Está em branco o mais bonito dos já escritos livros

10:20


Me escrevi para você. Traduzi em linhas e em palavras nada complexas toda a minha complexidade, em um exemplar único, exclusivo e longo, para te dar de presente. Me entregar de bandeja, cada detalhe escrito no papel.

 E você aceitou. Analisou a capa e pensou que talvez valesse a pena ler. Leu a dedicatória e abriu um sorriso. Leu o prefácio e franziu a testa com um interesse que me iluminou de esperança e expectativa. Riu com o mais bobo diálogo que traduzia bem todo o meu simples senso de humor. Gargalhou com as minhas confusões. Se entregou para a história e se envolveu com a personagem principal.

Virou uma página, se dedicou profundamente a alguns capítulos, e então, para a minha surpresa, enquanto eu escrevia uma continuação que te envolvia, você fechou o livro antes do final. Guardou numa estante, onde o sol nem bate e o aspirador de pó não alcança. Voltou para seus gibis e histórias rasas de 40 páginas, com letras grandes e ilustrações. 

Aos poucos, a tinta foi desaparecendo do papel, as frases foram se decompondo e perdendo o sentido. Da estante, me nutria da esperança de que talvez você só quisesse deixar o final para mais tarde, continuar lendo a história depois. As palavras desapareciam com o passar dos dias sem a atenção do leitor. 

Outros vinham, folheavam as páginas, preservavam bem o exemplar e tentavam ler o mesmo livro. Mas ele não fora escrito para qualquer pessoa, portanto não podiam compreender os escritos lá contidos. 

As melhores informações já não eram mais encontradas lá. No meio da linha, a pontuação já era falha, as palavras sumiam e ficavam as lacunas. Ficava o vazio. 

Quantas vezes não pulei da estante? Assim, quem sabe, ao me ter em mãos outra vez para me recolocar lá em cima, retomaria a vontade de ler... 

Até que, enfim, você nem se deu ao trabalho de me juntar do chão. A ficha, assim como eu, finalmente havia caído. Estava fadada ao esquecimento. Seria uma autora deixada no silêncio da história. Amanhã você não viria. Nem hoje. Nem agora. Nem nunca. Algumas histórias talvez nunca devam ser lidas. Ao menos não por você. Havia agora uma única palavra rascunhada nas páginas daquele velho livro.

Algum tempo depois, te vi pela fresta da cortina entrar correndo no quarto e retirar desesperadamente cada livro do lugar, numa busca incessante. Enfim, aquele bom exemplar de capa dura estava na sua mão. Te vi respirar aliviado, mas não por muito tempo. Você abriu e, logo na primeira página, viu a volta do seu desespero. Em branco. Como as seguintes. Folheou cuidadosamente, analisou cada página em busca da resposta e, só na última folha, com a única e última palavra do exemplar de mim dedicado a você, encontrou. "Fim."

Postado Por: Bárbara Andrade

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