A incrível história da escritora que não conseguia escrever

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Ela se acomodou em sua cadeira favorita, apontou cautelosamente o lápis e passou a mão pela folha de caderno em branco. Suas linhas a convidavam a arriscar entre as possibilidades, prontas para receber as marcas de tinta e aprisionar um universo completamente novo dentro do seu espaço. Se fosse capaz de dizer algo, aquela folha tagarelaria incansavelmente, cheia de expectativa. Assim como faria o lápis, pousado ao seu lado. Mas o semblante decepcionado da moça acusava que talvez nenhum romance mágico ou aventura impensável se inciasse naquele momento. Pois esta é a incrível história da escritora que não conseguia escrever.

Para que servem as teclas maciças de um piano se um pianista não pode tocar? Para que serve o entusiasmo das crianças se um professor não pode ensiná-las? O lápis e a folha de papel sentiam-se inúteis nas mãos daquela moça. Todas as tardes ela se sentava com eles e passava horas com o olhar perdido através da janela, como se as palavras simplesmente fossem surgir sozinhas. No começo, enchiam-se de esperança. Porém, com o passar do tempo, desiludiram-se de que algum dia cumpririam seu trabalho. 

Para ela, a frustração era ainda maior. Seus pensamentos fluíam de maneira caótica pela mente e todos os tipos de história surgiam bem diante de seus olhos. Às vezes, ela via um rapaz perseguir uma libélula pelas ruas da cidade até encontrar um espírito misterioso capaz de revelá-lo algum grande segredo. Outras vezes, ela imagina uma menina solitária na areia da praia enfeitiçada pelo movimento harmônico das ondas do mar. Mas quando não estava sonhando, podia enxergar a dura realidade: uma escritora irremediavelmente quebrada, incapaz de dar vida a todas as suas histórias colocando-as numa folha de papel. 

Era como se suas ideias não conseguissem se organizar em frases que fizessem sentido, ou como se sua mão não entendesse a mensagem do cérebro para trabalhar. Ela apenas segurava o lápis e observava o mundo lá fora, esperando que um dia pudesse criar o seu próprio. As pessoas lhe perguntavam por que ela, como escritora, nunca criava nenhum novo texto. Até duvidavam da sua capacidade. Chamavam-lhe de louca. Como pode um escritor que não pode escrever?

Naquele dia, ela podia sentir como nunca a decepção do lápis e do papel. Eles a fitavam com um misto de pena e angústia, porque os problemas dela os afetavam também. Eram tantas tardes gastas em vão em busca de uma inspiração que não chegaria. Ela soltou o lápis com um suspiro e se levantou, sem poder suportar tudo que estava acontecendo dentro da própria mente. Caminhou até a estante e passou a mão pelos livros empoeirados, refletindo sobre todos os títulos promissores que nunca chegariam a nascer. Era triste pensar em todo o potencial que ela acreditava estar sendo perdido. Ela até indagava se não estaria se iludindo quanto a isso também. E sentia, aos poucos, todas as esperanças se esvaindo do coração. 

A moça, que já estava mergulhada na escuridão do quarto, finalmente considerava desistir. Ela poderia ser florista, cozinheira ou quem sabe dançarina. Cuidaria das flores, faria bolos confeitados ou rodopiaria no ar, já que não podia converter pensamentos em palavras. Eram bons planos, embora nenhum deles aquecesse suficientemente a sua alma. Mas já era tarde, e o tempo cobrava seu preço. Ela já não podia ser uma sonhadora como antes. A vida real a puxava pelos pés, como um demônio que a arrastava para sombras. 

Sentindo o coração pesado de tristeza, ela se sentou novamente na cadeira. O lápis e o papel quiseram enxugar as suas lágrimas, mas não podiam executar ação nenhuma sem ela. Quem seria ela de agora em diante? Quem ela tinha sido durante todo esse tempo em que esteve se enganando? O que seria de todos os seus personagens que seriam abandonados? Eles ficariam sem seus finais felizes ou desfechos trágicos, para sempre vagando sem rumo no inferno nas histórias incompletas. Ela se sentia muito culpada por isso, mas não via alternativa. 

Até que, enfim, ligou a lâmpada em cima da escrivaninha. Ela não parou para olhar para o mundo lá fora. Pegou o lápis com firmeza, e este ficou espantado ao se sentir pressionado contra o papel. Ela rascunhava a folha energeticamente, deixando florescer um universo inédito entre as suas linhas convidativas. Não pensou sobre as vozes que faziam barulho lá fora. Não pensou sobre a luz alaranjada do abajur que vez ou outra falhava. Não pensou sequer em todos os bloqueios que tinha criado para si mesma. Ela só escreveu. Assim, simplesmente. Bastou que todas as cobranças se calassem. 

Postador por: Ana Letícia 

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