Diário de viagem: Barcelona sob meu olhar

18:47

Sagrada Família 

Aqui estão minhas impressões sobre Espanha e Portugal. Não espere posts cheios de informações úteis para você, são meros relatos sentimentais sobre uma experiência marcante. Mas, por sorte, aposto que você pode encontrar uma ou outra informação útil por aqui <3

É horrível tirar fotos nesse céu cinzento. 

Ainda estou a bordo do voo enquanto escrevo, e agora vou contar sobre meus quatro dias em Barcelona. Restam 3h40 até chegar no Brasil, o que soa como uma eternidade, mas as luzes do avião estão todas apagadas e não quero incomodar ninguém ligando a minha para voltar a ler. O livro em questão é A Sombra do Vento, conhecem? Já escrevi sobre ele aqui no blog. É o meu favorito, pela série de emoções que ele é capaz de despertar e a narrativa envolvente que se abre em inúmeras novas tramas. Daniel Sempere, o protagonista, em seus relatos de uma juventude marcada por mistérios numa época sombria imediatamente após a guerra civil na Espanha, me fazia visualizar Barcelona com riqueza de detalhes diretamente do conforto da minha cama. Eu corria com ele pelas ramblas da cidade e podia ver até os tijolos nos muros das casas do bairro gótico.

É claro que a Barcelona que conheci pelos olhos emprestados de Daniel, nas décadas de 40 e 50, não é a mesma Barcelona turística que presenciei em 2016. Inclusive porque aquela que conheci através dos livros tinha muito da magia que só Zafón, o autor, é capaz de produzir. Ainda sim, estar presente naquele cenário foi uma experiência completamente inesquecível. Reler o livro agora, após ter estado lá, faz tudo parecer ainda mais vivo. E eu, aos poucos, página por página, estou redescobrindo o porquê de aos quatorze anos eu ter decidido que aquele era o livro mais querido que já li. 

(Progresso do texto interrompido por uma turbulência assombrosa) 

Faltam agora 3h20 para voltar para casa. Vou tentar continuar a escrever, mesmo que os balanços do avião já estejam me deixando (ainda mais) desorientada.

Não sei se vou me recordar de todos os detalhes da viagem com riqueza, não só porque minha memória às vezes falha, mas porque geralmente eu me entrego tão de coração à escrita que o texto acaba ficando mais poético do que deveria (e eu me esqueço do relato). No entanto, prometo que me esforçarei pelos seres iluminados que farão a gentileza de ler sobre minha experiência. 

Enfim. 

ruas de Barcelona

Chegamos em Barcelona por volta do meio-dia, se me recordo bem, e fomos de táxi até o apartamento bem próximo da Sagrada Família o qual havíamos alugado pelos quatro dias. Só pudemos deixar as malas, porque o apartamento era liberado apenas às 15h, então teríamos mais 3h para matar. Meu primo George e sua família (que moram em Bilbao) só chegariam à noite, então fomos dar um passeio pelas redondezas para almoçar e nos familiarizar com a cidade. Mais tarde descobriríamos que o taxista nos enganou e cobrou quinze euros a mais do que deveria na corrida, mas, por enquanto, estava tudo bem.

Passamos em frente à Sagrada Família, um monumento que está em construção há pelo menos cem anos, creio eu, e cujas gruas em volta já fazem parte da paisagem (assim como os inúmeros turistas). Isso porque a obra foi projetada por Gaudí, um famoso arquiteto catalão, que era muito religioso e defendia que a igreja deveria ser erguida com o dinheiro das doações dos fiéis, e não do governo ou das grandes empresas. Mas com o preço do ingresso para visitação salgado como é, na minha opinião, eles já podiam ter terminado. Além disso, as obras de Gaudí são bem famosas e originais, tornando-as bem fáceis de reconhecer pelo seu estilo modernista característico. 

Notem que eu disse "catalão", e não "espanhol". Isso se dá pelo fato de que regiões como a Catalunha, onde fica Barcelona, e o País Basco, onde fica Bilbao, têm movimentos separatistas e muitas pessoas desejam que estas existam de forma independente, libertando-se de Madri. Há intrigas de muitos anos, e cada região dessas tem culturas particulares, o que fomenta esse debate. Na Catalunha todos falam a língua local, o catalão, e no País Basco estão tentando fortificar o euskera, o dialeto deles que é, inclusive, bem difícil. Além disso, a monarquia, que já não tem tanto valor na Espanha como tem na Inglaterra, por exemplo, possui menos importância ainda nessas regiões, por estar muito ligada a Madri. Não sou a melhor pessoa para dizer se esses movimentos separatistas são sensatos ou não, mas, por causa de um trabalho de sociologia que fiz analisando a política da Espanha, posso dizer que essa situação é fruto de tensões nada recentes.  

É muito estranho estar num lugar em que todo mundo fala uma língua diferente da sua. Não todo mundo, é claro, deviam ter muitos brasileiros por lá, eu inclusive identifiquei alguns ao ouvir conversas alheias lanchando no Starbucks. Mas, essencialmente, todos ali falavam catalão ou, no máximo, espanhol. Treinei um pouco meu inglês em lojas de chineses e outros imigrantes, que existem aos montes na Europa, porque às vezes meus tios queriam comprar suvenires e os vendedores sequer entendiam o que eles estavam procurando. Encontramos muitas lojinhas como essa, por toda parte, e eram todas praticamente iguais. Tanto na Espanha, quanto em Portugal. A diferença estava apenas nos preços e no quão mau-humorado era o vendedor. 

Encurtando a história, nós andamos bastante pelas ramblas próximas a Sagrada Família até acabar num restaurante qualquer, onde até que comemos bem, após nos cansáramos de analisar as alternativas. Lá na Espanha eles tem a cultura do "menu do dia": você paga um valor fixo e escolhe, entre as opções limitadas, um prato de entrada, um segundo prato, uma sobremesa e tem direito a bebida e café. Custa em torno de 13 euros. O problema é que eu ficava cheia já no primeiro prato, e era difícil acertar numa comida boa, já que os cardápios têm títulos pouco descritivos e estavam sempre em catalão. Ah, também foi difícil achar estabelecimentos com wifi bom e liberado.

Logo depois, passamos no supermercado para comprar itens para nossos cafés da manhã e jantas. Eles têm alguns costumes e itens bem diferentes dos nossos. Dava muita agonia ver os pedaços de carne enormes pendurados em uma prateleira qualquer, super expostos. E quanto a marca dos alimentos, como nós não conhecíamos nenhuma direito, acabávamos comprando sempre o mais barato (e dava certo). 

O apartamento só abriu às 15h em ponto. Não sei dizer como foi feito o aluguel, porque foi meu primo que resolveu tudo, mas provavelmente foi em um daqueles sites que fornecem esse serviço. Aliás, é algo crescendo em Barcelona, o que tem deixado os morados um tanto indignados. Vi algumas mensagens pichadas em muros mandando os turistas voltarem para casa e outras falando que a vizinhança precisava de sossego. Porém, como lidar com esse problema se hoje o turismo é uma das atividades econômicas locais mais fortes? A cidade precisa disso, mas os moradores também não deixam de ter razão. 

"a vizinhança precisa do seu descanso"

A dona do nosso apartamento era simpática e o lugar muito agradável, bem localizado e bem diferente das casas que já visitei no Brasil. Há muitas coisas com estrutura antiga na Europa, pois eles inteligentemente conservam ao menos as fachadas dos prédios, dando às ruas um aspecto quase de como estar viajando no tempo, ou de estar preso no cenário de um filme muito bonito. As folhas amareladas do outono deixavam a paisagem ainda mais encantadora, e a estrutura urbana de Barcelona, projetada com as esquinas em 45° e as ruas largas, permitiam a entrada de mais luz do sol para afastar um pouco aquele frio insuportável (para mim, que sou filha da famigerada Cidade do Sol). 

Passei o resto do dia e noite em casa mesmo. Meu primo só chegou bem tarde, e eu pude rever as filhas dele no dia seguinte. A mais velha é muito tranquila e comportada, mas faz umas perguntas que eu não sei se fico constrangida ou se rio. Dessa vez ela me perguntou novamente se eu tinha namorado, e quando eu disse que sim, ela soltou um suspiro admirado e me encheu de perguntas recheadas da inocência que só as crianças têm. A mais nova é cheia de personalidade, e muitíssimo esperta. Recusou-se a segurar a minha mão a viagem quase toda, mas mesmo com a teimosia, sua doçura não me deixava desistir de tentar cativar aquela garotinha. Elas certamente foram um ponto alto da viagem. Assim como o creme de avelãs que compramos no supermercado e comi todo dia no café da manhã, Nocilla. É um substituto barato da Nutella muito melhor que o original #sdds

Por enquanto, vou encerrar meu relato, para que os posts não fiquem muito grandes. Espero de coração que eu não deixe passar nenhum detalhe e que vocês estejam gostando. 

Postarei um texto em breve falando sobre o porquê de estar postando tão pouco, mas até lá, só lhes dou meu milésimo pedido de desculpas. 

  • Há tarifas variadas sobre táxis (depende da bandeira, das malas, de onde você pega o veículo), mas uma viagem do aeroporto para a Sagrada Família deve dar, em média, uns 30 euros. 
  • Na Espanha, eles falam "Hola" para quase tudo que envolve cumprimentos e muito "Bali" para basicamente qualquer coisa (eu não entendi bem). 
  • Não é tão difícil desenrolar o espanhol, mas tomem cuidado com os falsos cognatos. 
  • Nos restaurantes exija carne muito bem passada, senão você vai acabar comendo o animal quase vivo. 

Postado por: Ana Letícia 

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