Crônica: A casa

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O silêncio esconde o caos que há por dentro. A urgência se transforma em angústia e o medo paralisa. As histórias alheias me encantam, porque as minhas próprias são lembranças que eu quero apagar ou nunca nem mesmo cheguei a viver. São centenas de "serás" que ocupam as prateleiras. A gaveta de recordações está abarrotada de memórias quebradas, dias felizes que se desfizeram em linhas tortas. Às vezes eu mesma rasgo as coitadas, incapazes de atender a todas as minhas exigências. E me jogo num canto sozinha como elas, sem poder atender as expectativas que construí dentro de mim ou de quebrar os muros ao meu redor. 

Às vezes eu queria fechar as cortinas e selar as janelas, privar-me de todo o sofrimento que imagino lá fora e encontrar algum sentido na minha própria companhia. Outras vezes eu abro até uma fresta da porta, tento pôr o pé para fora e arriscar sentir o calor do sol na minha pele. Nesses dias eu até me permito transbordar, algo se ilumina e eu sinto que, aos poucos, estou encontrando um caminho. Mas logo eu recuo e fecho a porta, bloqueio todas as entradas de luz e espero que alguém escute os meus gritos por socorro. Mas eles nunca são ouvidos. 

Os outros estão lá fora. Eles correm pelos campos e tiram sorrisos uns dos outros. Eles não fogem da chuva, eles dançam com o vento. Alguns procuram a sombra das árvores e outros carregam guarda-sóis. Mas são dos aventureiros de que tenho inveja. Aqueles que encaram o sol sem temor e não voltam para casa nem quando chega a tempestade. Eu não tenho a coragem deles. Eu não tenho fôlego para dar suas risadas demoradas. Eles estão muito distantes, muito além de mim. E não basta vontade para alcançá-los, porque às vezes a fechadura da porta é dura demais e as janelas são muito pesadas. 

Porém, eu ainda espero encontrar uma saída. Caminho pela casa procurando alguma passagem secreta, pois, ainda que eu deseje fortemente, sei que ninguém abrirá a porta para mim. A chave está comigo, perdida em algum lugar dentro da minha bagunça. Contento-me, portanto, em devanear e preencher-me com todas as histórias que eu poderia viver, mas nunca tive coragem. Conformo-me em saber que eu sou a única que poderia mudar o rumo desse destino, mas não posso. E sonho com o dia em que eu também serei livre, assim como pássaros no céu azul, bem acima de mim. 

Postado por: Ana Letícia 

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