Fugir de mim

18:49



Vivo sob o fardo de correntes que eu mesma pus. São um adorno discreto, construídas a partir de sonhos dos quais eu ouvi falar. Ideais distantes cultivados por pessoas com belos discursos e almas duvidosas. As lendas sobre o paraíso são contadas em cada esquina, e cada um tenta encontrá-lo de algum forma. É uma pena que o tal lugar perfeito esteja tão longe de nós, e que a caminhada até lá possa custar a perda de si mesmo. 

O que são os dias de paz comparados a alguns aplausos? Nenhuma pequena alegria poderia se comparar a todos os privilégios que eu imaginava. Eu queria ir embora de mim para alcançar tudo que eu cobiçava. Estava cansada de não ter a beleza, o talento ou o carisma de tantos outros. O meu paraíso era exatamente como os que vendiam as revistas, e eu faria de tudo para conquistá-lo. Se me dissessem o que era belo, eu queria o magnífico. Se me alertassem sobre o que era certo, eu nem dava ouvidos. Estava tão obcecada em fugir que sequer notei quando me deixei para atrás. Quando me fundi aos moldes de outro alguém, e deixei de lado as verdades nas quais eu acreditava. 

Porém, quando os holofotes se apagam, tudo que temos é a nós mesmo. Portanto, se eu não tinha a mim, porque havia deixado para atrás na busca de ser outro alguém, eu estava sozinha. E não há solidão mais cruel que a falta de si. Eu estava sozinha e acorrentadas as todas as expectativas vazias que construí. O paraíso nunca chega. Lá fora só há escuridão. A verdadeira luz vem de dentro, e quem não puder enxergá-la, estará para sempre perdido. 

Imagem de art, grunge, and soul

Postado por: Ana Letícia 

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2 comentários

  1. Belo texto. A vida, para quem se atreve a viver, requer muita coragem, para ser o que se é, para viver com plenitude, para fugir das correntes que nos prendem desde o momento que nascemos.

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    1. Pelo menos, em meio ao caos, às vezes a gente encontra meios de tirar as correntes. Receber um elogio de alguém que se admira é bastante libertador: obrigada!

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