Como me tornei uma leitora compulsiva

12:45


Há algumas semanas sentei com minha mãe para assistir a gravação uma palestra sobre estudos e coisas relacionadas - programa familiar de vestibulando. Em dado momento, o professor palestrante falou sobre como existe um grande problema relacionado a falta de leitura, sobre o primeiro livro que leu por querer ler, que o fez se apaixonar pela leitura, e sobre o fato de a maneira como as escolas incentivam a leitura, muitas vezes, tem efeito contrário e faz o aluno ver a leitura como algo repulsivo, cansativo, chato. 

No mesmo dia, um pouco mais tarde, minha mãe me perguntou qual tinha sido meu primeiro livro, e eu comecei a pensar sobre meu processo de apreciação da leitura, e tive a certeza de que não podia deixar de compartilhar com o CDG os pensamentos que me inundaram. 

Quando eu tinha por volta de uns 7 ou 8 anos, fui a uma livraria com meu pai, e acabei me interessando por um pequeno livrinho da coleção Go Girl!, chamado Saudades do Basquete, evidentemente infantil, ainda com gravuras, mas relativamente grandinho para quem não se interessava por muito mais do que as a tirinha final, de três quadrinhos, das revistinhas da Turma da Mônica. Esse foi o meu primeiro. Não foi o primeiro livro que li na vida, não. Na escola tive muitos estímulos em relação a isso, mas esse foi o livro decisivo, o que me fez bater o pé e dizer: eu vou ser uma leitora.

Lembro de que meu pai perguntou várias vezes se eu realmente queria, se eu iria mesmo ler etc. Na época me pareceu que ele não estava botando fé de que eu poderia ler aquele enorme livro de 72 páginas com figuras e letras grandes.  Hoje, acredito que a maneira como ele me desafiou dizendo "acho que você não vai ler..." foi um modo de me instigar ainda mais a ler. 

Ele me propôs então um acordo: ele compraria, e se num prazo de 30 dias eu tivesse terminado o livro, ele me daria outro da mesma coleção. Se eu não lesse até lá, nada de livros de presente. Topei, compramos o livro e ele me levou para casa. Um dia e meio se passou, e eu liguei dizendo que tinha terminado, se ele podia comprar outro logo e levar para mim. Claro que ele ficou surpreso, pediu até para eu contar a história pra ver se eu tinha lido mesmo. E eu tinha. As histórias da coleção são curtas, gostosinhas de ler, e muito identificáveis se você tem a idade que eu tinha (a mesma das personagens). Me apaixonei. Até hoje carrego de cidade em cidade todos os livros que comprei da GG, com muito carinho e gratidão.

De lá para cá, não parei de ler e fui apenas aumentando as aquisições, aumentando junto meu desejo de ler e a velocidade em que lia. Me perdia em cada página de cada livro, me transformava em cada personagem, me encantava com cada história, me sensibilizava com cada situação. Hoje, tendo um pouquinho mais de conhecimento e idade, sei o quanto devo à minha leitura: minhas habilidades com a escrita, minha bagagem vocabular, minha paixão pelos detalhes, a forma como consigo lidar com o abstrato (ah, como tem sido útil nas aulas de química orgânica!) e, principalmente, minha gigantesca capacidade empática. Tenho total consciência e gratidão quanto a isso. 

Hoje, na metade do meu ano de vestibulanda (que tem tomado meu tempo e me impedido de aparecer por aqui, me perdoemmm), tenho, naturalmente, uma lista de livros específicos que serão, de alguma maneira, cobrados quanto a análise na minha prova de vestibular. Claro, Crônicas de Fogo e Gelo, Harry Potter e Jogos vorazes não são exemplares da lista. Por outro lado, Fogo Morto, Lavoura Arcaica e A Última Quimera, com toda sua complexidade léxica, estão marcando presença com tudo. 

Comecei com os livros mais leves da lista, de leitura mais rápida ou que mais me agradassem (como Claro Enigma, de Drummond). Conversar com algumas pessoas sobre os títulos da lista me fez criar um pouco de receio sobre alguns, em especial os citados no parágrafo anterior. Até o dia em que eu fui à biblioteca e apenas eles estavam disponíveis. Fiz um uni-duni-tê, e acabei indo para casa com Lavoura Arcaica; então peguei o ônibus carregando nos braços um livro de leitura pesada, que me gerou muitas reflexões pessoais sobre meu relacionamento com a literatura, ainda sem ideia do que me esperava. Ouvi muitos relatos de colegas de sala sobre como era um livro chato, difícil de ler, com uma história esquisita. Abri ele com um baita pé atrás, e lendo o primeiro capítulo duas vezes sem entender nada, quis desistir.

Mas ora, que história é essa de desistir de um livro por ser difícil demais? Quão distante isso é de desistir de um sonho, ou de um amigo, por estar complicado demais? Vamos em frente, vai dar tudo certo, cabeça erguida, livro debaixo do braço como companheiro fiel, e quantas renovações do empréstimo forem necessárias. 

Procurei alguns resumos, para entender o que estava enfrentando. Tropeçando muito, passei pelos capítulos mais complicados e me adaptei à linguagem e ao estilo do autor. Achei um filme do livro. Abracei André, gritei com Pedro e sofri com a atitude do pai ao descobrir sobre Ana. Ah, a Ana... Me apaixonei pelo livro quando consegui dar aos personagens um rosto, e às palavras, um sentido. Já sei o final da história, de fato, mas insisto ler até a última palavra mesmo assim. 

Escutei de muitas colegas de sala que desistiram de ler os livros maiores e que exigem mais atenção e paciência. Uma disse ainda que, até o começo desse ano, nunca tinha lido um livro inteiro. Não gostava e não tinha ideia de como ia enfrentar os 10 exemplares exigidos pela UFPR. Eu, que desde cedo me encantei com palavras, muitas vezes tenho dificuldade de entender como algo tão natural para mim pode ser tão complicado para alguém. O que nos leva...

Na palestra que assisti com minha mãe, o professor Pier fala sobre como é difícil para muitas crianças/adolescentes, que não foram estimulados fora da escola, apreciarem e adquirirem o hábito de ler. Dá ainda como exemplo o próprio filho, que um dia foi conversar com ele com a demanda "eu odeio ler, e acho que não deveria". Então ele joga o seguinte pensamento: a escola pega um adolescente que nunca leu um livro inteiro na vida, e dá para ele títulos como Dom Casmurro. De maneira geral, esse aluno não vai gostar do livro, e muito provavelmente terá grande aversão à ideia de leitura. Como um trauma. 

Pensei muito sobre isso, e agradeci ainda mais a Thalia Kalkipsakis por "saudades do basquete". Acho que devo aproveitar esse espaço para agradecer minha família de maneira geral e aos nossos amigos próximos também. Desde a primeira comoção com Go Girl! ganhei (e ganho) muitos livros de presente. No natal, recebia pelo menos 2 livros novos e um cartão-presente de alguma livraria. Até hoje sou presenteada, de maneira geral, com livros, seja vindo de amigos, irmãos, primos ou pais. 

Minha intimidade com os livros é também responsável por muitas peculiaridades da minha personalidade - transformo quase tudo em metáfora ou símbolo disso ou daquilo. Inclusive com os próprios livros. Uma das piores perguntas que alguém pode me fazer é "que livro você gostaria de ganhar?" ou "quero te comprar um presente, pensei num livro, tem algum que você quer?". Porque a minha estante tem uma grande parte do meu coração, e cada nova história colocada lá é como um novo amor. Cada livro que ganhei de presente é para mim um representante de quem me presenteou, que ficará bem guardado com muito carinho, junto aos demais. Penso que escolher um livro para dar de presente é um dos maiores gestos de carinho que alguém pode ter por mim, por isso é sempre muito mais gostoso quando é inesperado, leio cada página pensando em como aquela pessoa escolheu aquele livro pensando em mim. (Fica a dica, shaushauhsuah)

Graças à leitura, escrevo, penso e sinto como faço. Graças à leitura, misturada a outros fatores, sou. Hoje estou aqui, há 3 anos na equipe CDG, graças à leitura (não só por ter incentivado minha escrita, mas porque muito dos meus primeiros laços com Ana e Tuane se deram pelos nossos livros em comum). Graças à leitura, hoje me sinto incompleta quando fico por muito tempo sem ler um bom livro ou escrever um grande texto. Obrigada a cada livro que já me crescer. Os que vieram emprestados, os que foram presente, os que foram comprados com dinheirinho economizado só pra isso, os que vieram e já foram repassados, obrigada. 

Para finalizar, uma proposta em forma de questionamento: quem você já incentivou a conhecer o universo delicioso da literatura?

Postador por: Bárbara Andrade

Posts relacionados

0 comentários