Crônica: Válvula de escape

10:55


Quebrar a rotina para reler meu livro favorito é como voltar para casa após um dia muito agitado. Não casa no sentido físico, na qual eu posso deitar no sofá, fechar os olhos e respirar bem fundo, esquecendo-me momentaneamente das obrigações que ainda me aguardam. É o sentimento de pertencimento e aconchego que você sente quando está em um ambiente bastante familiar, longe de todo perigo e frustração, que faz o coração da gente se aquecer de um jeito engraçado.

Começar um novo livro é como invadir um território desconhecido. Aventurar-se por lugares inusitados, conhecer pessoas, envolver-se com histórias. Nunca se sabe se a experiência valerá a pena. Você pode acabar odiando alguém pelo meio do caminho, ou sofrer intensamente com a perda de um amigo. Paixões podem surgir por personagens presos no mundo de papel. Sua mente pode fluir por cenários antes impensáveis e te despertar o desejo de expandir os seus limites. Talvez a experiência seja rasa e você decida só molhar os pés e sair. Talvez você se veja mergulhado nesse novo mundo. É sempre um mistério. É impossível julgar somente pela capa.

Abandonar uma leitura pela metade é um ato de coragem bastante doloroso. Há pessoas que eu decido que não gosto logo de cara, uma opinião que elas podem mudá-la com o tempo ou agir de modo para reforçá-la. A cada novo capítulo, sinto menos vontade de desvendá-las. O afastamento às vezes é involuntário, às vezes não. O mesmo acontece com os livros. Detesto deixá-los incompletos, mas nem sempre é possível encontrar motivos para ir até a última página. Histórias têm personalidade. Algumas são cativantes, outras não. Algumas são atraentes, outras me fazem querer sair correndo.

Apaixonar-se por um livro não é muito diferente de se apaixonar por alguém. Cada página é uma nova descoberta. Você pode começar a ler devagar, mas quando se der conta, não conseguirá mais se desprender da leitura. Seu desejo é consumi-la mais e mais, e quando não está lendo, está pensando sobre ela. É um sentimento intenso e incontrolável, algo maior do que você pode lidar. Términos são sempre ruins. Não importa como seja o final, sempre haverá saudade dos melhores momentos em seu coração. As lembranças trarão sorrisos ou decepção, que farão você revisitar as páginas ou abandonar o livro em algum lugar da sua estante.

De todo modo, acho que prefiro alguns livros a certas pessoas. Tem gente que é incapaz de despertar todas as emoções que uma boa leitura proporciona e ainda é impossível fechar alguém e abandona-lo em cima da mesa, como podemos fazer com os livros. É certo que nenhuma história é tão profunda e inusitada quanto a vida real, com suas nuances e personagens complexos. No entanto, quando esta se torna pesada demais, não há válvula de escape melhor que um bom livro. 

Postado por: Ana Letícia 

Posts relacionados

0 comentários