Crônica: O espelho

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Há dois anos eu tinha 10 anos. Estranhamente, no caminho, esses dois anos se tornaram sete. Passaram por entre meus dedos como areia. Eu achava que crescer era simples, esperar o tempo passar por mim, acordar, vivê-lo. Achava que a maturidade vinha num pacote e nos davam, sem dor, nem sofrimento. Descobri com o tempo que acordar e viver mais um dia era uma das atividades mais complicadas que eu poderia exercer. A maturidade vem aos poucos, dolorosamente, através de contusões e erros.

Com 10 eu olhava o mundo com admiração. Costumava achar um lado bom em tudo, pensar positivo. Eu sonhava em crescer e me tornar independente de todos. Descobri que o mundo é um lugar sombrio, onde almas boas não têm vez. Quanto mais o tempo passa, mais me sinto dependente de outras pessoas, de todos a minha volta. Eu vivo e respiro seus sentimentos, ações e opiniões. Eu sonhava em fazer algo. Queria deixar minha marca na Terra. Fazer algo útil, algo bom. Imaginava que poderia andar com minhas próprias pernas conforme minha vontade. O tempo passou, o mar levará todas as marcas que eu possivelmente deixei como lavou do chão as pegadas que um dia deixei na praia. 

Aos 13 eu criei expectativas de viver um grande amor. Sonhava em ter alguém pra dividir gostos, sentimentos e momentos. Alguém que "cuidasse" de mim. Assisti muitos desenhos que me ensinaram que todos têm alguém, se não tiver, será destinado a tristeza. Com o passar do tempo, meu coração foi partido inúmeras vezes. O tempo passou, as desilusões continuam. Meu coração cheio de cicatrizes talvez nunca se cure. É um risco. Hoje me pergunto se a solidão é mesmo algo tão ruim assim. Há tantas complexidades no ser humano que parece que viver cercada de gatos pode ser muito mais simples. 

Beirando os 11, eu  fiz um pacto com minhas amigas que estaríamos uma no casamento da outra, Uma do lado da outra, felizes. Teríamos nossos filhos juntas, os criaríamos juntas. Manteríamos contato. No ano passado talvez as tenha visto duas vezes, em um ônibus qualquer, acenamos umas pras outras, sorrimos simpaticamente. Só. Nossas ideias se divergiram, nossos pensamentos se chocaram. Eu não brinco mais de bonecas, nem elas. Talvez eu nem chegue a ir no casamento de uma delas. Provavelmente nossos filhos, se os tiverem, nem irão se conhecer. 

Aos 14 tinha certeza que faria meu próprio caminho, andaria com minhas pernas e construiria meus passos. Eu achava que conseguiria tomar as rédeas da minha vida. Eu achava que seria fácil continuar andando de cabeça erguida. Hoje eu sou empurrada pela multidão, pelo mar de pessoas e pela correnteza que é meu destino. Fui levada a força para lugares que jurei não mais pisar. Fiz coisas que não me orgulho. Me desculpe mãe, foi mais forte que eu.

Hoje eu olho para vida com outros olhos, eu não espero mais tanto dela. Eu não imagino mais tanto como será. Amanhã eu só quero sorrir. Dia após dia eu quero que o dia seguinte seja melhor, ou menos pior. Eu não espero mais meu príncipe encantado, eu tento me concentrar em ser o meu próprio príncipe. Eu terei arrependimentos, certamente, mas eu espero que eles me ensinem algo. Daqui a um ano meus amigos, provavelmente, não serão os mesmos, mas eu só quero não estar sozinha. Daqui a três anos eu espero apenas não ser esquecida por aqueles que amo. Eu espero não olhar para trás e ver que minha vida passou por mim sem eu ter notado. E do futuro? Dele eu só espero a felicidade.

Postado por: Tuane Peres

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