lembrando-se de algumas piadas internas e vergonhas passadas com seus amigos, algumas memórias pediam risadas que não podiam ser contidas.

Em suas memórias não haviam lágrimas, corações partidos, tristezas ou sofrimento. Só existiam momentos, esses que passaram e deixaram cicatrizes que há muito deixaram de doer, apenas ficando uma marca em seu coração. Um coração que agora estava leve como um balão. Seus medos ainda a assustavam, mas ela já sabia como lidar e seguir em frente depois de uma tempestade. As tempestades, essas sim a assustavam, chegavam sem aviso prévio. Por vezes fracas, apenas uma garoa. Contudo algumas chegavam com toda sua força derrubando tudo que havia pela frente, não havia muito que fazer apenas tentar reconstruir tudo aos pouquinhos com o pouco da energia que lhe havia restado.

Construía da melhor maneira que podia, sem culpa, sem remorso. Algumas tristezas e pesares. Mas quando a tempestade passava, e ficavam apenas seus restos, ela estava aliviada demais pra ligar, aliviada demais pra poder reclamar ou olhar pra trás, só colocava seus tijolinhos, um em cima do outro, sem pressa, avaliando cada metro quadrado. As vezes ela parava, admirava sua destruição em redenção, cansada demais pra continuar. Mas sempre voltava, achava energia em algum lugar no meio do caminho.

Ela buscava suas energias nesses momentos, eles a deixavam com mais vontade de viver e sobreviver após uma tempestade. Ver suas fotos deixavam-na feliz, pacífica, serena. Ela escondia sua dor atrás de uma câmera, um papel, uma caneta e uma coleção de lápis de cor. Controlava todo seu pavor de si mesma com desenhos de como gostaria de ser, relacionava isso a quem ela era hoje. Todo dia ela se aproxima de seus objetivos, apesar de nunca estar bom o suficiente. Ela convivia com isso, aprendia a lidar aos poucos.

Suas fotos agora estavam espalhadas, sua risada se espalhava pelo seu quarto. Ela estava feliz, em paz consigo mesma. Reconstruiu tudo que podia até ali. Os momentos a provocavam algo bom e tranquilo, algo que só o tempo a pode conceder. Os amigos que permaneceram podem até não ser pra sempre, mas são o suficiente por agora. Há serenidade no quarto, talvez haja serenidade até mesmo em sua vida. O que importa é: dentro dela existe a mais absoluta serenidade.

Postado por: Tuane Peres

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